O ditado ‘fazer do limão uma limonada’ nunca fez tanto sentido para o casal Bárbara Araújo e Allan Alves, ambos de 23 anos. Em abril desse ano, a vida deles deu uma reviravolta. Ela era vendedora e ele trabalhava como gerente em uma padaria até que os dois foram demitidos no mesmo mês e ficaram sem renda fixa. Se nos primeiros meses a vida de desempregado teve um gosto amargo, hoje, é só doçura. Para enfrentar a crise que o país atravessa e para colocar as contas em dia, os dois viraram empreendedores ao fundar a BC Bolos, um negócio que aposta na venda de bolos de pote e em bolos decorados.

Tudo começou quando Bárbara fez um bolo em casa para comemorar o aniversário do namorado em abril, mas, como não tinha muita experiência, o resultado não foi dos melhores. Em maio, ela se aventurou novamente na cozinha com a ajuda de uma amiga e, dessa vez, teve sucesso. “Depois que fiz o meu bolo, peguei algumas encomendas. Fui fazendo bolos personalizados destacando profissões e os clientes foram gostando”, diz Bárbara.

Bárbara e Allan fundaram a BC Bolos após serem demitidos dos empregos. (Foto: Michele Silva)
Bárbara e Allan fundaram a BC Bolos após serem demitidos dos empregos. (Foto: Michele Silva)

Com o intuito de se diferenciar dos demais comerciantes e confeiteiros que têm na Rocinha, o casal buscou inspiração em uma matéria que viu na internet. O texto contava a história de duas irmãs de Minas Gerais que vendiam bolos de pote gelado para complementar a renda. O doce é composto por camadas de massa que se intercalam com recheios e são finalizados com uma cobertura. O casal carioca decidiu experimentar e deu certo.

“Na primeira vez que vendemos (em junho), foi uma novidade para todo mundo. Fizemos mais ou menos 20 unidades. As pessoas perguntavam o que era bolo de pote, porque ninguém conhecia. Apesar da novidade, as vendas foram fracas na primeira vez”, explica a confeiteira, que vende os sabores de brigadeiro, beijinho, doce de leite e moranguinho, além dos especiais, como leite ninho e baba de moça.

No começo, os potes eram grandes, tinham cerca de 500 gramas, e custavam R$ 10. Os moradores achavam caro e, por isso, as vendas eram ruins. A solução foi diminuir o tamanho e o preço passou a ser R$ 5 a unidade. Sem loja física, a estratégia para atrair os clientes foi investir na propaganda pelo Facebook, além do boca a boca. O público podia fazer encomendas pela rede social, mas muitos acabavam não buscando e o casal começou a ter prejuízo. Para alavancar as vendas, foi preciso uma dose de criatividade. “Nós sentamos um sábado na frente do prédio onde moramos, na Travessa Palmas, e colocamos os bolos de pote em uma caixa. Avisamos no nosso perfil e fomos. As pessoas chegavam e perguntavam se ali era o BC Bolos”, relembra Bárbara.

Allan realiza as entregas das encomendas com a ajuda da própria moto. (Foto: Michel Silva)
Allan realiza as entregas das encomendas com a ajuda da própria moto. (Foto: Michel Silva)

Para dar conta da grande procura, o casal passou a dividir as tarefas. Bárbara ensinou para Allan como fazia os recheios, enquanto ela cuidava das massas. Os bolos de pote começam a ser feitos na sexta e são finalizados no sábado, dia exclusivo para as vendas, que ocorrem na Travessa Palmas. “Hoje vendemos entre 150 e 200 bolos de pote por sábado. Durante a semana, nos dedicamos aos bolos personalizados e chegamos a fazer de dois a três por dia” afirma Bárbara.

Pesquisa aponta que jovens de favela desejam ter o próprio negócio

Pesquisa realizada pelo Instituto Data Favela em parceria com a CUFA (Central Única das Favelas) e o Data Popular afirma que o país tem 12,3 milhões de pessoas morando nas favelas. A cada dez moradores, quatro tem vontade de abrir o próprio negócio e 55% deles desejam realizar esse sonho em até três anos. Em todo o país, 23% dos brasileiros querem empreender. Já nas favelas, 63% dos entrevistados afirmaram que desejam ter um negócio no local onde moram, como fizeram Allan e Bárbara.

O estudo apontou que a principal vantagem de empreender, de acordo com os entrevistados, é o fato de não ter um chefe dando ordens. Para Allan, esse também foi um dos pontos favoráveis.

“Eu sempre quis ser dono do meu próprio negócio, ter a minha própria renda. No começo, investíamos todo o dinheiro que a gente ganhava com as vendas no negócio. Agora, já conseguimos pagar as nossas contas”, afirma o empreendedor, que além de vender os bolos de pote presencialmente, também realiza entregas. Os próximos planos, segundo ele, são abrir uma loja e contratar pessoas para ajudar na confecção dos bolos de pote.

Para quem deseja empreender, Bárbara dá um conselho. “Tem que lutar, porque tudo o que era fácil se torna difícil. Mas é preciso acreditar que você é capaz”, diz.

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