
Baile charme volta à favela e reúne moradores de diferentes gerações uma vez por mês
Desde agosto, o evento ocorre na Via Ápia, rua mais movimentada da Rocinha, e mostra o poder da dança que reúne diversos ritmos musicais
Uma vez ao mês, sempre em um domingo, a rua mais movimentada da Rocinha, a Via Ápia, ganha outro ritmo: o som do baile charme. Desde agosto, os rocinhenses, cariocas de vários cantos da cidade e até turistas, aproveitam a festa organizada pelo RocinhaCast, para se soltar na rua transformada em pista de dança, com passinhos clássicos da cultura charme.

Ritmados pelos gêneros musicais R&B, Soul e Hip-Hop, das 16h às 00h, o baile vem reunindo mais de 300 pessoas de diferentes gerações unidos pela batida do charme. Os charmeiros capricham no visual ‘all black’ usando muitos acessórios dourados inspirados na cultura black americana dos anos 1990. Julia Conceição, de 31 anos, moradora da Chácara do Céu, é uma das que brilham na pista com estilo.
“É minha segunda vez no Baile Charme da Rocinha. Soube pelo Instagram que ia ter e vim na hora. Quando venho, tento resgatar um pouco do estilo da gringa e o dourado chama atenção. Então, coloco a roupa, os acessórios e venho”, disse Julia.
Além do brilho dourado de brincos e correntes, os charmeiros de 2025, adicionaram leques – tão comuns na cultura LGBTQIAPN+, na composição do visual do baile. Enquanto descansava para retornar à pista de dança, Julia declarou seu amor ao ritmo.
“O que eu mais amo são as músicas! É muito minha vibe e me sinto bem ao dançar com pessoas que também gostam desse estilo. Sempre que estou triste, vou para o baile charme. Aqui é o meu refúgio.”

Mais do que passinhos diferentes da cultura tiktoker e do funk, o ritmo charme carrega uma história de resistência negra de décadas no Rio de Janeiro. Surgiu nos subúrbios e favelas cariocas entre o final da década de 1980 e 1990, o baile tem músicas de pegada suave e dançante, que são herdeiras do soul music e do R&B.
A festa é considerada patrimônio imaterial da capital do Rio desde 2013 e se voltou à moda pela resistência enquanto expressão cultural a partir do baile do Viaduto de Madureira, que ocorre aos sábados. Hoje, quem quer curtir o ritmo, consegue encontrar baile na esquina da Rua do Senado e Lavradio, no centro da cidade do Rio de Janeiro e, melsamente uma vez por mês, na Rocinha.
Segundo o cineasta Emílio Domingos, diretor do filme Black Rio! Black Power!, o charme é uma expressão do movimento cultural negro no Rio de Janeiro. “Quando o charme surgiu nos anos 1980, veio com grande força para afirmar a estética negra e a ideia de coletividade a partir da dança. É historicamente importante, pois é um dos herdeiros do movimento Black Rio dos anos 1970”, ressalta Domingos. Ele explica a importância do baile charme nas favelas e a presença de jovens tiktoker na festa.
“O retorno do charme fala sobre a necessidade da juventude atual de conhecer um pouco da própria história e de se reconectar com um passado importante. Ter baile charme nas favelas é essencial, porque é uma cultura negra e favelada que historicamente sempre serviu como um ponto de encontro de valorização do negro com o sentimento de comunidade.”
O baile
A 4ª edição do Baile Charme da Rocinha foi sonorizada pelo DJ Pedro Ramos e Gordura, ambos crias do morro, mas também teve a presença de convidados especiais como: Henrique DJ e DJ A do Baile Charme de Madureira. Os passinhos coreografados com giros e palmas marcadas no ritmo, com um balanço suave de corpos, traz largos sorrisos como parte da atração.

Um dos apaixonados pelo som é Paulo Cesar Negro. Com 64 anos e morador do Méier, ele frequenta os bailes há 42 anos. Para ele, o baile charme é uma festa abastecida por uma cultura de bem estar social que o curou de um dos momentos mais difíceis de sua vida.
“O charme é associado a amizade e saúde. Ele atinge todas as faixas etárias e é um sucesso que está em alta [porque] o charme é terapia, como costumamos dizer, porque ele salva vidas. O estímulo da dança ajuda muito quem tem ansiedade, estresse ou depressão. Eu tive câncer e o que me ajudou foi o charme”, revela Paulo.
Ele relembra as regras de ouro da festa que todos devem seguir. “O respeito e a humildade são princípios norteadores do baile charme. Não pode se achar uma estrela, porque todo mundo quer dançar. Por isso, tem vários passinhos diferenciados para interagir com a galera.”
A professora Viviane dos Santos, 43 anos, moradora da Rua 4, curte os bailes há mais de 20 anos. Vestida de preto com cordão e brinco dourado, ela recorda que o ritmo do charme era comum na Rocinha no passado, mas foi ofuscado pela forte presença do funk, forró e pagode.
“O baile charme está presente no Rio desde a década de 1980. É muito importante ter esse movimento de volta nas favelas. Já teve baile charme na Rocinha, até meu marido e o Henrique DJ fizeram um projeto voltado para esta cultura, mas não deu certo porque aqui a cultura competia com a força de outros gêneros”, conta Viviane.

A moradora também destaca a importância do resgate do baile charme na Rocinha. “Vim em todas as edições aqui na favela, acho uma proposta excelente. É essencial ter aqui para as pessoas conhecerem outro ritmo musical. É uma chance para a população local e pessoas de fora curtirem a maior favela do país.”
Afinal, seja como for, a diferença entre o charme e o funk, como anuncia o “Rap da Diferença“, de autoria de MC Marquinhos e MC Dolores, é bem pouca: “um anda bonito e o outro elegante”, mas ambos tem a proposta de divertir e ser uma expressão da cultura negra periférica do #Errejota.





