
Academia de Cinema da Rocinha conquista prêmio em festival de cinema em Paris com o curta Crônicas Marginais
O curta-metragem Crônicas Marginais, primeira produção original da Academia de Cinema da Rocinha (ACR), ganhou o prêmio de melhor curta no festival Cinéma de Femmes, em Paris, na França. O filme, com 20 minutos de duração, retrata o cotidiano e os desafios vividos por moradores da Rocinha.
O Cinéma de Femmes é um festival sediado em Paris e fundado em 2021 pela diretora artística Mon Ross. A mostra é dedicada a produções inéditas de realizadoras sul-americanas e ocorre anualmente em março, em celebração ao Mês Internacional dos Direitos das Mulheres. A programação destaca temas como maternidade, conflitos sociopolíticos e pautas LGBTQIA+, com foco em filmes da Argentina, Brasil, Colômbia, Venezuela, Paraguai, Uruguai e outros países, sempre legendados em francês.
A curadora do festival, Mon Ross, argentina radicada em Paris há muitos anos, professora de cinema e diretora artística do evento, tomou conhecimento de Crônicas Marginais por meio de exibições realizadas no Festival do Rio. Encantada com a produção, ela entrou em contato diretamente com os realizadores da Rocinha para convidá-los a participar da mostra competitiva. Segundo a equipe, a proposta foi aceita imediatamente — e o resultado acabou sendo a vitória do filme.

A participação no festival só foi possível graças ao apoio financeiro obtido pelo edital PISTA, da FAPERJ. O núcleo de produção da ACR já tinha recursos destinados ao marketing digital, mas decidiu investir essa verba na viagem ao festival, avaliando que a experiência teria maior impacto e retorno. A estratégia funcionou: além do prêmio, a equipe conquistou visibilidade internacional.
O curta já foi selecionado para um festival na Itália, com exibições previstas para agosto e outubro de 2026. A equipe também estabeleceu conexões com produtores do Uruguai, Paraguai e Argentina e recebeu convites para exibições em comunidades brasileiras que se identificam com a temática do filme.
Para Michelle Estevan, fundadora da ACR junto com Marcos Braz e Daniele Castro, a participação no Cinéma de Femmes representou mais do que um prêmio. Eles afirmam que a presença do filme em Paris funciona como uma afirmação positiva de que moradores de favelas são “potentes, criativos e capazes de chegar onde quiserem”. O grupo destaca que essa trajetória pode se concretizar pelo cinema, mas também pelo esporte, pela música, pelos estudos, pelo empreendedorismo ou pela literatura.
“Recebemos convite para apresentar o filme em bairros mais humildes de Paris, que lembra muito a nossa história, então nós teremos o maior prazer de também estar compartilhando e falar que esse festival foi uma experiência incrível, mostrar para essas pessoas que o ‘favelado’ é potente pra caramba, ele é criativo, ele pode chegar onde ele quiser. Nós chegamos pelo cinema, mas nós acreditamos e sabemos que muitos podem chegar onde quiser pelo esporte, pela música, pelos seus estudos, pelo seu empreendimento, pela sua literatura.”, disse Michelle Estevan.
A equipe celebra a conquista com gratidão e afirma que o projeto simboliza um novo movimento que nasce dentro das favelas cariocas, capaz de inspirar pessoas do Brasil e do mundo.
“Esse prêmio é a confirmação de um sonho e esse sonho de três pessoas virou um sonho coletivo, foi sendo multiplicado ao longo desses anos, com apoio de professores voluntários, apoio de amigos e mostrando que é possível, que é possível a gente realmente um dar mão para o outro, é possível a grande transformação.“, conta Marcos Braz.
Cinema na favela ainda é desafio
Os realizadores também destacam que o principal aprendizado para o audiovisual brasileiro é reconhecer que fazer cinema não é fácil e que não se pode romantizar esse processo. Segundo os criadores da ACR, muitas pessoas trabalharam de forma gratuita no curta-metragem premiado, e a própria equipe colocou dinheiro do bolso para conseguir finalizar Crônicas Marginais. Apesar do apoio fundamental da atriz Marieta Severo, que consideram imprescindível, o grupo reforça que não se pode normalizar a ausência de financiamento adequado.
O aprendizado, afirmam, é que é possível fazer cinema, mas isso não pode significar que a favela deve produzir de forma precária ou “de guerrilha”. Eles defendem que produções feitas nas favelas precisam de apoio financeiro, condições profissionais e remuneração digna. “Queremos pagar professores, supervisores, atores da comunidade, dar cachê justo, pagar o menino da produção, mesmo que seja aluno. Ele precisa ter dinheiro para passagem, para comer”, afirmam.
A equipe lembra que muitos dos alunos que participaram de Crônicas Marginais estão formados e preparados para o mercado, mas seguem sem acesso e sem oportunidades, porque o cinema brasileiro ainda é elitista. A missão da Academia de Cinema da Rocinha é justamente romper essa lógica, mostrando que esses profissionais são capazes e devem ser remunerados como qualquer outro trabalhador do audiovisual.
Outro ponto enfatizado é a necessidade de respeito e igualdade quando equipes externas filmam na favela. Eles criticam práticas comuns, como pagar valores menores para profissionais locais em comparação aos padrões do mercado. “Isso nós não queremos mais. A Academia de Cinema da Rocinha veio para formar profissionais e colocar essa galera no mercado com respeito”, ressaltam.
Em complemento, os realizadores destacam que o audiovisual brasileiro vive um momento de ascensão internacional, com filmes nacionais alcançando destaque global. Esse cenário abre uma oportunidade importante para o cinema de favela, especialmente no campo das narrativas — com histórias contadas “de dentro para fora”, por quem vive a realidade retratada.
Para eles, o grande aprendizado que fica para o audiovisual brasileiro é a importância de valorizar a base. Sem investimento consistente em formação e oportunidades, afirmam, a indústria não cresce. O modelo desenvolvido pela Academia de Cinema da Rocinha, dizem, é escalável e pode ser replicado em outras comunidades, podendo receber recursos públicos, privados ou até internacionais. “Estamos valorizando o Brasil no exterior e gerando oportunidades.”
O premiado curta já gerou mais de 30 oportunidades profissionais para alunos da ACR. Cinco deles chegaram a trabalhar para grandes plataformas, como Netflix e Globoplay. Porém, essas chances foram pontuais. O objetivo agora é conquistar continuidade: “Queremos que essas oportunidades tenham consistência. Temos mais filmes para fazer — só precisamos dos recursos.”





