
Cães e Gatos largados à própria sorte na Rocinha
Abandono de pets expõe a falta de políticas públicas para controle de zoonose nas favelas
Basta caminhar alguns metros pela parte baixa da Rocinha para perceber que o abandono de bichinhos pelos becos e vielas deixou de ser exceção e virou uma ação normalizada. Cães magros dividem espaço com motos, gatos se escondem para escapar do medo e da fome. Filhotes aparecem “deixados” no morro para sobreviver. Muitos desses pets tiveram um dia casa e nome, mas por algum motivo foram deixados fora de casa para viver soltos, adoecendo ou reproduzindo sem controle mais animais.
A cena denuncia a ausência de políticas públicas para controle da zoonose dentro das favelas, mas também da falta de conscientização dos moradores. Em 2024, a Comissão de Educação do Senado aprovou o Projeto de Lei (PL) 6.404/2019, que institui o mês do Natal para promoção da campanha nacional voltada à conscientização contra o abandono de animais.
O Dezembro Verde tem a proposta de reforçar à população que largar pets nas ruas é crime e incentivar a guarda responsável.
A iniciativa busca aproveitar o período de férias e festas de fim de ano, quando os casos de abandono de animais têm tendência a aumentar, para chamar a atenção da população sobre a responsabilidade de tutores. E claro: incentivar a adoção cães e gatos!
Animais abandonados são um problema de saúde pública, pois eles podem aumentar a transmissão de doenças e causar acidentes, afetando não apenas o bem-estar animal, mas também a saúde de toda a população. A leptospirose, por exemplo, é causada por urinas de animais infectados como ratos, mas também por outros animais como cães, bovinos, suínos e equinos.
Para enfrentar o problema dos pets abandonados, a Prefeitura do Rio mantém um serviço de vacinação gratuita e de castração feito de forma descentralizada pela cidade. O Programa Bicho Rio, mantido pela Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais, não tem um calendário específico somente para a Rocinha e outras favelas.
O serviço é oferecido em 10 unidades, sendo apenas uma localizada na Zona Sul, no Flamengo. O calendário de 2026 já está disponível. Para acessar, aponte o celular para o QR Code.
Também é possível agendar o serviço de castração pela internet através do portal Minha Saúde Rio. Na área “Meus Pets”, o tutor do animal agenda a esterilização gratuitamente. O atendimento é feito no Hospital de Medicina Veterinária Jorge Vaistman, em São Cristóvão, na Zona Norte.
Além de serem castrados, cães e gatos também são microchipados. Acesse o serviço através do QR Code!
Soluções comunitárias
Enquanto não há uma política pública específica para o controle de animais dentro das favelas, os moradores criam soluções. Mery Cavalcanti, 58 anos, moradora da Rua 2, viu a casa dela virar refúgio de gatos feridos, que começaram a aparecer durante um período de tiroteio. Sua cadela Lili escondia os gatinhos amedrontados que iam se refugiar lá para protegê-los. Mery acabou adotando 12 gatos.

Com a ajuda voluntária de uma veterinária, ela acolheu os filhotes, tratou as doenças e garantiu cuidado e dignidade para todos, mesmo com poucos recursos financeiros.
Já Cristiano da Silva, 41 anos, ex-morador da Rua 2, é outro exemplo de solidariedade. Ele começou a ajudar animais em 2011, quando uma cadela grávida foi abandonada. Comovido com a situação, ele criou um programa de castração financiado através da reciclagem de tampinhas e óleo usados. Cerca de 200 animais já foram castrados pelo projeto Rocinha Animal Wordwide.
Ainda, através do programa estadual RJ Pet, Cristiano levava semanalmente cães e gatos da Rocinha para castração, mas o serviço foi suspenso neste ano. A paralisação aconteceu devido aos indícios de irregularidades no contrato que concentrava o programa apenas na castração, segundo o subsecretário estadual de Proteção e Bem-Estar Animal, Juan Pablo Almeida, em debate na Comissão de Defesa e Proteção dos Animais, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Enquanto isso, projetos como o Dogs Rocinha tentam suprir parte da demanda, divulgando casos de abandono e articulando lares temporários. Sem espaço físico ou veterinários parceiros, o projeto conta com os próprios moradores para resgatar, cuidar e adotar animais.
O projeto “Na Favela Turismo” também instalou suportes com sacolinhas e pontos de descarte para fezes na Rua 1 para facilitar o cuidado com o espaço público. ”Se cuidamos da nossa casa para receber alguém, precisamos cuidar das nossas ruas e becos também”, afirma Renan Monteiro, 41 anos.
O Dezembro Verde lembra que combater o abandono é garantir castração, vacinação, fiscalização e educação permanente. Na Rocinha, onde a desigualdade se revela de diversas formas, a vida dos animais é um retrato dessa realidade, mas a comunidade prova todos os dias que a solução pode começar no morro — mas não deveria terminar aqui.



