Agulha e pincel combinam?

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Há quem diga que não. O Fala Roça, caminhando na sua missão de descobrir e  divulgar talentos, encontrou uma criatura que faz isso muito bem. Emerson Costa Maria,  nascido em 26 de Setembro de 1972 em São João de Meriti, na Rua Eden. Tudo começou  quando seus pais, Dona Maria da Conceição e seu José Maria foi aumentando a sua prole,  gerando ambos, 6 filhos. Um dos irmãos de Emerson viu o interesse daquela criança pela  arte, incentivou-o ao desenho, mesmo sendo de caneta esferográfica. Os anos se passaram  e, quando ele terminou o Ensino Médio, a tatuagem entrou na sua vida, mas o desenho  continuou como arte paralela. Foi casado por 23 anos e tem um filho, também tatuador. Teve ateliês em vários lugares, sendo o primeiro em seu lugar de origem, São João de  Meriti. Passou pelos bairros de Piedade e Copacabana. Na pandemia, foi para a Lapa,  onde ajudou a construir o Santuário de Zé Pelintra, nos famosos Arcos. 

 Hoje, encarrega-se de enfeitar lindamente a nossa Passarela, onde desperta e  incentiva crianças a usar o pincel, seu segundo talento que é o de pintar quadros. Veio  definitivamente para nossa favela querida no ano 2000, onde une a agulha e o pincel no  seu Estúdio Agulha Nervosa Tattoo, na Travessa Kátia, onde trabalha e vive. Confessa  que ama o que faz e quer morrer fazendo. “A pintura me acalma e a tatuagem me realiza  financeira e espiritualmente, embora sinta a dor do cliente e está destruindo a minha  coluna”, diz Emerson com um largo sorriso.  

 Perguntado sobre religião, nosso entrevistado nos dá uma aula de História. Seguidor da Doutrina do Santo Daime, começa a contar como tudo começou: o  seringueiro Raimundo Irineu Serra, um negro maranhense, filho de escravizados, foi para  a região da Amazônia até o Acre em busca de melhores condições de vida. 

Emerson Agulha e suas telas. Foto: Gabriel Jaques

 Mestre Irineu acreditou que a extração da borracha seria por longos anos e não  foi bem assim. Em meados dos anos 30, com a derrubada da borracha no Brasil, trabalhava num seringal na  fronteira com a Bolívia e conheceu pessoas que o levaram a uma sessão com um xamã  peruano, onde ele conheceu a Ayahuasca. 

 Esta bebida, santificada por uns e demonizada por outros, é o resultado de um  chá feito da mistura de duas plantas amazônicas: o cipó-caapi e as folhas da chacrona.  Com gosto amargo, esta bebida só pode ser ingerida de forma ritualística. São cerimônias  de ensinamentos de religiões indígenas e africanas. Apesar de opiniões contrárias, a nossa  Polícia Federal consente que seja usada apenas com fins religiosos e proíbe a exportação. 

 E assim o nosso Emerson Agulha, seu codinome bem-humorado, vai ilustrando  passarelas, paredes e corpos tatuados. Como nasceu em 26 de setembro, véspera de  Cosme e Damião, as crianças estão sempre o seu redor. Finaliza, dizendo que seu maior  sonho atual é montar uma escola para ensinar arte à criançada.

Por Valdete Lima

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