
Viver na Rocinha é caro?
Turismo cresce na Rocinha e impulsiona preços. Entre renda e pressão, moradores enfrentam um novo desafio: continuar vivendo no próprio território.
Como o turismo tem influenciado nos preços dos serviços na Rocinha
Vista para os cartões postais do Rio, fácil acesso a praia e localização próxima ao metrô. Poderia ser as descrições de um bairro da Zona Sul, mas estamos falando da favela da Rocinha, que tem atraído os holofotes do turismo com tours pelos becos e lajes. As altas temporadas de visitas na favela tem um peso duplo. De um lado, empreendedores e locatários com possibilidade de lucrar com as excursões. Do outro, moradores que utilizam destes serviços e precisam driblar os altos preços para continuar vivendo na Rocinha.
Somente em janeiro de 2026, foram 41.852 turistas na favela, de acordo com o Na Favela Turismo. Essa forte presença muda os fluxos de circulação, mobilidade e também de moradia, considerando que existe um interesse em morar na Rocinha por conta dos elementos citados no início da matéria. Este fenômeno provoca uma supervalorização na Rocinha. Se pra gringo é mais caro, para o morador também fica. Enquanto alguns serviços, como o mototáxi, têm valores variáveis para quem é de fora, existem outros em que o preço permanece em alta, como por exemplo, os aluguéis de casas.
Se antes, você encontrava kitnets de R$300 a R$500, hoje o preço dobrou. Uma casa com quatro cômodos (sala, quarto, cozinha e banheiro) pode chegar a R$1.000. Considerando que o salário mínimo é R$1.621 e a cesta básica do Rio vale mais que R$800, mais da metade da renda mensal seria destinada apenas para moradia e alimentação. Nessa alta de preços, o morador precisa se reinventar para continuar vivendo no lugar onde ele nasceu.
“Na Rocinha tem uma regra de quanto mais baixo e mais fácil for o acesso do imóvel mais caro o valor do do aluguel cê pode cobrar. Só que eu não sigo isso. Eu faço uma pesquisa, vejo os imóveis próximos e parecidos e eu coloco um valor mais justo, digamos assim. Tem aluguel de R$2000 em uma casa de dois quartos. A minha eu coloquei pela metade porque penso que numa casa grande tem duas fontes de renda. Então talvez eles consigam bancar”, afirma Saymon Moreno, artista plástico e locatário de casas.
Também cria da Rocinha, Patriny Costa, de 30 anos, conseguiu algo quase impossível nos dias de hoje: comprar uma casa no morro. O processo não foi fácil, fora, no mínimo, 5 anos pagando até quitar a casa. E dentro dessa luta, a favela se transformou e o custo de vida aumentou. Hoje, já morando em uma casa comprada, ela enfrenta outros desafios. O valor da reforma, a possibilidade de alugar, para quem alugar. A produtora cultural enxerga o turismo como um processo que distancia as raízes da Rocinha de sua verdadeira identidade. Ela não quer lucrar com isso, mas se questiona como sobreviver dentro desse sistema.
“O custo de vida na Zona Sul, ainda mais aqui no morro, é muito caro. Por mais que a gente tenha acesso às coisas, é difícil ter um direcionamento enquanto favelado. A gente fica meio perdido.. Eu precisava pagar minha casa e também tinha que ajudar minha família. Tive que me abdicar de viver o básico pra dar conta. Me reconhecer enquanto vulnerável dentro dessas tarifas que já vão aumentando é importante para perceber que já conquistei muita coisa”, diz Patriny.

Ao olhar ao redor, Patriny percebe que outras pessoas estão precisando se realocar para se manter na Rocinha. Ela questiona onde as mudanças onde as mudanças trazidas pelo turismo vão levar, considerando que elas não são pensadas para o conforto do morador, mas sim para atrair quem vem de fora. O receio é que processo de gentrificação, ocorrido no Vidigal, por exemplo, aconteça na Rocinha. Este fenômeno atrai um novo perfil de moradores, ao mesmo tempo que expulsa quem é cria por questões econômicas.
Quando a dura realidade vira atração chamamos de exotização da pobreza. O contraste entre as longas filas no mototáxi e o desejo das crianças que dançam para os gringos para ganhar moedinhas mostram que passagem de estrangeiros por aqui que podem não ser apagadas e pesam no bolso do morador.





