Enquanto a rede pública apresenta falhas e falta de dados, moradoras da favela relatam que acessar os serviços de saúde é um ato político de resistência
“Funciona pouco, mas funciona.” A afirmação é de Laís Ferreira, recepcionista de 28 anos, moradora da Rocinha e graduada em Letras pela UFRJ, (sobre o processo de redesignação sexual). No Brasil, a cirurgia e tratamento de transição de gênero são um direito para mulheres trans desde 2019, garantido no Sistema Único de Saúde (SUS) pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Apesar da garantia legal, esse direito não costuma ser cumprido por questões de preconceito e falta de informação. O Brasil é o país que tem a maior taxa de mulheres trans mortas por ano, segundo o Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras de 2025 realizado pela ANTRA.
Embora o Sistema Único de Saúde ofereça hormonização e cirurgias de afirmação de gênero, o Fala Roça ouviu mulheres trans da favela para entender a real dimensão desse atendimento no território. Para Laís, o enfrentamento é um ato político: “É preciso ocupar esses locais. A saúde pública só será efetiva se for apropriada pela comunidade.”
As Clínicas da Família, por estarem na ponta do atendimento, são decisivas para a permanência de pessoas trans no serviço. Para Adriana Lemos, doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e professora titular da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da UNIRIO, o conhecimento das especificidades da saúde LGBTQIAPN+ é a chave.
“A unidade de saúde da família conhece as pessoas que moram ali. E pessoas trans necessitam buscar o território que deveria acolher. A capacitação e letramento sobre isso, numa perspectiva de educação popular, participativa e democrática, seria a ferramenta”, afirma a pesquisadora.

Foto: Connor / Fala Roça
Não foi o que Laís Ferreira encontrou quando procurou os serviços públicos durante seu processo de transição de gênero, preocupada com possíveis impactos na sua saúde. Durante o tratamento, percebeu dificuldades para obter orientações que são específicas da comunidade trans, ela diz. “Às vezes, falava coisas que eles não entendiam. Inúmeras vezes optava por tratamentos que eu já tinha pesquisado na internet, mas eles nunca tinham ouvido falar,” relata.

Foto: Connor / Fala Roça
A cabeleireira Beatrice Lima morou na Rocinha por 16 anos e durante todo este tempo, evitou recorrer ao SUS e à Clínica da Família, optando sempre pelo atendimento particular, inclusive para realizar sua cirurgia de prótese mamária, por receio de não ter sua identidade de gênero respeitada. Após realizar a retificação de seu nome em 2020, Beatrice precisou iniciar um acompanhamento na Fiocruz, há cerca de quatro anos. A experiência, porém, foi completamente diferente do que imaginava com acolhimento e sem diferenciações relacionadas à sua identidade de gênero. “Eu não vejo preconceito nenhum. São bem atenciosos”, conta.

Foto: Connor / Fala Roça
O território é um elemento central para entender como as experiências da saúde e gênero, raça e classe social se cruzam e influenciam diretamente os processos de saúde e doença. As desigualdades sociais aparecem de forma evidente na experiência de Laís Ferreira. Para ela, a classe social influencia profundamente como uma mulher trans atravessa seu processo de transição.
“Meninas trans de classe média ou alta têm uma transição muito mais tranquila porque não começam do nada. Conseguem endocrinologista, dermatologista, bloqueadores hormonais adequados, tratamentos estéticos, cabeleireiro e manicure toda semana. O dinheiro beneficia até quando se trata de transição”, desabafa.
Riscos da automedicação
A barreira de acesso aos serviços especializados empurra muitas mulheres para a automedicação. Laís afirma que há uma medicação disseminada entre mulheres trans da favela, mas pontua riscos à saúde. “Na Rocinha em si tem uma medicação que é muito disseminada, porque ela dá seio muito rapidamente. Ela faz o cabelo crescer, a pele fica muito bonita. Mas não é que ela seja boa; é eficaz. Traz vários prejuízos, como muita retenção de líquido, tem um risco absurdo de trombose, de outras doenças dos rins e do corpo.”
Outro fator que contribui para esse cenário é motivado também pela urgência da disforia de gênero, definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a contradição entre identidade e corpo.
“A disforia ataca e ela ataca sempre(…) Você acha que a sua face te incomoda um lugar, você acha que seu rosto é muito marcado, ou que ele é pouco marcado, ou você incomoda com o seu gogó(…) Você vai criando coisas porque a sua imagem no espelho não reflete aquilo que a sua mente reflete. A disforia pode ser muito forte para pessoas que estão no início da transição e acho que essa questão de recorrer a meios fáceis consegue suprir a necessidade daquele momento dela”, ressalta Laís.
Como acessar os serviços
A jovem ressalta que a saúde pública na Rocinha para mulheres trans “funciona pouco, mas funciona.” Destacando alguns serviços específicos, Laís fala que tem uma prestação eficaz e rápida de testes de ISTs e medicamentos que ajudam na prevenção de HIV, como a PEP (até três dias após exposição ao vírus) e PrEP (preventivo, antes da exposição potencial). Laís nota que para conseguir qualquer uma das profilaxias é necessário fazer um teste de Infecção Sexualmente Transmissível (IST) e exame de sangue, que estão disponíveis no SUS, por meio da Clínica da Família ou outra unidade pública de saúde.
O Fala Roça entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) solicitando informações sobre a oferta de endocrinologista, dermatologista e psicologia para pessoas trans nas unidades da Rocinha, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Questionada pela reportagem, via Lei de Acesso à Informação, a SMS informou não possuir dados consolidados sobre quantos moradores e moradoras trans da Rocinha iniciaram ou concluíram o processo transexualizador na rede.







