Com o recuo da pandemia de covid-19, as salas de cinema voltaram a ficar movimentadas. Houve um tempo em que os moradores da Rocinha podiam ir até o cinema sem precisar sair do morro. Este resgate histórico só foi possível com o apoio de moradores antigos.

O Cine Rocinha, inaugurado em 1954, foi criado pelo morador José da Silva Fernandes. Mal existem registros públicos sobre o funcionamento do estabelecimento. A confirmação da existência do cinema veio através de arquivos da extinta Delegacia de Costumes e Diversões. 

Nesta delegacia, eram feitas as fichas de identificação de profissionais dos mais variados ramos artísticos, que até 1959 precisavam se registrar na polícia para exercer sua atividade.

A sala de cinema amador era localizada na Estrada da Gávea, n° 447, onde hoje funciona uma casa lotérica. O empreendedor José Fernandes usava filmes de 16mm. Esse modelo foi o mais utilizado durante décadas em documentários, filmes experimentais, filmes de treinamento e por cineastas independentes.

Com esses  rolos, os moradores puderam assistir filmes como “Dominó Negro” (1949), “Uma pulga na balança” (1953), “Com o diabo no corpo” (1952), “Hercules” (1958) e etc. A sessão mais popular do Cine Rocinha era a exibição da “Paixão de Cristo”.

Também chamado de Cine São José ou Cinema do Piá, a sala de cinema atraía um público fiel que acompanhava os seriados todos os domingos. Quando a fita se partia – o que era comum – as luzes se acendiam com os gritos das pessoas. O Sr. Jonas entrava em ação para rebobinar a fita e o segurança Ribas ficava responsável por tranquilizar a clientela.

Apesar de existirem cartazes, Seu José fazia questão de anunciar o próximo filme com uma voz empostada, ganhando destaque em meio a muvuca. Moradores que iam namorar no escuro precisavam ser ágeis porque o dono do cinema vistoriava a sala para ver como os namorados estavam se comportando. 

Além da diversão, o Cine Rocinha foi o local onde Juscelino Kubitschek e João Goulart foram homenageados durante uma campanha presidencial em julho de 1955. Os dois presidenciáveis discursaram para a sala lotada de moradores e pessoas de fora do morro.

2 anos depois, em fevereiro de 1957, o jornal Correio da Manhã em parceria com o morador Ismael Elias da Silva, organizaram um show carnavalesco nas dependências do cinema da Rocinha. Cinco clubes aderiram a festa que teve filmagem completa e transmissão pela Rádio Mauá: Grêmio Recreativo da Gávea, Vera Cruz F.C, Unidos F.C, São Jorge Atlético Clube e Flamenguinho.

Segundo o censo demográfico das favelas da Guanabara, a Rocinha tinha cerca de 14 mil moradores na década de 60. Em 1958, a estimativa era de 5 mil moradores. O Cine Rocinha funcionou até o início da década de 60. Não há informações sobre o motivo do fechamento. Moradores mais antigos atribuem o fechamento devido à censura imposta pela Ditadura Militar.

Década após década, nunca mais houve nada comparado ao Cine Rocinha. Nem fotos para ilustrar esse momento. Atualmente, quem mora na Rocinha ainda continua precisando se deslocar para bairros vizinhos a fim de ter acesso às salas de cinema. 

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