Se tem alguém que conhece a Rocinha como a palma da mão são os agentes comunitários de saúde. Além de trabalharem no morro, os profissionais são moradores. É o caso da agente Claudia Josefa, 46 anos, da Clínica Albert Sabin. Ela faz parte da equipe Villas, responsável por atender até 3 mil moradores na Vila Cruzado e Vila Vermelha. 

Moradores acamados e com restrições de locomoção são atendidos há meses pelos agentes em meio a pandemia. “Uma vez por mês o paciente tem que ser visto por um médico ou enfermeiro. Dependendo do caso, até ser acompanhado todos os dias por agente”, explica Josefa.

Com a chegada da vacina, Eden Santos, 52 anos, agente da Clínica da Família Maria do Socorro, diz que moradores perguntam se já podem se vacinar. “As pessoas estão ansiosas querendo se imunizar, mas sem vacina não tem como. A gente tenta explicar, mas eles não entendem”, lamenta. 

Profissionais de saúde carregando um cooler contendo doses da vacina contra covid-19, caminham em visita a idosos que não podem sair de casa, na Rocinha. Foto: REUTERS/Pilar Olivares

E conclui: “Infelizmente, não temos uma pessoa séria no governo federal que possa proporcionar a vacinação para todos. Estamos atendendo a prioridade das prioridades”. Até o momento, somente idosos do grupo de risco foram vacinados no morro.

Graças aos profissionais de saúde, a Rocinha, conquistou 100% de cobertura vacinal através do Plano Nacional de Imunizações. Doenças como coqueluche, difteria, tétano, poliomielite e sarampo raramente são registrados. 

Heróis sem capas

Nascida e criada na Rocinha, Claudia Josefa, tem orgulho do trabalho. “Eu sou agente de saúde há 10 anos, mas quando eu tiro o uniforme também sou moradora, vizinha, parente ou conhecida daquele paciente. Temos um vínculo com a comunidade ao ser agente de saúde”, ressalta. Ela morou por 20 anos no Terreirão da Rua 1. “Para mim é maravilhoso poder realizar esse trabalho dentro da favela, trazendo aos moradores oportunidades de atendimento”, conta.

Com experiência em atender pacientes com tuberculose, Eden Santos, defende que a categoria faz parte da linha de frente contra a Covid-19. “Nós somos agentes comunitários de saúde 24h por dia. Eu vou almoçar e no caminho tem gente para atender. Ser linha de frente é isso: estar próximo da população”.

Vacinação marcada por Zap

Os agentes de saúde agilizam o atendimento com os pacientes através do WhatsApp. Foi assim que a aposentada Maria Bezerra, 90 anos, soube que seria imunizada. “Ela não compreende muito bem, só sabia rir e dizia que não ia tomar a vacina”, conta a neta Julia Macedonia, 23 anos. 

Ela não é a única. Agentes relatam que, infelizmente, há casos de idosos que recusam a vacinação, expondo-se ao risco de contaminar a si próprio, familiares e a comunidade. 

Seu Luis, de 110 anos, um dos moradores mais velhos da Rocinha, recebe ajuda do ACS Eden Santos em um beco na Rua 4, parte alta da Rocinha. Foto: Renato Araujo/Fala Roça

Mas esse não é o caso do mineiro Luís Candido, um dos moradores mais velhos da Rocinha. Com 110 anos, ele recebeu a segunda dose e já está imunizado. Morador de um beco íngreme na Rua 4, “Seu” Luís, esbanjou lucidez apesar da deficiência auditiva. “Não senti nada depois. É bom, né?”, disse após ser flagrado descendo da garupa de um mototáxi. 

Maria do Socorro Correia, 78 anos, idosa que estampa a capa desta edição, expressa a angústia e o alívio de outros moradores. Imunizada em fevereiro, ela é outro exemplo da consciência sobre a importância da vacinação.

A primeira moradora imune

A agente comunitária de saúde Adalgisa da Silva, 60 anos, foi a primeira moradora da Rocinha vacinada contra coronavírus. Ela foi imunizada em 20 de janeiro, na Clínica da Família Rinaldo De Lamare. A segunda dose já foi aplicada em fevereiro. 

Orgulhosa pelo momento, Adalgisa, conta que esperou muito pela chegada deste dia. “Muita emoção e aliviada em saber que fui imunizada. É um momento histórico! Na hora pensei em toda a população sendo vacinada e sentindo a mesma emoção”, conta. E ironiza: “Não virei jacaré”.

Em dezembro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro, questionou os efeitos colaterais da vacina Pfizer/BioNtec, afirmando que não há garantia de que ela não transformará quem a tomar em “um jacaré”. 

Em meio a falta de vacinas para a população, mesmo imunizada, ela ainda sente medo. “Só vou me sentir segura quando a metade da população tomar a vacina. Continuo me cuidando com máscara, álcool e distanciamento social. Todo cuidado é pouco”, desabafa. 

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