Câncer de mama: rotina de auto toque é uma das principais maneiras de perceber irregularidades, diz especialista

Fala Roça buscou diversos olhares para conversar com a favela sobre a importância do diagnóstico precoce da doença que acomete milhares de brasileiras por ano

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Eliane Palau tem 55 anos e está curada do câncer de mama. Ela mora na Rocinha desde os oito anos e há três descobriu que havia nódulos na mama e na axila direita, que eram tumores malignos. O diagnóstico precoce – e, consequentemente, cura – foi graças ao seu hábito de realizar a mamografia desde os 40 anos.

De acordo com a atual determinação do Ministério da Saúde (MS), a idade mínima é a partir dos 40 anos, em que é necessária a realização do exame anual que diagnostica a doença. Antes, era realizado no Sistema Único de Saúde (SUS) apenas em mulheres acima de 50. O câncer de mama acomete milhares de brasileiras por ano. Para 2025, a estimativa é de 73.610 novos casos. 

Eliane Palau tem 55 anos e está curada do câncer de mama. Ela mora na Rocinha desde os oito anos e há três descobriu que havia nódulos malignos na mama e na axila direita

A auxiliar de serviços gerais já era paciente do Instituto Fernandes Figueira da Fiocruz. Faltavam quatro meses tanto para sua mamografia, quanto para ela fazer aniversário e completar 52 anos. “Pedi para adiantar o exame porque notei um líquido transparente saindo da mama direita. Realizei a ultrassonografia, nas duas mamas, e a direita estava com aspecto normal. Mas a esquerda tinha algo diferente. Foi quando a própria técnica de radiologia comentou com a médica que era caso de encaminhar para uma biopsia”, relembra. 

Neste dia, ela já sabia. Sua irmã já havia tido câncer de mama há alguns anos. “Chorei um pouquinho depois da ultra, mas tentei me acalmar. Mandei mensagem no grupo ‘Filhas da Mãe’, com minhas filhas, para saber se alguém estava com a chave da casa da mais velha, já que não teria ninguém lá, e eu queria poder chorar e chorar. Ninguém viu a mensagem no grupo, então segui para minha casa. Quando subi, minha filha caçula estava trabalhando, descendo de costas para mim. Fiquei parada, esperando. Quando ela virou, eu desabei.” Após este primeiro impacto, ela afirmou para si: “Não posso me deixar abalar”. 

Dois meses depois a biópsia confirmou o câncer de mama. Três semanas depois, a primeira consulta para início do tratamento no Instituto Nacional do Câncer (INCA). 

“De acordo com a médica oncologista, o câncer estava bem no comecinho, o tumor era bem pequeno. Mas cresceu muito rápido. Na segunda ultrassonografia, foi visto o aumento de tamanho, e também nódulos na axila, que na primeira não havia aparecido”, conta Eliane. 

Foram oito sessões de quimioterapia, de três em três semanas. Durante o tratamento, muita dor no corpo, cansaço, diarreia, cabelo caindo, ela diz. Mas, fazendo jus à promessa de não se deixar abalar, ela nunca parou de dançar. “Eu fazia dança cigana e do ventre, e também fiz samba enquanto meu joelho deixou”.  Eliane chegou a se apresentar no Viradão Cultural da Rocinha. 

Agora, no pós-cirurgia, em que retirou a mama direita, ela compartilha a continuação da luta. Ela conseguiu as consultas médicas para acompanhamento e a reconstrução mamária com silicone, garantida pelo SUS para mulheres que passaram pela mastectomia. “Todo dia eu passo na Clínica da Família para perguntar sobre minha consulta de retorno com mastologista e oncologista, tem demorado muito, talvez porque priorizem a emergência. Mas a gente precisa continuar acompanhando”, pontua. 

Questionada sobre o que mudou na Eliane do antes para o depois do câncer de mama, ela afirma: “Muito mais vontade de viver”. 

Hilton Koch é médico especialista em Radiologia e professor decano de Medicina da PUC-Rio

Médico especialista em Radiologia e professor decano de Medicina da PUC-Rio, o Dr. Hilton Koch acompanhou a evolução da mamografia dos anos 1980 para cá e o avanço diagnóstico. “O exame dói muito, porque pressiona as mamas, mas é necessário”, explica. De acordo com ele, a ampliação da faixa etária entre 40 e 49 anos para a realização do exame: “Foi uma insistência da Mastologia e Ginecologia”. 

Para o especialista, ter uma rotina de investigação, como o auto toque, é uma das principais maneiras de perceber irregularidades. “É bom observar se sai leite ou sangue, se há nódulos, que na maioria das vezes é benigno”. O câncer é um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células anormais, que se multiplicam rapidamente. Mas nem todo nódulo na mama representa um câncer. O médico explica como funciona a classificação entre benignos e malignos.

Para a investigação do diagnóstico, os médicos usam o Sistema de Relatórios e Dados de Imagem da Mama (BI-RADS) para classificar uma lesão visualizada na mamografia. 1) significa normal; 2) benigno; 3) provavelmente benigno – deverá ser investigado depois de seis meses para controle; 4) provavelmente maligno – deverá ser encaminhado para biópsia – e 5) maligno – certeza de câncer.

O papel da Clínica da Família

A Rocinha conta com três unidades de Atenção Primária: as Clínicas da Família Maria do Socorro Silva e Souza, Rinaldo de Lamare e o Centro Municipal de Saúde Dr. Albert Sabin. Juntas, somam mais de 61 mil cadastros ativos, sendo 33 mil de mulheres. Na faixa etária de rastreamento do câncer de mama, entre 50 e 74 anos, são 7,4 mil mulheres cadastradas, com 123 registros da doença desde 2021, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS-Rio).

Gerente da área técnica do câncer da SMS-Rio, Tuâny Marinho conta que a principal estratégia no território é o diagnóstico precoce. “Não há uma ação específica que previna o câncer de mama, mas podemos fortalecer fatores de proteção, como alimentação saudável, prática de atividades físicas e controle do peso”, explica. 

Os profissionais das clínicas realizam exames clínicos das mamas e podem solicitar mamografia, que é o exame indicado para rastreamento. O procedimento é agendado pelo Sistema de Regulação (SISREG) e, atualmente, o tempo médio de espera é de 39 dias. 

Com a ampliação da faixa etária (40 a 49 anos) para mamografias pelo Ministério da Saúde, a SMS afirma que: “agora, mulheres sem sinais da doença podem decidir com a equipe de saúde sobre a realização da mamografia, sendo orientadas quanto aos riscos e benefícios”, informa. Quando há, então, suspeita da doença, a Atenção Primária conduz a investigação diagnóstica, incluindo mamografia e biópsia. A SMS destacou o aumento no número de mamografias de rastreamento em mulheres de 50 a 69 anos, que cresceu 73% entre 2021 e 2024.

Reconstrução de aréola

CriaMoradora da Rocinha e especialista em micropigmentação de sobrancelhas, Marcela Flor, 28, buscou uma outra especialização: tatuagem de reconstrução da aréola para mulheres que passaram por mastectomia. O interesse surgiu em um campeonato de micropigmentação. “Lá tinha profissionais da área demonstrando essa técnica. Eu me apaixonei. Essa técnica representa pra mim um recomeço pras mulheres que têm acesso a ela”, conta.

O trabalho exige cuidado técnico e empatia. “Tecnicamente, cada caso é único. A pele passa por processos diferentes de cicatrização, texturas e sensibilidades, então, é preciso muito cuidado, estudo e sensibilidade para alcançar um resultado realista e seguro”, explica. 

E acrescenta que o lado emocional é o mais delicado: “Muitas dessas mulheres enfrentaram dores físicas e psicológicas intensas, e chegam com uma história forte por trás. Meu desafio é acolher cada uma com empatia, escuta e respeito, entendendo que aquele momento não é apenas uma tatuagem, mas uma etapa importante de cura e reconexão com o próprio corpo”.

Segundo a profissional, o impacto na autoestima é imediato. “Muitas relatam que, depois do procedimento, conseguem se olhar no espelho sem dor pela primeira vez. A tatuagem devolve a sensação de completude, de feminilidade e identidade que a cirurgia muitas vezes leva embora.”

O procedimento é gratuito. “Eu não cobro valor por esse atendimento. É um trabalho que faço de coração, como uma forma de devolver um pouco do que a profissão me proporciona”, diz. “Qualquer mulher que tenha passado pela mastectomia e queira reconstruir a aréola pode me procurar. Estou sempre aberta a conversar, orientar e realizar esse processo com todo cuidado e carinho que ele merece.”

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