
Carta aberta de profissional da saúde denuncia situação da Atenção Primária no Rio
Relato de profissional de saúde, que preferiu não se identificar, aponta demissões, sobrecarga de trabalho e baixa valorização salarial; leia o depoimento
Em apenas um ano, mais de 10 profissionais da medicina deixaram a unidade onde trabalho. A maioria saiu devido às condições de trabalho na Atenção Primária à Saúde (APS) do Rio de Janeiro.
Na cidade do Rio, atuamos em uma jornada dupla: além de prestar assistência direta à população, também somos responsáveis por diversas funções burocráticas. Entre elas, estão pedidos de exames e encaminhamentos que muitas vezes retornam de outros especialistas, como cardiologistas e endocrinologistas, para que nós assumamos novamente a responsabilidade por aquela demanda.

Essa dinâmica faz com que não consigamos realizar nenhuma dessas funções da forma adequada. Não existem horários específicos para as diferentes tarefas, não há previsibilidade sobre as ações que serão tomadas e somos constantemente obrigados a reorganizar nossos planejamentos para cumprir demandas impostas pela gestão. Soma-se a isso uma sensação constante de assédio institucional, marcada por hipervigilância e demissões com justificativas muitas vezes insustentáveis.
Há também um problema grave de abastecimento. Estamos há mais de seis meses trabalhando com o mínimo de medicamentos. Faltam diversos remédios básicos para dor, enjoo, vômito, anti-inflamatórios e corticoides. Medicamentos essenciais para tratamentos crônicos também frequentemente não estão disponíveis, colocando em risco cuidados delicados com uma população vulnerável.
Entre os medicamentos em falta estão aqueles destinados ao tratamento de saúde mental, cardiopatias e outras condições crônicas, com alto risco de descompensação quando o tratamento é interrompido. Além disso, faltam medicamentos essenciais para situações de urgência e emergência, o que nos faz trabalhar com medo constante de que alguma situação grave aconteça e não tenhamos como agir adequadamente.
Outro ponto crítico é a ausência de reajuste salarial há mais de cinco anos, somada ao não pagamento de bonificações desde 2023.

O movimento de greve teve início há quase um ano. Desde então, a Secretaria Municipal de Saúde se recusa a dialogar e não cumpriu acordos previamente estabelecidos. A situação se agravou quando o secretário de saúde publicou em suas redes sociais uma foto dos protestos, chamando os profissionais presentes no ato de “idiotas”.
A realidade da APS carioca hoje é de esgotamento generalizado entre os profissionais. Afastamentos por questões de saúde mental são recorrentes e a rotatividade é altíssima. Quem permanece muitas vezes está buscando alternativas para sair. Nesse cenário, o cuidado com os pacientes fica comprometido e as condições mínimas para um trabalho adequado deixam de existir.
Os profissionais estão adoecidos mentalmente, sobrecarregados e se sentindo assediados. Ao mesmo tempo, os usuários também sofrem com a falta de profissionais e com a alta rotatividade, que fragmenta o cuidado e rompe a longitudinalidade — um princípio essencial da atenção primária. Falta o básico de medicamentos e, em muitos casos, até mesmo aqueles necessários para tratamentos crônicos.
Outro ponto importante diz respeito ao funcionamento do SISREG. Muitas pessoas acreditam que o sistema funciona como uma fila única e centralizada, mas na prática não é assim.
No Rio de Janeiro, boa parte das vagas para exames e consultas especializadas é agendada por médicos que estão alocados nas próprias clínicas da família. Essas vagas são disponibilizadas de forma geral para todas as unidades. Na prática, o sistema acaba funcionando como uma espécie de “gincana de vagas”. O médico que estiver no sistema no momento em que surge uma vaga, por exemplo, para cardiologia, agenda para um paciente da sua clínica, mesmo que em outra unidade exista alguém esperando há muito mais tempo.
Ou seja, quem tiver mais tempo disponível para acessar o sistema tende a conseguir mais vagas para seus pacientes.
Trabalho em uma equipe com grande demanda e intensa pressão assistencial. Durante o período de atendimento, não consigo realizar tarefas burocráticas, muito menos fazer regulação. Com isso, os pacientes da clínica acabam perdendo oportunidades, pois sobra pouco tempo para essas atividades, muitas vezes apenas após o horário de trabalho.
Na prática, quase nunca saímos no horário. Sempre há burocracias pendentes que precisam ser resolvidas depois do expediente, enquanto ainda somos cobrados por fazer banco de horas, como se permanecer até 19h, 20h ou 21h fosse uma escolha dos profissionais.
Ao longo dos anos, as atribuições de médicos e enfermeiros das clínicas da família aumentaram continuamente. No entanto, não houve ajustes de fluxos, reorganização das agendas ou mudanças estruturais que comportem todas as funções previstas na carteira de serviços estabelecida pelo município.





