
CCR2: 40 anos de transformação, acolhimento e apoio a crianças, adultos e idosos; conheça
Criado em 1981, ONG atua com atividades de educação, cultura, lazer e qualificação profissional na Rocinha
Por Axel Karlsson, Gabriel Darriba e Rodrigo Zangrandi*
Em um edifício de três andares, com três salas por piso, uma quadra de futebol na laje e com um acesso difícil até mesmo para moradores, há um espaço que resiste: o Centro Comunitário da Rua 2 (CCR2). Desde 1981, a ONG atua como um ponto de apoio, acolhimento e transformação para centenas de crianças, adultos e idosos da Rocinha.
Fundado como um centro de alfabetização e creche, o CCR2 cresceu, hoje oferece atividades diárias de educação, cultura, lazer e qualificação profissional para cerca de 250 crianças e, também, realiza a distribuição de cestas básicas todo mês. Além disso, a ONG propõe inovações como a produção de biogás, transformando o lixo orgânico em energia.

Davi Pereira, de 56 anos, é um dos principais personagens da história do CCR2. Morador da localidade, ele cresceu frequentando e sendo ajudado por alguns projetos sociais, inclusive esse que coordena na Rua 2. Um deles funcionava no Colégio Teresiano, na Gávea, onde ele trabalha como inspetor até hoje.
“É uma missão difícil (Cuidar do CCR2), porque eu não vivo do social, eu vivo para o social. Eu não vivo de lá, eu vivo para lá. Por quê? Porque tenho o meu trabalho, eu trabalho no colégio Teresiano, é onde cresci num projeto. Captar recursos para fazer a coisa acontecer é difícil”, explicou Davi sobre sua missão, que realiza há cerca de 30 anos
De segunda a sexta-feira, nos fins de tarde e início da noite, as salas do CCR2 enchem com aulas de reforço escolar, balé, jiu-jitsu, inglês, atividades na brinquedoteca e biblioteca. Muitas vezes, nessas salas se encontram professores do bairro, uma forma de manter o projeto enraizado na comunidade, como um ecossistema de ajuda. Porém, o CCR2 vai além da sala de aula. Cléo Alves, mãe de Arthur, explica como o CCR2 não é só um lugar para aprendizado.
“Eles têm um leque de atividades que auxiliam a todos, o reforço escolar, que, imagina, a criança vai para a escola, não tem ninguém para dar aquele apoio, de ajuda para saber a matéria e tem ali aquela disponibilidade no Centro para a criança. Isso não tem preço”, relata. “Quando ele vai para o centro comunitário, com as festinhas, ele gosta muito. Sempre encontra os amiguinhos, é divertido, porque a criança gosta de estar com os amigos, saber que é acolhida naquele espaço”, menciona Cléo.
Apoio nas férias escolares
Durante as férias escolares de janeiro, há 16 anos, é realizada a Colônia de Férias, um dos momentos mais aguardados pelas crianças. “Tenho uma ideia, um sonho, de tirar as crianças em algum momento da comunidade, mostrando alguma coisa diferente: museu, praça, trilha, essas coisas”, destaca Davi, contando como o projeto nasceu numa conversa com a amiga Ursula. O sucesso é tanto que jovens de outros bairros e cidades, como Caxias, vêm para o Centro participar da Colônia de Férias.
Com apoio de doadores e voluntários, o projeto leva os jovens a praias, museus, trilhas, centros históricos, clubes. Cada criança recebe camisa, alimentação completa e transporte. São quatro ônibus alugados para levar mais de 250 crianças a experiências que, muitas vezes, mudam suas vidas.
Metade dos veículos usados como transporte para as atividades da ONG é financiada pelo grupo de doações de Arnei, um Alemão que conheceu o CCR2 por meio do “Projeto Favela”. Ele passou um mês como voluntário na colônia e se identificou com o projeto. Após esse período, voltou à Alemanha e criou esse grupo de arrecadação para o Centro. Mesmo após falecer, deixou o apoio garantido com outra pessoa liderando as doações. “As crianças no final choram, já querendo, já pensando no próximo ano”, relatou Davi.
“Na época em que me separei, meu filho tinha cinco anos e eu buscava coisas para ele fazer, porque para mim ficava difícil eu ter que ir trabalhar, ele chegar da escola e não ter nada para fazer. Quando fiquei sabendo da Colônia de Férias no mês de janeiro, foi fantástico para mim, porque, querendo ou não, é uma maneira de tirar a criança da Rocinha para conhecer outro espaço, o que é fantástico”, celebra Cléo. “Se você analisar, uma criança ter a oportunidade de ir ao Costa Brava — que custa caro para entrar — de ir ao Marina, de passear todo dia, de ir ao museu, no Parque Lage, para a Urca…fora que você sai em paz para trabalhar com a certeza de que a criança está bem”, acrescenta.
Sustentabilidade
Uma das ideias mais ousadas do CCR2 foi a criação de um sistema de produção de biogás, no qual o lixo orgânico vira energia. O gás é usado na própria cozinha e viabiliza a venda de quentinhas populares para a comunidade. Além disso, o processo gera fertilizante, também vendido localmente. São cerca de dez garrafas por dia. Essa iniciativa, pensada por Davi, é mais uma tentativa de criar formas de autossustentação para o projeto. Mas nem toda tentativa é compreendida: quando tentou entregar refeições em outras regiões da Rocinha, o acréscimo da taxa de entrega gerou críticas.

Atuação em diversas frentes
No passado, o CCR2 chegou a manter um hostel, onde turistas não só se hospedavam e pagavam diárias que ajudavam com os custos da ONG, mas também contribuíam com aulas de seus conhecimentos e reforço escolar. Hoje, o hostel está desativado, devido às mudanças na dinâmica do turismo na Rocinha e à localização difícil do centro, longe de grandes avenidas. Esse afastamento geográfico na própria Rocinha dificulta a chegada de voluntários, visitantes e até de doações. O centro perde a visibilidade por conta disso. Assim, ocorre de haver buracos no cronograma das aulas por momentos em que faltam professores. Um exemplo é a aula de música, em que há bons instrumentos, mas algumas vezes não tem quem dê a aula.
Como outro braço de atuação da ONG, todos os meses, o CCR2 realiza a distribuição de pelo menos dez cestas básicas, que chegam aos lares mais necessitados. Durante a pandemia, diversas famílias foram ajudadas, sendo mais de 600 pessoas. A seleção das pessoas que recebem segue um rodízio, priorizando os casos mais urgentes.
Hoje, muitos pais que frequentaram o CCR2 na infância levam seus filhos para participar das atividades. É o tipo de legado que não se mede somente em números, mas em vínculos. “Alguns finais de semana que fico aqui dói, mas é gratificante quando a gente tem o retorno da criança que cresceu aqui e fala: ‘Davi, você é um pai’… Isso, para mim, é recompensante.”
*A reportagem é fruto da parceria entre a disciplina de Extensão em Jornalismo e Cidadania, do curso de Comunicação da PUC-Rio, ministrada pela professora Lilian Saback, e o jornal Fala Roça. A colaboração, iniciada em 2022, busca promover uma formação jornalística mais humana, que desafie estereótipos e repense as narrativas sobre a favela





