
Jovens da Rocinha transformam muro em protesto contra lixo e abandono
Ação dos Jovens Defensores Populares uniu a arte e conscientização ambiental no Parque Ecológico da Rocinha.
Jovens transformam muro em protesto contra o lixo no Portão Vermelho
Ação dos Jovens Defensores Populares uniu a arte e conscientização ambiental no Parque Ecológico da Rocinha.
“Ô, quando acabar não joga essa garrafa no chão, hein?”, alertava Victoria Ferreira, moradora da Dioneia e jovem defensora popular. “Mas, ué tia, joga em que lixeira?”, respondeu um menino enquanto se hidratava e brincava de bola na quadra do Portão Vermelho, que não tem nenhuma caçamba e nem uma papeleira para descarte de lixo.
A cena resume um problema vivido diariamente por moradores da Rocinha: a dificuldade de descartar o lixo corretamente diante da ausência ou insuficiência de pontos de coleta na favela.
Para chamar atenção para essa realidade, jovens participantes do Projeto Jovens Defensores Populares realizaram uma ação de grafite no Portão Vermelho. A mobilização reuniu grafite, pintura coletiva, distribuição de água e um lanche comunitário.
“Uma das formas que a gente entendeu de protestar e conscientizar foi pintando um muro onde existia uma lixeira que foi retirada.”, enfatiza Matheus Dias, de 18 anos, morador da Paula Brito e jovem defensor popular.
A intervenção ocupou um muro, localizado em uma área onde moradores costumam jogar lixo em direção à mata.

“Muitas pessoas acabam fazendo deposição de lixo nesses locais muito pela falta de acesso a estruturas básicas. Espaços que acabam sendo adaptados pela população, porque o poder público não consegue estabelecer estratégias minimamente condizentes com o território.”, ressalta Jorge Oliveira, de 26 anos, estudante de geografia e educador de pesquisa da formação.
A arte retrata casas da favela e uma árvore com expressão de revolta acompanhada da frase: “Tô boladona com o lixo!”. Outra mensagem escrita durante a ação dizia: “O parque quer viver!”, denunciando o abandono do Parque Ecológico da Rocinha e a falta de manutenção do espaço público.
Moradores que passavam pelo local paravam para observar e elogiar a iniciativa. Alguns também comentavam sobre as mudanças no parque ao longo dos anos.
“Minha filha brincava muito aqui, agora só tem aquele escorrega acabado”, contou uma moradora que passava pelo Portão Vermelho.
Juventude Pesquisadora
Além da intervenção artística, anteriormente, os jovens também realizaram uma pesquisa sobre o descarte de lixo na Rocinha, que motivou a ação. O levantamento identificou desafios enfrentados pelos moradores para acessar pontos de coleta, especialmente pessoas idosas ou com mobilidade reduzida.
“A Rocinha tem uma quantidade absurdamente maior de becos e escadarias do que vias principais, e isso dificulta o acesso das pessoas para descartar o lixo”, explica Jorge Oliveira.
O desafio é ainda maior em áreas mais afastadas da Estrada da Gávea, onde a distância até as lixeiras e a ausência de coleta adequada acabam contribuindo para o descarte irregular.
A ação surgiu a partir da formação dos Jovens Defensores Populares, realizada na Rocinha e em outros territórios periféricos do Rio de Janeiro, como Jardim Catarina, Vila Vintém e o Complexo do Alemão, além de regiões de outros estados, como Bahia, São Paulo e Distrito Federal, entre outros.
A proposta da formação é fortalecer a atuação de jovens das favelas na defesa de direitos e incentivar ações voltadas para os principais desafios enfrentados nesses territórios.
Além da mobilização sobre o descarte de lixo, os participantes também irão promover outras atividades na Rocinha, como uma roda de conversa sobre sexualidade e uma ação de conscientização sobre a vacinação.





