73% dos moradores de favelas do Rio discordam das operações policiais atuais, aponta pesquisa

Pesquisa com mais de 4mil moradores de favelas do Rio revela ampla rejeição às operações policiais violentas, apontando medo, violações de direitos e percepção de racismo como marcas do atual modelo de segurança pública.

compartilhe!

Estudo realizado entre 13 e 31 de janeiro ouviu mais de 4 mil pessoas dos Complexos da Maré, Penha, Alemão e Rocinha

Historicamente, no Brasil, há uma tendência de se colocar a favela no centro do debate sobre questões de segurança pública sem considerar o ponto de vista de quem realmente vive nesses territórios. E isso não foi diferente depois da maior chacina da história do país, que terminou com 122 pessoas mortas nos Complexos da Penha e do Alemão, em 28 de outubro de 2025. As famílias ainda não haviam reconhecido os corpos, mas institutos de pesquisa já tinham feito consultas sobre a aprovação ou não da ação das forças de segurança, ouvindo a população em geral, mas sem escutar quem sofre os impactos dessas ações.

Uma iniciativa inédita conduzida por organizações de favelas trouxe pela primeira vez a voz dos próprios moradores de quatro regiões de favelas do Rio de Janeiro: Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré, Zona Norte, e Rocinha, Zona Sul do Rio. O levantamento revela que o atual modelo de operação policial baseado em confrontos armados perdeu legitimidade dentro das comunidades.

Os números são contundentes. 73% dos moradores são contrários às operações policiais realizadas em seus territórios. E a insatisfação vai além: 92% desaprovam a forma como essas ações são conduzidas hoje. Para 95% dos entrevistados, as operações não aumentam a segurança das famílias. Além disso, 91% reconhecem que há excessos e ilegalidades por parte da polícia durante essas incursões.

O estudo intitulado “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?” foi realizado de forma presencial com 4.080 pessoas entre os dias 13 e 31 de janeiro de 2026. O trabalho de campo foi conduzido por pesquisadores moradores dos próprios territórios investigados, indo presencialmente nas ruas e residências para realizar as entrevistas. 

Tainã, Instituto Papo Reto; Artur do Raizes em Movimento; Osvaldo Lopes do Fala Roça; Magda Gomes A Rocinha Resiste e Vilson do coletivo Frente Penha. Coidealizadores da pesquisa. Foto: Mayara Donaria/Redes da Maré

Quem vive na pele sabe: 93% já vivenciaram operações

As operações não são novidade para quem mora nessas áreas. Pelo contrário: 93% dos entrevistados afirmam já ter vivenciado diretamente, ou ter um familiar que vivenciou uma operação policial no território. Essa realidade é praticamente a mesma entre quem é contra (94%) e quem é a favor (91%) das ações mostrando que, gostando ou não, a violência estatal atravessa a vida de quase todo mundo.

Entre os impactos mais citados estão a restrição de circulação (51% entre os que são contra e 41% entre os que são a favor), invasão ou violação de domicílio, comércio ou veículo (37,5% entre contrários e 22,9% entre favoráveis), e a presença recorrente de tiroteios e balas perdidas.

Juventude e população preta são as que mais rejeitam as operações

O levantamento também escancara como a desigualdade racial e geracional marca a experiência com a polícia nas favelas.

Entre os jovens de 18 a 29 anos, a rejeição às operações chega a 79%, o maior índice entre todas as faixas etárias. Pesquisadores apontam que isso pode estar ligado ao fato de serem eles que estão nos espaços públicos no momento das incursões, além de serem alvo frequente de criminalização.

O recorte racial também é gritante: 81% das pessoas pretas são contrárias às operações, enquanto entre os brancos o percentual de concordância chega a 30%. Nos grupos focais realizados na etapa qualitativa da pesquisa, moradores relataram: “Depende da cor e da roupa. Tem gente que nem precisa fazer nada pra ser parado” e “Se é preto e jovem, já entra como suspeito”.

A percepção de que o racismo estrutura a atuação policial é majoritária: 61% dos entrevistados afirmam que há racismo na forma como as operações são planejadas e realizadas nas favelas. Outros 13% dizem que isso acontece “às vezes”.

“A gente vive entre duas violências”

Um dos achados mais importantes da pesquisa é que o medo da polícia supera o medo dos grupos armados, inclusive entre quem apoia as operações. Enquanto 59% dos favoráveis dizem ter medo da polícia, 53% sentem medo dos grupos armados. “A gente vive entre duas violências”, resumiu um participante dos grupos focais.

Para Thainã de Medeiros, do Instituto Papo Reto (Alemão), os números mostram violações concretas de direitos.“As operações incidem em direitos fundamentais de grande parte dos moradores, como o direito de ir e vir, de ter acesso ao trabalho, à saúde e à educação. Vemos nos territórios que as crianças e adolescentes são os que mais sofrem com esse cerceamento de liberdade de circulação.”

Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré e coordenadora do estudo, destaca.“As respostas mostram que há um quadro de esgotamento da população por conta das operações violentas, o reconhecimento dos excessos dos policiais e uma evidente falta de legitimidade dessa que se tornou, ao longo dos anos, a única política de segurança em favelas.”

Eliana Sousa Silva, diretora e fundadora do Redes da Maré, realizadora da pesquisa.
Foto: Mayara Donaria / Redes da Maré

Organizações pedem nova política de segurança

A pesquisa foi realizada pelo Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste, com apoio de instituições acadêmicas e da sociedade civil.

Os coletivos reforçam que é urgente mudar o modelo. “Queremos que haja uma nova política de segurança pública que preserve a vida dos moradores de favelas”, afirma Osvaldo Lopes, do Fala Roça. “É também direito dos moradores desses territórios experienciar uma política de segurança pública que os respeite.”

Osvaldo Lopes, produtor da pesquisa e colaborador do Fala Roça.
Foto: Mayara Donaria / Redes da Maré

Arthur Dóring, do Instituto Raízes em Movimento, completa. “Os dados mostram que o morador de favela não aguenta mais que a presença estatal seja associada ao medo e à violência em seus territórios.”

Os resultados da pesquisa apontam consenso entre moradores de favelas do Rio de Janeiro: o atual modelo de operações policiais perdeu legitimidade e precisa ser revisto. Em ano eleitoral, o estudo reforça a urgência de um debate entre governos sobre alternativas à lógica dos confrontos violentos, com foco na proteção da população, na garantia de direitos e bem-viver.

Assine o Fala Roça

Receba as notícias por e-mail