Assim como muitos nordestinos, o cearense Antonio de Oliveira Lima, de 74 anos, viu no Rio de Janeiro a oportunidade de ter uma vida melhor, mas com um desejo a mais: a participação na luta pela garantia dos direitos de moradores da Rocinha.

Oliveira nasceu em 1947 no Ceará e migrou para o Rio de Janeiro na vida adulta. Quando conseguiu um emprego, enviou dinheiro para o nordeste onde sua esposa esperava por um sinal. Antes de chegar na Rocinha, em 1969, ele viveu com a família – tinham um filho – na favela da Praia do Pinto, no Leblon.

“Só deu tempo da minha mãe pegar meu irmão na época recém nascido e nesse dia dormiram na delegacia do Leblon. Meu pai dormiu no calçadão da praia, pois só permitiram dormir na delegacia mulheres e crianças”, relata Cris Pessoa, filha de Oliveira.

Sua relação com a Rocinha começou quando um amigo de trabalho deixou a família de Oliveira morar em uma casa na Rua 4, parte alta da Rocinha.

Letrado, Oliveira não parava em casa. Quando não estava trabalhando, se envolvia nas questões políticas do morro. Tanto é que entre os anos 60 e 80 fazia parte do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Segundo arquivos obtidos pelo Fala Roça, no acervo do Serviço Nacional de Informações (SNI), Oliveira já era considerado subversivo na ditadura civil-militar brasileira.

Os militares afirmavam que ele fazia parte do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), organização política de luta armada contra a ditadura. Ele foi perseguido, torturado e quase morto pelos militares na ditadura.

Seu Oliveira mais jovem em fotos 3×4 já despertava atenção dos agentes da Ditadura no país. Foto: Acervo pessoal/Cris Pessoa

A ligação fica mais evidente quando o SNI descreve em um documento de março de 1981, “algumas das pessoas citadas registram antecedentes que os vinculam a organizações subversivas, principalmente ao MR-8, como é o caso de Antonio de Oliveira Lima, que participou da mesa de trabalho do do Ato Pelas Unidades das Forças Democráticas, realizado na Associação de Brasileira de Imprensa (ABI), ao lado de Gregorio Bezerra e Luiz Carlos Prestes”, uma das personalidades políticas mais influentes no país durante o século 20.

Em outro documento de 1984, os militares reforçam: “Antonio Oliveira é uma pessoa politizada que pretende desenvolver na favela trabalho de natureza social e política. Embora tenha concorrido às últimas eleições sobre o abrigo da Iegenda do PT, não esconde que suas preferências ideológicas não encontram, ainda, partido político correspondente.”

Mesmo com o AI-5 em curso, Oliveira ajudou a reconstruir o movimento comunitário no fim da década de 1970, começando pela Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro (FAFERJ).

Antes de concorrer em 1982 como vereador pelo PT, ele ajudou – a pedido do ator Paulo Betti – a recolher milhares de assinaturas de moradores para fundar o Partido dos Trabalhadores (PT). Em seguida, se filiou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) e também se candidatou a vereador. Em ambas tentativas não se elegeu.

No movimento comunitário, Oliveira juntou um grupo de moradores indignados com as ações da diretoria da União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR), presidida por Silvana Araujo, e criou o Movimento de Organização e Renovação da Associação (MORA). Nesse período, a UPMMR passa a ter duas diretorias disputando o comando da associação de moradores. Agentes da ditadura acompanharam esse imbróglio de perto. 

Silvana tinha como assessora a estudante de Sociologia na PUC-Rio, Eleonora Castanho Ferreira, outra figura central na disputa da UPMMR. Desde 1973, ela atuava politicamente na Rocinha sem nunca ter morado no morro. Segundo moradores mais antigos, ela tinha interesses imobiliários na região da Cachopa, tendo indícios de ligação com Chagas Freitas e seu grupo.

Antonio Oliveira foi presidente da UPMMR e, também, foi o primeiro administrador regional da Rocinha. “Vi meu pai ajudar muita gente, principalmente seus conterrâneos com pedaço de terra.”, lembra a filha Cris Pessoa.

Mas ele não é lembrado só por isso. Oliveira sonhava com uma favela urbanizada, desenvolvida com as demandas que lutavam há muito tempo. Água, luz, educação, segurança. Assuntos que até hoje são discutidos pelos moradores. Em momentos de saudades, o cearense permitia que moradores nordestinos fossem até sua casa para usarem a linha de telefone fixo e ligarem para seus parentes.

Na foto, Antonio Oliveira conversa com outras lideranças comunitárias. Foto: Acervo pessoal/Cris Pessoa

Em 1996, ele embarcou para Fortaleza onde cuidou de sua mãe adoentada. Lá, não sossegou o facho e voltou a se candidatar por cargo político. A virada dos anos 2000 marcou uma série de problemas de saúde. Em 2001, aos 54 anos, Oliveira sofreu um grave acidente e passou por mais de 10 cirurgias. Precisou sair de cena e descansar, embora ainda continuasse palpitando politicamente.

Ainda morando em Fortaleza, ele teve um AVC isquêmico e entrou em coma por alguns dias. Com uma fratura no fêmur, passou a andar de cadeira de rodas. Ele voltou para o Rio de Janeiro em 2013 onde foi morar com a filha em Araruama, no interior do estado do Rio de Janeiro.

Em um post no facebook, sua filha relatou um momento íntimo de Oliveira:

“Nunca gostei de política, porque a política tirava meu pai de casa. Vivia na rua e em reuniões, sentia muita falta da figura paterna, mas minha mãe fazia muito bem esse papel. Quando ele voltou senti que queria recuperar o tempo perdido, era um pai super preocupado com todos nós (filhos e família). Ligava toda hora para conversar, saber como  estava e contar algumas novidades. Passei a conhecer quem era meu pai, depois de grande ouvi suas histórias e pasmem… conheceu pessoas muito importantes. Descobri que, na época da ditadura, foi torturado, preso e quase morto.”, diz Cris Pessoa que cogitou escrever uma biografia do pai, mas o projeto não andou porque Oliveira não poderia citar nomes.

Nos últimos anos em vida, Antonio de Oliveira Lima não estava mais reconhecendo as pessoas, nem fazendo ligações telefônicas ou vídeochamadas e com a saúde fragilizada. Ele faleceu na noite de sexta-feira (8/10), 3 meses após completar 74 anos de idade. Ele deixa a esposa e dois filhos. 

Em nota, a família informou que a morte de Antonio Oliveira deixou todos surpresos e agradeceram as mensagens de carinho. “Elas só mostram o quanto era querido por todos. Devemos sempre lembrá-lo com alegria, gratidão e muita saudade.”.

O velório será neste domingo (10/10), das 11h às 13h, na capela G do cemitério São Francisco Xavier, no Caju. Em seguida, Seu Oliveira será cremado apenas com a participação dos familiares próximos no mesmo cemitério.

Camarada Oliveira, presente. Agora e sempre.

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