
Socorro comunitário: A realidade de quem depende da emergência na Rocinha
Em 2023, o serviço de emergência ‘Vaga Zero’ foi acionado 987 vezes nas três unidades de saúde da Rocinha para encaminhar pacientes em estado grave a hospitais
Na Rocinha, muitas pessoas em situação de saúde debilitada precisam da ajuda de outros moradores para acessar o atendimento emergencial, pois o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) frequente – mente não chega a todas as áreas, especialmente nas regiões periféricas da favela.
A dificuldade é ainda maior quando se trata de remover pacientes de locais com acesso extremamente limitado, como grandes escadarias, áreas íngremes, becos estreitos e escorregadios, e regiões sem arruamento ou vias transitáveis. Essas condições podem atrasar o atendimento e agravar a situação dos pacientes.
A estrutura do território impacta no atendimento de emergência na favela. “Pensando aqui no nosso território, na Rocinha, a gente só tem uma via principal, a Estrada da Gávea, então, é muito difícil para o usuário que mora numa parte mais distante da Estrada da Gávea de ter o acesso de emergência”, explica Clara Leite, médica do Centro Municipal de Saúde Dr. Albert Sabin.
Em atos de solidariedade e empatia, os próprios moradores se organizam para transportar pacientes e familiares até pontos acessíveis para as ambulâncias, como a Estrada da Gávea ou nas unidades de saúde da favela. Essa mobilização é particularmente comum nas áreas mais altas da Rocinha, como Terreirão da Rua 1, Macega, Cesário, Vila Vermelha, 199, Laboriaux, Vila Verde, Portão Vermelho e Dioneia, onde a topografia e a infraestrutura precária tornam o acesso ainda mais desafiador.

As Clínicas da Família Rinaldo De Lamare e Maria do Socorro, e o Centro Municipal de Saúde Dr. Albert Sabin, na Rocinha, acionam, em média, três vezes por dia o serviço de ambulância para emergências, segundo a Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Saúde. O serviço “Vaga Zero” permite que os médicos encaminhem pacientes em estado grave, que chegam às unidades de atenção básica para hospitais com atendimento especializado.
“Qual é a indignação das pessoas que moram aqui há muito tempo? A gente não consegue um socorro adequado para as pessoas que passam mal, a ambulância não pode subir e, se subir, como fará esse transporte?”, indaga Aurileia Gonçalves, moradora da Rua 1.
Historicamente, os moradores têm que improvisar o transporte dos doentes, utilizando recursos como redes, portas velhas, lençóis ou simplesmente carregando as pessoas nos braços. Essas soluções, embora essenciais, colocam os pacientes em risco adicional devido à falta de estabilidade e segurança durante o trajeto.
“É difícil, tem que saber como carregar cada pessoa. Com dor na coluna, na perna, no braço. Como é que carrega? Fica ruim!”, conta Edilson de Oliveira, carregador informal, que precisou levar pessoas em emergência utilizando lençóis.
Clara Leite, médica da unidade CMS Dr. Albert Sabin, relata uma situação que presenciou ao abrir a porta do consultório para chamar o próximo paciente. “Chegou uma senhora trazida na rede de balançar e [foram] os ACS (Agentes de Saúde Comunitários) que trouxeram a paciente, o que foi bastante emblemático”, conta a médica. Mesmo diante das adversidades estruturais, a equipe recebeu o paciente em estado de urgência, estabilizou-o e solicitou a “Vaga Zero”, um recurso disponível na rede de atendimento do sistema de saúde.
O serviço permite que uma unidade de atendimento, que não possui condições de continuar o tratamento devido à falta de recursos, solicite um leito em outra unidade mais equipada para dar continuidade ao atendimento.
A Samuzinha, a estratégia de mobilidade dos moradores

Nesse contexto, surge a figura de Pedro Leoncio de Sousa, um marceneiro vindo do Ceará e morador do Terreirão da Rua 1. Pedro, conhecido por sua disposição em ajudar a comunidade, utilizou suas habilidades na marcenaria para criar uma solução inovadora: cadeiras especialmente projetadas para transportar pacientes em áreas de difícil acesso.
As cadeiras, resistentes e funcionais, são usadas para transportar pessoas em situações emergenciais. Carregadores informais, que normalmente transportam materiais e compras em áreas de difícil acesso, utilizam essas cadeiras para socorrer residentes em necessidade, facilitando o transporte até pontos onde possam receber atendimento.
“Uma pessoa que precisa de uma locomoção, quando o bombeiro não pode vir, a gente leva até a entrada da rua. É só chegar aqui, pegar (a cadeira) emprestada”, conta Edilson. As cadeiras de Pedro, que já têm mais de 20 anos de história, se tornaram uma ferramenta vital na comunidade, sendo até apelidadas de “samuzinha” pelos moradores, em referência ao SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Essas cadeiras permitiram que pacientes fossem transportados com mais segurança e rapidez, mesmo nas passagens mais estreitas, garantindo que recebessem atendimento urgente com menor risco e maior agilidade.

“Eu prefiro carregar as pessoas do que as coisas, faço isso por amor”, diz Luciano Gomes, carregador informal, que vê esse gesto como um ato de afeto, pois já perdeu a mãe por negligência no atendimento emergencial. Seu depoimento foi carregado de muita emoção e indignação pelo descaso e a falta de acesso a serviços básicos e essenciais na vida de qualquer cidadão.
Apesar de enfrentarem a morte de alguns pacientes devido à gravidade de suas condições nas unidades de saúde, os carregadores comentam que nunca houve um caso de alguém falecer durante o transporte improvisado. Isso destaca o comprometimento e a eficácia da rede de apoio que se formou na Rocinha, onde a solidariedade e a inovação continuam a salvar vidas.
Além das cadeiras, uma maca também fica à disposição da comunidade na casa dos familiares do Sr. Pedro, no Terreirão da Rua 1, em frente a creche União Faz a Força, conhecida como Creche da Dona Eliza. Vale ressaltar que a grande maioria não cobra pelo serviço prestado, apesar de sempre receberem alguma ajuda financeira dos familiares e moradores ao carregarem as pessoas.
A família do Sr. Pedro, que empresta as cadeiras para os moradores, espera que mais pessoas se juntem ao legado do pai para atender a mais regiões da Rocinha. Além disso, com 92 anos, o marceneiro não pode mais fabricar as cadeiras, que precisam de manutenção regular para garantir que permaneçam em boas condições para o transporte de pessoas em emergência.

“A gente queria que tivesse uma pessoa que pudesse fazer cadeiras e distribuir em vários lugares, para que ninguém precisasse descer correndo lá do alto para vir buscar a cadeira e depois chegar lá [na pessoa que precisa de socorro]”, explica Leda.
E completa: “Hoje em dia as cadeiras estão precisando de manutenção”. A família tem um sonho de que as cadeiras sejam mais equipadas e tenham constante manutenção para realizar o transporte dos moradores com mais conforto.
Esta matéria foi produzida pela aluna Agatha Barrozo durante a formação em Comunicação em Saúde na Rocinha, como parte do programa Rede Fala Roça Informa. O projeto foi idealizado pelo Fala Roça e apoiado na chamada pública do Plano Integrado de Saúde nas Favelas. A formação foi conduzida pelo Fala Roça, com o apoio da Fiotec, Fiocruz, Sistema Único de Saúde (SUS) e do Governo do Brasil.