Educar para transformar: o trabalho da escritora Maria Consuelo na Rocinha

Entre suas obras, algumas marcam sua trajetória na escrita, como 'Mulheres Reais: Processos de Aprimoramento' e 'Negras Palavras Cariocas'

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Uma favela que escolhe o morador. É assim que Maria Consuelo descreve o encontro com a favela. Nascida no subúrbio de Salvador, sua vinda ao Rio de Janeiro foi esperada ao longo de anos. Cumprindo uma triste vivência comum entre mulheres negras, a mãe dela veio primeiro para atuar como trabalhadora doméstica. A promessa era de buscar as filhas logo em seguida. No entanto, a família foi enganada e sofreu com décadas de distância. 

Consuelo foi criada em casas de famílias baianas, com famílias de criação. Mas a saudade e a esperança de reencontrar a mãe, não saiam de sua vista. Enquanto isso, ela se formou professora na Bahia, sem saber que essa profissão lhe daria tantos bons frutos em um território desconhecido. 

Educar para transformar: o trabalho da escritora Maria Consuelo na Rocinha. Stephany S.

“Minha mãe tomava decisões baseadas na minha opinião porque eu sabia ler e escrever. A pobreza era uma marca para te deixar de fora mesmo. Nos despedimos quando eu tinha 12 e só vi minha mãe de novo quando tinha 30. Quando cheguei aqui nunca tinha entrado em um túnel. Tive claustrofobia e minha mãe tentando me acalmar. Quando consegui respirar e olhei pra cima, eu vi a Rocinha. Parecia caixas de sapato, uma casa por cima da outra. Nunca tinha visto uma favela”, relembra Consuelo.

Foi a maternidade que fez com que ela se movesse na educação da Rocinha. Grávida de sete meses do seu filho Paulo Henrique, Consuelo conheceu e trabalhou com Elizia Pirozi em uma creche. Depois de um treinamento na PUC e uma seleção, ela se firmou na profissão. As dificuldades da vida fizeram com que ela se afastasse da educação durante um tempo, mas não demorou muito para que ela retornasse e ajudasse Dona Elizia no projeto de alfabetização de adultos na Rocinha. 

“Dona Elízia era muito ativa politicamente, mas xingava adoidado. Ela dizia que eu era muito chique e me colocava para ir no lugar dela nas reuniões do PAC 1. ‘O que você achar interessante você volta  e me conta’, ela falava. Aí foi assim que eu comecei: ia representando ela e fui conhecendo as pessoas. Sou até hoje articuladora social comunitária por causa disso”.

Consuelo se formou em Pedagogia aos 48 anos e tem a escrita como parte da sua identidade. Desde sempre, ela escrevia cartas para a mãe e precisava copiar o conteúdo dos livros das colegas na escola por não ter como comprar. Acabou escritora com contos em coletâneas importantes como “Mulheres Reais: Processos de Aprimoramento” e “Negras Palavras Cariocas”. O trabalho social dela é marcado pela atuação na Rede Favela Sustentável e, atualmente, na Casa Espírita Cristã Maria de Nazaré (Rua Um), evidenciando seu compromisso com o desenvolvimento humano e a comunidade.

“Uma vez minha mãe falou assim pra mim:”Filha, você escreve tão bem! Escreve um livro”. Ela achava que era fácil. Não queria contar pra ela que isso não era pra pobre, mas disse que na primeira oportunidade que eu tivesse iria escrever ou participar de um livro. Ela me incentivou a ir para faculdade também. Prometi pra ela que até os 50 anos terminaria. Terminei com 48”, conta Consuelo.

Em 2022, ela foi coordenadora da Creche Comunitária Educacional Crescer. Com sua extensa atuação, Consuelo testemunhou acontecimentos importantes na Rocinha como a chegada da Biblioteca Parque, que era um sonho quase impossível. Até hoje, é uma felicidade imensa para Consuelo estar neste espaço. Entre reconhecimentos, homenagens e moções, ela acredita que a potência da favela pode acontecer ainda muito mais no espaço. . 

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