
As histórias e memórias do Bairro Barcelos
Da origem do nome às lutas por direitos, o Bairro Barcelos guarda memórias, lideranças e histórias que moldaram a identidade da Rocinha

Entre muros que quase existiram e memórias que resistem, o Bairro Barcelos revela a história viva da Rocinha
Avenida Presidente Vargas, Túnel Zuzu Angel, Rua Marechal Floriano Peixoto. Cada rua conta uma história e exalta uma memória. E na Rocinha, não é diferente. Cada localidade que se estende por 877 mil metros quadrados tem um nome que carrega um significado. Com tantos anos de existência e resistência, a origem dos nomes pode ter sido esquecida por isso a importância de relembrar. Aliás, você sabe por que o Bairro Barcelos se chama assim?
Sendo a porta de entrada da Rocinha, o Bairro Barcelos vai da Via Ápia até a Curva do S. Há muitas décadas, esta área pertencia a família Barcelos, original do Humaitá. Após a venda do terreno, o nome permaneceu com a tentativa de desvincular este território da Rocinha. A ideia era fazer com que o Bairro Barcelos fosse um lugar à parte de São Conrado e da Rocinha.
Por meio da década de 60, esse desejo estava tão presente que a expectativa era de construir um muro em volta da reunião. Foi nessa época que José Martins, liderança histórica da Rocinha, chegou na favela. Vindo do Ceará, Martins questionava aos moradores mais antigos sobre como essa divisão do espaço poderia impactar no bolso deles:”Se construir o muro, vamos vender para quem?”.
“Quando eu cheguei aqui só tinha casa baixa e poucas casas construídas. Mais tarde veio a evolução e cresceu junto com toda a Rocinha. Agora temos um prédio de quatro, cinco andares Não falavam nunca que morava na Rocinha. Falavam que moravam no Bairro Barcelos. Uma vez, eu mesmo fiz isso: disse que morava no bairro entre São Conrado e Rocinha”, relembra Martins.

Hoje, o Bairro Barcelos é conhecido pelos bares, comércios antigos e moradores marcantes. Tanto é que algumas travessas carregam o nome daqueles que construíram histórias e moldaram este espaço e a Rocinha. Por exemplo, a Travessa Aníbal Félix carrega o nome de uma grande liderança comunitária. Aníbal deu continuidade à luta por abastecimento de água na Rocinha circulando um importante abaixo-assinado. Ele morou na travessa que carrega o seu nome e até hoje sua família reside no local.
Ao longo da história, os primeiros serviços públicos chegaram no Bairro Barcelos antes de subir o morro justamente pela atuação dessas lideranças. Para se ter água encanada, por exemplo, foram mais de dois anos de insistentes visitas na Alerj, arrecadação de dinheiro para comprar o material, circulação de abaixo-assinado. O nome na placa que hoje pode passar despercebido por muitos moradores é um retorno por uma passagem tão marcante na história da Rocinha.
“Todo mundo diz que fui que botei água, mas foi o Aníbal. Foi ele que iniciou o abaixo assinado para dar entrada na Cedae para botar água. A Cedae falou que aprovava desde que os moradores compraram o material. Ele ficou com medo e eu assumi a tarefa, que deu certo”, conta Martins
A Travessa Agenor José Rodrigues Pereira homenageia mais uma liderança. Agenor foi uma figura muito forte nas Comissões de Rua na luta pelo abastecimento de água. Por ser um processo longo até a concretização, essas figuras dividem o protagonismo na jornada comunitária. Quando um se abatia ou ficava com medo, o outro assumia tecendo uma rede de solidariedade e empatia em prol do desenvolvimento da favela.
Não muito distante das travessas, a Rua José Belmiro de Souza também relembra uma figura marcante. Você pode até achar que não sabe onde é, mas é impossível viver na Rocinha sem conhecer o coração do Bairro Barcelos. O comerciante José tinha o apelido de Boiadeiro, dando nome ao Caminho do Boiadeiro. Até hoje não se sabe se ele realmente era boiadeiro ou se tornou-se nas eras mais antigas da Rocinha.
Uma outra homenagem importante nas vias da Rocinha é Geisa Firmo Gonçalves, professora e moradora da Rocinha morta no sequestro do ônibus 174. Ocorrida em 2001, a morte de Geisa escancarou um projeto falido de segurança pública que não soube proteger uma vida. Seu legado profissional continua ecoando na Rocinha e no Ceará, seu estado de origem.
As histórias que cruzam a Rocinha precisam ser lembradas. Continue acompanhando a série de reportagem Becos da Memória





