
Fim do dinheiro nos ônibus do Rio gera revolta e expõe exclusão digital na Rocinha
Com a chegada do sistema Jaé e o fim do pagamento em espécie nos coletivos municipais, moradores relatam dificuldades de acesso, falhas no sistema e medo de ficarem sem conseguir se locomover.

Com a chegada do sistema Jaé e o fim do pagamento em espécie nos coletivos municipais, moradores relatam dificuldades de acesso, falhas no sistema e medo de ficarem sem conseguir se locomover.
A decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de acabar com o pagamento em dinheiro nos ônibus municipais tem levantado debates sobre exclusão digital e acesso ao transporte público, especialmente em favelas e periferias como a Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro. A medida começa a valer no dia 30 de maio e faz parte da implementação do sistema Jaé.
Segundo a Secretaria Municipal de Transportes, a mudança busca aumentar a segurança nos coletivos, reduzir fraudes, acabar com a dupla função dos motoristas e agilizar o embarque dos passageiros.Dados divulgados pela prefeitura apontam que apenas 9% das transações nos ônibus ainda são feitas em dinheiro.

Foto: Fala Roça
Apesar disso, moradores da Rocinha relatam dificuldades práticas com a digitalização do transporte e questionam se a cidade está preparada para uma mudança desse tamanho.
Para o morador Tiago Mesiro, de 35 anos, morador da Vila Verde, a retirada do dinheiro físico pode acabar afastando parte da população do transporte público.“Tem muita gente que trabalha informalmente e/ou recebe em espécie no dia a dia. Na favela e na periferia, nem todo mundo tem acesso fácil à internet, aplicativo bancário ou recarga online”, afirma.
Ele também destaca situações que já presencia no cotidiano.“Já vi pessoas passando sufoco por não terem saldo no cartão ou por estarem apenas com dinheiro em mãos. Em muitos casos, a pessoa acaba ficando sem conseguir voltar pra casa ou chegar ao trabalho.”.

Foto: Fala Roça
Já moradora Sandra Lopes, de 52 anos e moradora do Laboriaux, na parte alta da favela, passou recentemente por um problema com o cartão Jaé. Segundo ela, mesmo tendo saldo disponível, o sistema informou que o valor era insuficiente.“Eu fui usar no ônibus e apareceu a mensagem ‘saldo insuficiente’. Só que eu estava com R$130 no cartão”, contou.
Sandra afirma que precisou procurar atendimento presencial para resolver a situação. Depois da regularização, ela conseguiu utilizar o sistema normalmente.“Fui hoje resolver. Foi rápido o atendimento, não tinha fila. Mas pra mim é muito complicado mexer com essas coisas pela internet”, disse.
Além das dificuldades relatadas por usuários, moradores também apontam problemas relacionados à infraestrutura do sistema. Na Rocinha, alguns pontos de recarga cobram taxa de R$1 para adicionar créditos ao cartão. Já as máquinas de recarga da Estação de metrô em São Conrado, por exemplo, muito utilizada por moradores da comunidade, estavam em manutenção nos últimos dias.





