Rocinha tem terceira maior chuva em 24 horas desde 1997, aponta Alerta Rio

Rocinha registrou deslizamentos, sete sirenes acionadas, rompimento de tubulação e voltou a expor a falta de saneamento e infraestrutura em áreas de risco.

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Rocinha registrou o maior índice de chuva da cidade, novamente, 24h; a favela registrou deslizamentos, acionamento de sete sirenes, rompimento de tubulação de água e voltou a expor a falta de saneamento e infraestrutura em áreas de risco

A imagem da Rocinha que circula pelo mundo, registrada por drones que sobrevoam sua imensidão de casas, revela uma favela viva nos dias de sol: ruas cheias, moradores em circulação, encontros e manifestações culturais que expressam sua força e vitalidade. Mas, quando a chuva chega, emerge uma outra realidade, marcada pelo medo, pelo acionamento das sirenes e pelo risco de deslizamentos, evidenciando como a falta de saneamento e de infraestrutura nas encostas torna a comunidade ainda mais vulnerável.

Entre segunda-feira (15/6) e terça-feira (16/6), a Rocinha foi o local da cidade onde mais choveu. Em um período de 27 horas, entre 12h de segunda e 15h de terça, a estação pluviométrica do Sistema de Alerta e Alarme da Defesa Civil registrou 254,6 milímetros (mm) de chuva, mais que o dobro da média histórica para todo o mês de junho na região, de 108,5 mm. 

“O volume é 146,1 mm acima da média para junho (108,5 mm). A série histórica do Alerta Rio, iniciada em 1997, aponta ainda que a chuva do início da semana foi a terceira mais intensa observada pelo pluviômetro da Rocinha em 24 horas.”, informou o Alerta Rio em um comunicado.

De acordo com a Defesa Civil Municipal, às 14h07 desta terça-feira, as sete sirenes localizadas na Rocinha voltaram a ser acionadas em função do alto risco geológico, após os pluviômetros registrarem um acumulado de 188,2 mm de chuva em 24 horas. O primeiro acionamento do Sistema de Alerta e Alarme foi registrado entre 7h17 e 11h40. O volume contínuo de chuva na cidade causa o encharcamento do solo e aumenta o risco de deslizamento de encostas.

Na prática, isso significa que, em pouco mais de um dia, caíram cerca de 255 litros de água sobre cada metro quadrado da favela. Segundo a série histórica do Alerta Rio, iniciada em 1997, a chuva desta semana foi a terceira mais intensa já registrada pelo pluviômetro da Rocinha em um intervalo de 24 horas. Para efeito de comparação, esse volume sobre uma laje de 50 metros quadrados representa cerca de 10 mil litros de água em 24 horas, o equivalente à capacidade de dez caixas d’água de mil litros cheias. A comparação ajuda a dimensionar a intensidade da chuva que atingiu a favela.

Deslizamento atingiu a principal via, Estrada da Gávea, de acesso ao morro.
Foto: reprodução das redes sociais

Deslizamentos registrados em diferentes pontos

Um deslizamento de terra atingiu a Estrada da Gávea, na altura da Rua 1, na noite desta segunda-feira (16/06), após o rompimento de uma tubulação da Águas do Rio. O vazamento de água, somado às fortes chuvas que atingiram a região, provocou o deslizamento. A Rioluz instalou pedestais e projetores adicionais para reforçar a iluminação no local e ampliar a visibilidade da área e para as equipes conseguirem trabalhar no local. Não houve registro de feridos, mas a lama atingiu veículos estacionados na região e provocou a interdição da Estrada da Gávea, principal via de transporte e acesso ao morro.

Os moradores que acompanham a área já analisavam os riscos, Ana Paula Guimarães, 37 anos e moradora do Portão Vermelho diz que:

“Toda a região do deslizamento, até o Portão Vermelho, vem apresentando sinais de instabilidade há algum tempo. Isso é algo que já percebemos há anos. Toda essa área precisa de monitoramento constante e ações preventivas. Felizmente, desta vez não houve feridos, mas será que será preciso esperar uma nova tragédia ou vítimas para que as medidas necessárias sejam tomadas? Não precisamos apenas de grandes obras como um terminal de ônibus. Precisamos de saneamento básico, de prevenção e de investimentos que garantam que a nossa comunidade seja olhada e cuidada em seu interior.”.

A Fundação Geo-Rio fará o levantamento dos serviços necessários para iniciar uma obra de contenção, com implantação de sistema de drenagem. Equipes da Subprefeitura da Zona Sul, Comlurb, CET-Rio, Geo-Rio, Guarda Municipal e Defesa Civil Municipal continuam no local.

Outra área que entrou em ponto de atenção na manhã desta terça-feira é o barranco próximo à Creche Maria Maria, na Rua 1. A Defesa Civil esteve no local realizando uma vistoria cautelar para avaliar a gravidade do deslizamento e a necessidade de possíveis medidas preventivas. O local foi isolado pelos técnicos da Defesa Civil.

Deslizamento entre as localidades do Portão Vermelho e Rua 1
Foto: Reprodução das redes sociais

As ocorrências reforçam a preocupação de moradores que convivem diariamente com áreas suscetíveis a desabamentos e outros impactos provocados pelas chuvas intensas.

O episódio recente não é um caso isolado. No início do mês, em 2 de junho, outro deslizamento foi registrado na região da Vila Cruzada, na parte alta da Rocinha. As ocorrências reforçam a preocupação de moradores que convivem diariamente com áreas suscetíveis a desabamentos e outros impactos provocados pelas chuvas intensas.

Rocinha concentra o maior número de casas em áreas de risco no Rio

Os recorrentes acidentes corroboram os dados do estudo “Rio 60º, desenvolvido pela plataforma Ambiental Media. O levantamento aponta a Rocinha como o bairro carioca com o maior contingente de habitações sob risco de deslizamento. De acordo com a pesquisa, cerca de 11 mil domicílios, aproximadamente 45% do total da comunidade,  estão localizados em áreas classificadas como de alto risco, enquanto outros 1,4 mil encontram-se em regiões de risco muito alto.

O impacto da chuva é ainda maior porque grande parte da Rocinha é composta por superfícies impermeabilizadas, como lajes, telhados, concreto e asfalto. Diferentemente do solo natural, que absorve parte da água, essas estruturas fazem com que a chuva escoe rapidamente pelas vielas e encostas, concentrando grandes volumes em pouco tempo e aumentando o risco de enxurradas, alagamentos e deslizamentos.

Divulgação: redes sociais

Para quem vive na Rocinha, a chuva vai muito além de uma mudança no tempo. Ela altera a rotina da favela: moradores têm o deslocamento comprometido, trabalhadores enfrentam dificuldades para sair ou voltar para casa e crianças deixam de frequentar as escolas, que registram queda no número de alunos em dias de temporal.

Os vídeos compartilhados nas redes sociais evidenciam a realidade enfrentada pela população. As imagens mostram ruas e escadarias tomadas por enxurradas, moradores caminhando em meio à água misturada com esgoto, áreas isoladas pelos alagamentos e os riscos sanitários decorrentes da ausência de infraestrutura adequada.

Enquanto a Rocinha segue sendo reconhecida por sua potência cultural, econômica e social, os dias de chuva expõem desafios históricos que permanecem sem solução. A força da comunidade convive com a vulnerabilidade de milhares de famílias que, a cada temporal, precisam lidar com o medo de deslizamentos, alagamentos e interrupções em sua rotina.

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