
Lenda do Surfe, O legado eterno de Ricardo Bocão na Rocinha
Bocão, foi encontrado sem vida no último domingo (28/06), no costão da Avenida Niemeyer, após cinco dias de buscas
Conhecido como Bocão, Ricardo Ramos fundou a Associação Rocinha Surfe Escola e teve sua trajetória marcada pela promoção do esporte e da inclusão social na comunidade
Professor, surfista, morador da Roupa Suja e uma das principais lideranças do esporte na Rocinha, José Ricardo Ramos, de 54 anos, conhecido como Bocão, foi encontrado sem vida no último domingo (28/06), no costão da Avenida Niemeyer, após cinco dias de buscas realizadas por bombeiros, surfistas, organizações sociais e amigos. Sua partida carrega uma dimensão quase poética.
Ainda que seja atravessada por uma dor imensa, a perda de um familiar, de um professor, de um amigo que dedicou mais de três décadas de sua vida à Rocinha, é impossível não refletir sobre a simbologia de alguém que viveu pelo mar e, de certa forma, nele encontrou seu último destino.

Foto: Acervo pessoal
Ricardo Bocão investiu o tempo às outras pessoas sem deixar de cultivar aquilo que também lhe dava sentido: o surfe. Ensinou a prática gratuita para diversas crianças e jovens da Rocinha, atraves do Rocinha Surfe Escola, que fizeram do Cantão de São Conrado a extensão de casa, um quintal para a prática de um esporte que ainda é considerado elitizado.
O professor, além de ensinar, restaurava, emprestava e doava pranchas para quem não tinha condições, proporcionando que o surfe fosse um esporte possível para a juventude da favela. Bocão, ao mesmo tempo, reforçava que o esporte não poderia substituir a educação.

Foto: Acervo pessoal
“Vai para a escola e depois vem para o surfe”, dizia em um vídeo divulgado nas redes sociais so Podcast Barraco Adentro, sobre o trabalho da Associação Rocinha Surfe Escola. Era uma frase simples, mas que traduzia sua visão de mundo: o esporte como ferramenta de transformação, nunca como substituto da formação acadêmica e cidadã.
Fundada em 1989 e formalizada em 1994, a Associação Rocinha Surfe Escola se tornou um ponto de oportunidades para gerações de crianças e jovens da favela. Bocão construiu uma trajetória marcada pelo propósito e pelo compromisso com a comunidade e com a praia. Era presença constante em eventos comunitários, campeonatos, mutirões de limpeza na praia ,e iniciativas que ajudavam a manter vivo um projeto que, muitas vezes, sobrevivia graças ao esforço coletivo e à busca permanente por recursos. Seu nome era conhecido, respeitado e admirado por muitos moradores da Rocinha.
Ricardo Ramos desapareceu na madrugada de quarta-feira (24/06) após entrar no mar, em São Conrado, praia na zona sul do Rio de Janeiro. O Corpo de Bombeiros, moradores e surfistas se mobilizaram nas buscas pelo professor, com a esperança de achá-lo ainda com vida. Os moradores estavam esperançosos; grupos de WhatsApp e páginas do bairro se uniram para incentivar as buscas e dar apoio.
Mas nada disso apaga as perguntas difíceis que a morte de Ricardo nos impõe. Ela nos convida a olhar para a saúde mental com responsabilidade e menos silêncio, e a pensar em como até pessoas que dedicam a vida ao cuidado do outro podem enfrentar dores invisíveis. Também evidencia o peso das dificuldades sociais e financeiras enfrentadas por quem sustenta projetos comunitários quase sempre com poucos recursos e muita resistência.
Que Bocão seja lembrado não apenas pela forma como partiu, mas principalmente pelo legado que deixou: a lenda do ensino do surfe para crianças e adolescentes da favela. Pelas ondas que ensinou a atravessar, pelas crianças que acolheu, pelos valores que transmitiu e pela certeza de que a educação e o esporte, juntos, podem mudar destinos. Que seu legado seja honrado e inspire futuras gerações.

Foto: Fala Roça





