Publicação produzida pelo Fala Roça e pela Agência Mural traz propostas, experiências e aprendizados da 3ª Conferência de Jornalismo das Favelas e Periferias
O jornalismo produzido nas favelas e periferias ganhou um novo registro para ampliar sua circulação e fortalecer o debate sobre o papel da comunicação na construção democrática. Lançado no dia 28 de setembro, o dossiê “O futuro é local: o jornalismo das favelas e periferias como ferramenta de transformação social” reúne propostas, experiências e aprendizados construídos ao longo da 3ª Conferência de Jornalismo das Favelas e Periferias, realizada em outubro de 2025, na Rocinha.
Produzido pelo Fala Roça e Agência Mural, em parceria com a Fundação Itaú, o material nasce de uma construção coletiva entre jornalistas, comunicadores, pesquisadores e organizações que atuam em diferentes territórios do país. A publicação parte de uma compreensão central: o jornalismo local não é apenas uma ferramenta para informar sobre o que acontece em determinado lugar. Ele também pode contribuir para produzir conhecimento, preservar memórias, fortalecer direitos, segurança física e digital, ampliar o acesso à informação e dar visibilidade a questões que muitas vezes permanecem fora da cobertura da imprensa tradicional.
O lançamento aconteceu dentro da programação do Locus – Redes de Narrativas e Territórios, iniciativa da Fundação Itaú voltada ao fortalecimento, desenvolvimento e conexão de organizações de jornalismo local, periférico e independente. O encontro reuniu diferentes iniciativas de comunicação para discutir sustentabilidade, produção de narrativas e os caminhos para fortalecer um ecossistema de informação mais plural.

Foto: Fundação Itaú / Divulgação
Uma conversa sobre território, jornalismo e transformação
O lançamento do dossiê contou com um painel mediado por Anderson Meneses, diretor de negócios e tecnologia da Agência Mural, e Karen Fontoura, coordenadora de jornalismo e projetos do Fala Roça.
A conversa reuniu Thais Siqueira, diretora executiva da Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena e diretora do Desenrola e Não me Enrola de São Paulo; Márcia Guena, professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB); e Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital.
Mais do que apresentar uma publicação, a mesa abriu espaço para discutir por que é necessário documentar e sistematizar experiências de comunicação que já acontecem nos territórios. A discussão colocou em evidência a relação entre jornalismo, território e produção de conhecimento, além dos desafios enfrentados por veículos independentes para garantir que diferentes comunidades tenham acesso a informações produzidas a partir de suas próprias realidades.
Para Thais Siqueira, o território precisa ser compreendido também como espaço de produção de conhecimento, e não apenas como cenário dos acontecimentos que chegam ao noticiário. “O território não é apenas o lugar de onde se noticia o que acontece. Ele é também um lugar de produção de conhecimento, de memória, de dados, de metodologias e de soluções. É isso que o dossiê apresenta.”.
A fala ajuda a sintetizar uma das propostas centrais da publicação: reconhecer que as experiências acumuladas por comunicadores e organizações locais também produzem metodologias, dados e conhecimentos que podem contribuir para o debate público.

Márcia Guena chamou atenção para outra dimensão desse trabalho: a capacidade dos veículos independentes de chegar a regiões que permanecem fora da cobertura cotidiana da imprensa tradicional. “Os veículos independentes cumprem um papel fundamental ao chegar a áreas não cobertas pela imprensa tradicional, os chamados ‘desertos de notícias’ predominantes na região.”.
A discussão sobre os chamados desertos de notícias também reforça a importância de iniciativas que acompanham de perto o cotidiano das comunidades. Em muitos territórios, questões relacionadas a serviços públicos, mobilidade, educação, saúde, cultura, meio ambiente e segurança ganham outra dimensão quando são acompanhadas por profissionais que conhecem a realidade local e estabelecem relações contínuas com seus moradores.

Foto: Fundação Itaú / Divulgação
Um documento que nasce da escuta
A publicação é resultado direto da 3ª Conferência de Jornalismo das Favelas e Periferias, realizada na Rocinha em 2025. Com o tema “Justiça climática para nossos territórios”, o encontro reuniu jornalistas e comunicadores de diferentes estados brasileiros para discutir os desafios do jornalismo produzido nas favelas, quilombos, quebradas, aldeias e periferias e outros territórios historicamente sub-representados na imprensa.
Transformar os debates da Conferência em um dossiê significa, portanto, fazer com que essas discussões não terminem junto com o evento. O material organiza aprendizados e recomendações para que possam ser consultados por jornalistas, pesquisadores, organizações, comunicadores e outras pessoas interessadas em fortalecer o jornalismo local.
A proposta também está relacionada à necessidade de reconhecer a comunicação comunitária e periférica como parte fundamental do ecossistema jornalístico brasileiro. São iniciativas que frequentemente atuam com equipes reduzidas e recursos limitados, mas que desenvolvem estratégias próprias para produzir informação, mobilizar moradores e acompanhar problemas que afetam diretamente seus territórios.
Nesse sentido, o dossiê não pretende apenas falar sobre os jornalismos das favelas e periferias. Ele parte da escuta de quem já está produzindo informação nesses lugares para refletir sobre caminhos possíveis para o futuro.
O próprio título da publicação sintetiza essa perspectiva. “O futuro é local” é uma afirmação sobre a importância de olhar para os territórios como espaços onde o futuro também está sendo construído. É onde questões nacionais e globais, como as mudanças climáticas, a desigualdade, o racismo, a democracia e o acesso à informação, ganham formas concretas e impactam diretamente a vida das pessoas.
Ao registrar essas experiências, o dossiê também contribui para construir memória sobre uma parte da história da comunicação brasileira que muitas vezes não aparece nos registros tradicionais. São vozes que já produzem informação diariamente, mas que agora têm suas práticas, desafios e propostas reunidos em uma publicação construída coletivamente.
Para o Fala Roça e a Agência Mural, o lançamento representa mais uma etapa de um processo iniciado na Rocinha. Se a Conferência criou um espaço para reunir diferentes experiências, o dossiê amplia esse espaço e leva seus debates para além daquele encontro.
O futuro é local porque o jornalismo também pode começar pelo território, pela escuta e pelas pessoas que vivem nele. E, ao transformar essa experiência coletiva em documento, o dossiê ajuda a garantir que essas narrativas continuem circulando, sendo debatidas e produzindo novos caminhos para a comunicação no Brasil.







