Entre desafios e conquistas, atletas da Rocinha fazem história no Muay Thai e nas artes marciais

Juliana Freitas, Michael "PQD" Oliveira e Yan Teixeira mostram como projetos, professores e a própria comunidade abrem caminhos no esporte para moradores alcançarem o mundo.

Juliana Freitas, Michael “PQD” Oliveira e Yan Teixeira mostram como projetos, professores e a própria comunidade abrem caminhos no esporte para moradores alcançarem o mundo.

Na Rocinha, as artes marciais vêm formando atletas e levando moradores da comunidade a competições nacionais e internacionais. É o caso de Juliana Freitas, Michael “PQD” Oliveira e Yan Teixeira, que construíram trajetórias diferentes dentro do esporte, mas têm em comum a relação com o território onde nasceram e cresceram.

Hoje, Juliana carrega o título de campeã mundial de Muay Thai; Michael acaba de chegar ao UFC, principal organização de MMA do mundo; e Yan tenta reconstruir a carreira depois de anos afastado das competições por causa de lesões. Antes dos grandes palcos, porém, os três passaram por treinos, projetos, professores e pela rotina da Rocinha.

A trajetória de da lutadora de 26 anos começou muito antes do Muay Thai. Desde os quatro anos, ela praticava capoeira e, ao longo da infância, também passou pelo futebol e pelo vôlei. A família não tinha condições financeiras, mas ela sempre buscava se encontrar no esporte.” O esporte sempre foi uma válvula de escape da nossa realidade.”

Na adolescência, Juliana dividiu a atenção entre os estudos, fez cursos e participou de projetos sociais na comunidade. Além disso, foi na praia onde se dedicou à altinha e disputou campeonatos pela equipe Sanca Alta. Uma foto sua, dessa época, acabou entrando no livro Rocinha Sob Lentes, do fotógrafo Erick Dias.

O Muay Thai entrou na vida dela pela amiga Priscila, hoje também sua ex-sogra, que insistia para que Juliana fosse aos treinos. Ela sempre prometia e nunca ia, até que um dia Priscila a desafiou.”Eu falei: ‘eu vou pro treino e vou conseguir fazer tudo certinho’. Daí comecei a frequentar”, disse a atleta.

A motivação cresceu com o incentivo do mestre Pedro e de outras pessoas que diziam ver potencial nela. Em apenas quatro anos de esporte, Juliana chegou a um título que nem ela esperava tão cedo.”Jamais imaginaria o título mundial em tão pouco tempo. Parece que foi ontem que comecei.”

Em junho de 2026, ela disputou o Amazing Muaythai World Festival, na Tailândia, e venceu atletas dos Estados Unidos na semifinal e na final, conquistando o título mundial na categoria até 51 kg. Segundo ela, o maior desafio não foi a luta em si, mas manter a rotina.

Juliana carrega o título de campeã mundial de Muay Thai. Foto: Acervo Pessoal

“O meu maior desafio foi manter a constância nos treinos, numa luta diária entre a mente e o corpo, porque nem todo dia a gente se sente motivada a treinar. Mas quando se tem um objetivo, tem que ter disciplina até nos dias ruins, além de manter o comprometimento no trabalho e a rotina de preparo físico.”

Disputar do outro lado do mundo, no país do Muay Thai, também pesou.”Foi bastante desafiador estar do outro lado do mundo, no país do Muay Thai. Representar o Brasil e a Rocinha foi satisfatório, e receber o apoio das pessoas foi ainda melhor para o meu desempenho na competição. Me senti confiante, realizada e grata.”

Nascida e criada na Rocinha, Juliana também contou com o apoio da comunidade para conseguir realizar a viagem e disputar o campeonato.”Me senti muito acolhida, amada e querida por todos. Muito gratificante ver o quanto as pessoas da comunidade se disponibilizaram para me ajudar e me apoiar nesse sonho. Jamais vou esquecer todos que me ajudaram de alguma forma. Isso fez total diferença na conquista do título.”

Depois do Mundial, Juliana pretende começar a treinar jiu-jitsu ainda neste ano e, em 2027, iniciar os treinos específicos de MMA, com o objetivo de chegar ao UFC. 

Para ela, o esporte também é uma ferramenta de transformação para outras mulheres.”A mensagem que eu deixo é que, independente de qualquer coisa, acreditem no seu sonho, vão atrás, conquistem e coloquem em prática tudo aquilo que vocês desejam. Toda mulher deveria fazer uma arte marcial, para aprender a se defender e ter autoconfiança, porque no nosso país hoje é melhor saber e não precisar do que precisar e não saber.”

Do projeto social ao octógono do UFC

Michael “PQD” Oliveira cresceu na Rocinha e começou a praticar kickboxing aos 15 anos. Na época, havia acabado de passar por uma cirurgia de apendicite e estava muito magro. Foi o primo, que já treinava em um projeto no Complexo Esportivo que leva o nome de Anderson Silva, quem o levou para conhecer a modalidade.

Aos poucos, o que começou como uma experiência nova se transformou em paixão..“Fui gostando da modalidade. Comecei a treinar movimentos, depois tinha que fazer lutinha. Eu saía cortado e achava legal, não era tão ruim. Só que a família estranhava”, conta o jovem.

Naquele período, porém, transformar o esporte em profissão ainda parecia distante. Michael conta que, principalmente no kickboxing, os custos de inscrições e competições muitas vezes superavam qualquer retorno financeiro.“Era bem difícil ganhar dinheiro com o esporte naquela época, ainda mais no kickboxing. Eu mais pagava do que ganhava..”

Entre os 18 e 19 anos, Michael decidiu entrar para o Exército. Foram oito anos de serviço até chegar à Brigada de Infantaria Paraquedista, experiência que deu origem ao apelido “PQD”. Conciliar a rotina militar com os treinos e as competições foi um dos principais desafios de sua trajetória.

Sem horário fixo para deixar o quartel, ele precisava negociar com os superiores para conseguir dispensas e participar de treinos e lutas. As vitórias conquistadas fora do quartel, pouco a pouco, também ajudaram a construir o respeito que recebeu dentro da instituição.

Para Michael, a passagem pelo Exército se somou à vivência na Rocinha, ajudando a forjar sua formação como atleta.“Foi fundamental tudo que aconteceu. Todo esse conhecimento de ambas as partes.”

Michael acaba de chegar ao UFC.
Foto: Arquivo pessoal

O caminho até o MMA profissional também passou por um encontro que mudaria sua trajetória. O ex-lutador Rodrigo “Minotauro” Nogueira conheceu Michael ainda no projeto social e, anos depois, o apresentou ao MMA profissionalmente.

Mas Michael também precisou criar os próprios caminhos. Em busca de oportunidades, passou a entrar em contato diretamente com eventos e organizações, até conseguir disputar a primeira luta profissional. A sequência o levou ao Dana White’s Contender Series e, posteriormente, ao UFC.

Na estreia na maior organização de MMA do mundo, a vitória veio ainda no primeiro round, por nocaute.“Quando entrei no octógono, estava me sentindo super à vontade, não sentia aquela pressão de estrear. Quando ganhei, fiquei sem palavras, falei: ‘agora sim eu sou atleta do UFC. E isso é só o começo’.”

A chegada ao UFC, no entanto, não representa apenas uma conquista individual. Para Michael, a trajetória também está ligada à Rocinha e às crianças que acompanharam seus primeiros passos no esporte.

“Tem todo o mérito da Rocinha ali, porque eu convivia com o pessoal. Quando eu chegava cansado do treino, tinha sempre uma garotada falando: ‘cara, eu quero ser igual você’. Mas eu ainda estava no início. Chegar ao maior evento do mundo é sensacional, porque isso mostra onde o moleque da comunidade pode chegar”, pontua

Agora, diante de uma nova etapa da carreira, Michael prefere manter os pés no chão. Em vez de projetar grandes adversários ou conquistas, fala em construir experiência dentro do octógono.“A ideia é lutar com gente do meu nível, ganhar experiência.”

 Entre lesões, resiliência e recomeço

A trajetória de Yan Teixeira também nasceu na Rocinha e foi construída desde cedo em contato com as artes marciais. Vem de uma família ligada à luta: o irmão Ralph já foi lutador de MMA profissional, um tio treinava luta livre e o primo Vagner Rocha, hoje fisioterapeuta, também lutou luta livre e MMA.

De início, Yan não levava o esporte muito a sério, dividia a atenção entre o futebol e o treino, que fazia ao lado do irmão. Foi o técnico Aritano Barbosa, a quem chama de pai, quem o chamou para treinar de verdade, em um projeto que funcionava na quadra da RUA 1, dentro da Rocinha. Aos 16 anos, Yan decidiu se dedicar só à luta. Hoje, vive do esporte: treina, compete e dá aulas.

“Já fiz algumas lutas de Muay Thai, sou oriundo da luta livre esportiva, tenho várias lutas na luta livre. Já fiz lutas de boxe e tenho doze lutas de MMA profissional, sendo dez vitórias e duas derrotas.”

A carreira, porém, foi interrompida por uma sequência de lesões, no ombro, na clavícula e no joelho, que afastou Yan das competições por alguns anos.

“Foi um período de resiliência, em que não pude lutar, não pude treinar. Quando operei o ombro, eu ia dar aula com um braço só, porque as contas chegam e a gente não tem patrocínio que sustente a gente.”

Durante a recuperação, um amigo assumiu as aulas enquanto Yan orientava por fora. Ele fez fisioterapia e passou por sessões de quiropraxia, até poder voltar aos poucos ao tatame.

Yan Teixeira, morador da Rocinha campão de MMA

“Foi um trabalho de resiliência. Quando eu pude, voltei devagarinho, para quando voltasse a lutar, retornar bem.”

Em julho, Yan retornou ao cage [área cercada onde acontecem a maioria das lutas de MMA] pelo Shooto Brasil, evento onde já disputou o cinturão de MMA duas vezes, com uma vitória e uma derrota, e onde soma sete lutas, seis vitórias e uma derrota.

“Foi uma sensação muito boa voltar a lutar, ainda mais num evento grande, onde fiz a maioria das minhas lutas. A sensação foi maravilhosa, sobretudo podendo fazer aquilo que eu mais amo. Cheguei lá, me diverti, como eu falo nas entrevistas: ‘deixa o garoto se divertir, deixa o garoto brincar’. Fui sem pressão e deixei só o garoto que existe dentro de mim se divertir”, brinca

Para Yan, ser atleta da Rocinha é motivo de orgulho, e também uma forma de mostrar o que a comunidade pode revelar.

“Para mim, é ter orgulho da favela, de onde eu sou cria. Quando vou lutar, falo de onde eu sou nas entrevistas, e tenho orgulho. Aqui dentro tem vários talentos: de luta, de futebol, de música. É um celeiro de talentos. Só precisa ter gente que acredite na juventude e que apoie não só quando já estiver no auge, mas lá na base, começando.”

Agora, de volta às competições, ele mira voos mais altos.”Almejo, na minha vida de atleta, voos maiores: voltar aos eventos grandes, internacionais. Agora é esperar a oportunidade de disputar cinturões de novo, até no peso-galo, categoria em que fui campeão antes de subir de peso e entregar o cinturão”, deseja o atleta”O bom é saber que o leão que tinha dentro de mim quando comecei a lutar profissional continua vivo. Eu não tinha que provar nada pra ninguém, tinha que provar pra mim mesmo.”.

Assine o Fala Roça

Receba as notícias por e-mail