A dança que nasce na favela e ocupa o mundo

Entre ensaios, sonhos e resistência, jovens da Rocinha transformam arte em futuro através da Cia e do Studio de Dança Junior Barbosa

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Entre ensaios, sonhos e resistência, jovens da Rocinha transformam arte em futuro através da Cia e do Studio de Dança Junior Barbosa 

Um misto de entusiasmo, ansiedade e vontade de reafirmar a dança como resistência, potência e arte. Foi assim que Junior Barbosa, diretor e fundador da Cia Junior Barbosa, descreveu o início da preparação dos bailarinos da companhia e do Studio de Dança para o espetáculo de 2026. O balé urbano, contemporâneo e carregado de autenticidade atende dezenas de crianças, jovens e adultos da favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, que se reuniram no primeiro final de semana de maio para um ensaio fotográfico e alinhamentos sobre a construção do novo espetáculo de dança da Cia.

Entre figurinos, passos marcados e trocas coletivas, o encontro também simbolizou mais um capítulo de uma trajetória construída através da arte dentro da maior favela do país. Mais do que uma apresentação, o espetáculo representa a continuidade de um sonho coletivo que atravessa gerações, fortalece identidades e cria novas perspectivas de vida para jovens de favelas e periferias do Rio. 

Bailarinos da Cia de Dança Junior Barbosa se preparam para o grande espetáculo de 2026.
Foto: Fala Roça | Osvaldo Lopes

Para Junior Barbosa, a preparação deste novo espetáculo carrega um significado ainda maior diante dos desafios enfrentados diariamente pelos jovens da favela. “A dança salva, transforma e abre caminhos. Eu não sou cria da Rocinha, mas fui abraçado por essa comunidade há anos. Cada ensaio é também um espaço de acolhimento, disciplina e esperança. Os meninos e meninas ficam sempre ansiosos e animados para tudo, eles sabem que eu cobro muito também. Muitos desses jovens chegam aqui sem acreditar no próprio potencial e descobrem, através da arte, que podem ocupar qualquer lugar que desejarem”, destacou o coreógrafo. 

A movimentação dentro do Studio, local que recebeu o primeiro ensaio fotográfico para divulgação do espetáculo, vai além das técnicas de dança. O espaço, localizado no Trampolim, um dos principais acessos da parte baixa do morro, se tornou um ponto de encontro para juventudes que encontram na arte uma possibilidade real de expressão e pertencimento. Em uma cidade marcada por desigualdades históricas e pela ausência de oportunidades culturais em muitos territórios periféricos, iniciativas como a Cia e o Studio de Dança Junior Barbosa ajudam a romper ciclos de exclusão social através da cultura e empoderamento de corpos negros, femininos e favelados. 

Junior Barbosa. coreógrafo, criador e diretor da Cia e do Studio de Dança.
Foto: Divulgação

Cia e Studio de Dança Junior Barbosa 

Atualmente, a Cia é formada por 12 bailarinos profissionais. Já o Studio, atende 114 alunos, surgiu em 2021 na localidade do Trampolim, na parte baixa da Rocinha, um dos principais acessos à favela. Com 5 anos recém-completados, o espaço desenvolve um trabalho voltado para dança, arte e transformação social, oferecendo aulas de diversos segmentos de dança e incentivando novos talentos da comunidade. 

As janelas do Studio carregam e dão luz a histórias de jovens que passaram a enxergar novas possibilidades para o futuro. Muitos alunos tiveram o primeiro contato com a dança dentro do espaço, e hoje sonham em capacitar e profissionalizar suas carreiras artísticas. Outros encontram no balé urbano e contemporâneo uma ferramenta de autoestima e fortalecimento emocional.

“Quando uma dessas meninas entende que o seu corpo também pode ser arte, expressão e protagonismo, muita coisa muda. A dança desenvolve confiança, cria responsabilidade e mostra que nossos sonhos também merecem palco, luz e aplausos.”.

Junior Barbosa, coreógrafo e diretor da Cia e do Studio

De comissão à sala de aula

A trajetória de Junior Barbosa também inspira quem acompanha seu trabalho. Aos 2 anos, o ator, bailarino e coreógrafo acumula passagens por importantes escolas de samba do Rio de Janeiro, como GRES Acadêmicos da Rocinha e GRES Estácio de Sá. O artista também integrou comissões da Portela, União da Ilha, Paraíso do Tuiuti e Império da Tijuca. Em 2026, ele segue como coreógrafo da Acadêmicos da Rocinha, onde já assinou trabalhos nos carnavais de 2020, 2022, 2024 e 2025. Assim como permanece a frente da Estácio de Sá em 2027. 

Mesmo com reconhecimento e destaque no cenário artístico, Junior escolheu permanecer construindo seu trabalho na Rocinha, território que o acolheu e onde decidiu investir na formação de novos artistas. A decisão revela o compromisso que vai além da dança: fortalecer a favela por meio da cultura e mostrar que talento, disciplina e arte também nascem ali. 

Enquanto os ensaios seguem intensos para o espetáculo de 2026, Junior busca patrocínio para viabilizar o maior sonho desses jovens. Cada movimento apresentado pelos bailarinos carrega histórias de superação, coletividade e resistência. Em um palco onde corpos favelados e periféricos ocupam o centro da cena, a dança deixa de ser apenas performance e se transforma em afirmação de existência. 

Para os jovens da Rocinha e entorno, o espetáculo já começou muito antes da estreia. Ele acontece diariamente, dentro de cada aula, ensaio e sonho compartilhado. 

Junior faz questão de acompanhar todo processo de criação e execução do espetáculo 2026.
Foto: Fala Roça | Osvaldo Lopes

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