Mudanças nos locais de votação, longas filas e dificuldades de deslocamento marcam o primeiro e o segundo turnos das eleições de 2026
O primeiro turno das eleições de 2026 terminou com milhões de brasileiros ausentes das urnas e reacendeu o debate sobre as condições de acesso ao voto. No estado do Rio de Janeiro, 2.997.846 eleitoras e eleitores, o equivalente a 23,32% do eleitorado fluminense, não compareceram à votação realizada em 4 de outubro,, segundo dados divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). O percentual representa quase um quarto das pessoas aptas a votar no estado.
Em âmbito nacional, a abstenção chegou a 21,08%, superando os 33 milhões de eleitores no primeiro turno. Nas favelas cariocas, os números chamam ainda mais a atenção. Na Rocinha, a abstenção foi de 26,86%, enquanto no Complexo da Maré chegou a 28,46%, conforme levantamento divulgado pelo Voz das Comunidades, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ainda de acordo com os dados, a abstenção total nos 13 municípios da Baixada Fluminense, com 2,8 milhões de eleitores aptos, chegou a 20,49%, o que corresponde a 576.538 eleitores e eleitoras que se abstiveram no primeiro turno. A região é descrita como “peça-chave no xadrez eleitoral” e palco de disputas estratégicas por comportar cerca de 22% de todo o eleitorado do estado. Os índices superam a média nacional e evidenciam a necessidade de investigar os obstáculos que podem dificultar a participação política de moradores desses territórios.
Parte desse cenário envolve as mudanças nos locais de votação promovidas pela Justiça Eleitoral. Para as eleições de 2026, o TRE-RJ alterou 277 locais, em relação ao pleito de 2024, afetando aproximadamente 670 mil eleitores no estado. Desse total, 72 mudanças foram motivadas por questões de segurança, com o objetivo de afastar seções de áreas consideradas de alto risco ou sob influência de grupos criminosos. Também houve alterações relacionadas à acessibilidade, à infraestrutura e ao fechamento ou à mudança de endereço de estabelecimentos.
Embora a medida tenha sido apresentada como uma forma de proteger a liberdade de escolha do eleitor, a transferência de seções para fora das comunidades pode criar dificuldades adicionais. Distâncias maiores, necessidade de utilizar transporte, custos de deslocamentos, calor, longas filas e falta de informação acessível sobre os novos endereços são fatores capazes de dificultar o comparecimento, sobretudo, de idosos, pessoas com deficiência, trabalhadores com jornadas extensas e famílias com crianças.
Na Maré, mais da metade dos eleitores de determinadas áreas precisou sair das favelas onde mora para votar. Segundo reportagem do UOL, houve filas que chegaram a exigir até quatro horas de espera, além de relatos de moradores que desistiram diante do calor e das dificuldades de deslocamento.
Na Rocinha, filas de aproximadamente 1,5 quilômetro foram registradas no CIEP Ayrton Senna da Silva durante a manhã do primeiro turno. Os episódios demonstram como a organização dos locais de votação pode interferir na experiência de quem precisa exercer o direito ao voto.
Em municípios da Baixada Fluminense, 7 em cada 10 eleitores estavam faltosos em quatro cidades. Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo e São João de Meriti concentraram 68,4% das abstenções no primeiro turno. Além das grandes filas e mudanças de zona eleitoral, a intensificação da disputa entre grupos políticos junto à desesperança desmobilizam o voto da população. Assim, nove das 13 cidades registraram mais de 20% de abstenções, de acordo com dados levantados pelo Instituto BXD.
No segundo turno, todas as cidades da Baixada Fluminense reduziram o número de pessoas que não foram votar, exceto Japeri (21,81% ➡ ️ 22,43%) e Guapimirim (21,68% ➡ ️ 21,99%). No entanto, os dados disponíveis não permitem afirmar que as mudanças de endereço tenham sido a causa direta do aumento da abstenção nesses municípios.
O eleitorado precisou verificar novamente o endereço de votação para o segundo turno, mesmo que tenha comparecido ao primeiro. O TRE-RJ informou que, nesta etapa, apenas um local foi alterado no estado: cinco seções da 188ª Zona Eleitoral, antes instaladas na Rua Muaná, em Brás de Pina, passaram a funcionar na Rua Irapuá, 243, na Penha Circular.
De modo geral, diversos fatores podem ter contribuído para um cenário de ausências, como desinteresse político, dificuldades econômicas, compromissos de trabalho, problemas de saúde e limitações de transporte também podem influenciar o não comparecimento. Ainda assim, a coincidência entre deslocamentos, filas e índices elevados de ausência reforça a necessidade de investigar os impactos dessas alterações e de garantir que a população receba orientações claras e antecipadas.
Os atos e mobilizações de rua tomaram conta do Rio de Janeiro no intervalo entre os turnos eleitorais. Ganhar votos para os candidatos à Presidência e incentivar o voto de quem se absteve ou justificou no primeiro dia de votação era o principal objetivo das organizações e lideranças que se colocaram na linha de frente na luta pela continuidade da democracia. As ações populares tiveram impacto direto na diminuição da abstenção: 217 mil eleitores a mais votam no 2º turno.
Esta matéria é fruto da parceria entre Jornal Fala Roça e Instituto BXD







