As ondas de calor que atingiram o Brasil em novembro de 2023 foram uma prévia do verão na Rocinha. Sem luz há dias, em uma nova rotina de apagões, os moradores veem os alimentos estragarem na geladeira e convivem com postes e transformadores pegando fogo devido à alta temperatura do calor agora em janeiro. No total, 15 localidades da Rocinha cotidianamente têm o fornecimento de energia elétrica cortado pela Light, segundo a Associação Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR). O apagão no morro é nítido à noite pelo mar de luzes apagadas.

“Ganhei um chester no Natal da empresa e estava lá na geladeira, mas derreteu. Provavelmente, vou perder mais alimentos”, prevê Silmara Martins, de 26 anos, moradora da Travessa Gregório, situada na parte baixa da Rocinha. No último apagão, em 18 de janeiro, ela conta que precisou passar “a noite toda abanando” o filho de seis anos. E completa: “Ficamos até às 23h30 na praia de São Conrado tomando banho para refrescar”. 

“Estou desde a tarde do dia 16 de janeiro sem luz. A maior dificuldade é o calor e a escuridão. Espero aguentar e estar viva até o final do verão”, reclama Laura Martins, de 22 anos, que também mora na Travessa Gregório, uma das áreas mais afetadas na Rocinha pela falta de fornecimento de energia. 

Segundo funcionários da Light que atuavam em alguns pontos da favela, o problema de energia é causado pela grande quantidade de cabos elétricos que fornecem iluminação para os domicílios dos moradores, espalhados pelos sub-bairros da Rocinha, são superaquecidos pelo calor e os postes com transformadores, que abastecem cada região com energia elétrica, queimam.

No alto do morro, a situação não é diferente. Rodrigo Costa, de 29 anos, morador da Dionéia, também sofre desde dezembro com a falta de energia elétrica. Ele já ficou 13 dias seguidos sem luz. O professor conta que a falta de acesso à energia elétrica se tornou uma dor de cabeça. 

“Quem mora na favela já sabe que no verão, em qualquer momento, você fica sem luz. A lixeira do Portão Vermelho ficou lotada de comida estragada. Vi gente fazendo fila pra levar os alimentos estragados para o lixo. Na época que fiquei 13 dias sem luz, eu perdi tudo! Muita comida e ar-condicionado. Espero que a Light consiga vir [aqui] para resolver os problemas e que tenha empatia conosco”, reivindica Rodrigo Costa.

Funcionários da Light e vice-presidente da UPMMR analisam o problema da falta de luz na Travessa Gregório, localidade da parte baixa da Rocinha. Foto: Rodrigo Silva

Quase um milhão de pessoas no Brasil não possuem energia elétrica, segundo dados mostrados em 2022 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na Rocinha, os técnicos da Light, empresa responsável pelo fornecimento de energia elétrica no Rio de Janeiro, trabalham junto com a Associação Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR), para dar suporte aos moradores e dar conta das reclamações abertas devido à falta de luz.  

“Diariamente a Associação está tentando solucionar esses problemas. Acompanhamos as equipes técnicas da Light até eles fecharem a ocorrência por completo”, explica Marcondes Ximenes, vice-presidente da UPMMR. Na Rocinha, de acordo com ele, os reparos técnicos precisam de uma logística operacional específica em cada região. No apagão do dia 17 de janeiro, a Associação de Moradores fez o acompanhamento técnico nos consertos feitos pela Light nas área do Valão, Travessa Gregório e Casa da Paz.

Para Ximenes, os apagões acontecem devido a falta de manutenção da rede: “A maioria dos cabos elétricos, postes e transformadores estão sucateados, danificados ou totalmente quebrados”. Ele ainda revela que o sistema de cadastro da Light com os endereços dos moradores dificulta a resposta das ocorrências abertas. Por isso, a UPMMR defende  que a Light crie um projeto de melhorias técnicas a longo prazo para a Rocinha. 

O plano de melhorias técnicas criado pela UPMMR prevê cinco etapas a ser realizado pela Light: um censo demográfico para identificar a quantidade de residências e um mapeamento da quantidade de transformadores com sobrecargas elétricas; a troca da rede dos cabos de baixa tensão; a instalação e modernização dos relógios de luz instalados pela empresa. E, por fim, a concessão de uma tarifa única de energia para os moradores da Rocinha que esteja incluído um pacote de serviços de logística técnica para atendimento das reclamações e reparos.  

O Fala Roça entrou em contato com a Light perguntando quantos transformadores já foram substituídos na Rocinha entre janeiro de 2023 e janeiro deste ano, mas a concessionária não enviou nenhuma resposta à redação. 

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