Pressionando a Cedae por meses, liderança comunitária garantiu distribuição e acesso à água aos moradores
Cada canto da Rocinha carrega um nome e uma história. A Travessa Aníbal Félix de Souza hoje é reconhecida pelos comércios. E representa a memória e a luta de uma liderança comunitária que batalhou pela distribuição de água na favela. Conhecido pelo seu senso de coletividade, Aníbal bateu na porta da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE) durante meses e circulou um importante abaixo-assinado na favela para garantir o direito constitucional.
Nascido no Ceará, Aníbal veio para o Rio com os 12 filhos fugindo da seca de Ibuaçu. Primeiro, a família se abrigou em Niterói. Logo depois, conheceram a Rocinha e se estabeleceram na travessa que hoje leva o próprio nome. ”Ele andava pela Rocinha toda de bom humor”, diz a filha Luzia.
Na década de 1960, os serviços públicos, como água e luz, não eram oferecidos na Rocinha. Junto de outras lideranças, como José Martins, Aníbal mobilizou a distribuição de água pela Cedae. Antes disso, moradores precisavam buscar água na Bica das Almas, onde hoje é o Largo das Flores, e em outras bicas na Vila Verde e no Laboriaux.
Para se ter água encanada, foram mais de dois anos de insistentes visitas na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), arrecadação de dinheiro para comprar o material, circulação de abaixo-assinado. Aníbal foi o responsável por rodar o documento na favela. Foi a partir daí que se iniciou a jornada pelo abastecimento. Sem essa ação, porém, nada teria acontecido.

Foto: Osvaldo Lopes | Fala Roça
“Ele trabalhou para canalizar. Os moradores compraram sua anilha cada um e a mão de obra foi conseguida pela associação. Essa foi a coisa que ele mais se envolveu para melhorar a Rocinha. Ele não pensava: ‘vou melhorar para minha família’. Não! Ele pensava em todos. Sempre foi assim. Era o jeitão dele. Não desistia”, relembra Luzia.

Foto: Osvaldo Lopes | Fala Roça
Por trabalhar próximo à CEDAE, todos os dias ele batia na porta da empresa para cobrar e saber mais informações.
“Todo mundo diz que foi eu quem botou água, mas foi o Aníbal. Foi ele quem iniciou o abaixo-assinado para dar entrada na Cedae para colocar água. A Cedae falou que aprovava desde que os moradores comprassem o material. Ele ficou com medo e eu assumi a tarefa, que deu certo”, conta José Martins.
Aníbal faleceu em 1992, aos 80 anos. Mas o legado do morador segue vivo nos becos da memória da Rocinha. Sua décima filha, Luzia, hoje com 75 anos, lembra com orgulho da trajetória do pai, que nunca reduziu os próprios afazeres ao ciclo familiar, mas que distribuiu boa vontade e sensibilidade a toda Rocinha.
A luta de Aníbal Félix não terminou com a conquista da água encanada. Muito antes de falecer, o morador já traçava um caminho dedicado ao resgate das memórias locais e ao direito à dignidade, entendendo que preservar a história da favela era também uma forma de garantir sua existência. Esse compromisso em valorizar as raízes e as identidades da Rocinha tornou-se um legado vivo transmitido à sua filha, Luzia, que hoje mantém acesa a chama da preservação histórica do território e do reconhecimento daqueles que construíram a comunidade.
Esse empenho comunitário em preservar as memórias e identidades dialoga diretamente com marcos legislativos como a Lei 10.639/03 e a Lei 11.645/08, que tornaram obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Enquanto a primeira resgatou a contribuição fundamental da população negra na formação do país, a segunda ampliou essa reparação histórica ao incluir a trajetória dos povos originários. Juntas, essas leis garantem que histórias como a de Aníbal — um homem nordestino que migrou para o Rio e ajudou a erguer a Rocinha — sejam reconhecidas não apenas como memórias locais, mas como partes essenciais da identidade e da resistência do povo brasileiro.








