Quadrilhas na quadra da Rua Um marcaram a Rocinha nos anos 80 e 90

Comandado por Dona Mariquinha, grupos de dança popular reuniam jovens e adultos, com participação em festivais e campeonatos

Comandado por Dona Mariquinha, grupos de dança popular reuniam jovens e adultos, com participação em festivais e campeonatos

Quem viveu a Rocinha nos anos 1980 certamente guarda na memória o clima das quadrilhas juninas. Durante o período de São João, elas são as principais manifestações culturais da comunidade. E era na quadra da Rua Um que a juventude do morro entrava em cena. Entre os grupos de dança, quem se destacava era o Renascer da Rocinha, liderado por Dona Mariquinha, que movimentou o espaço durante anos.

Os ensaios e a própria quadrilha ocorriam na quadra da Rua Um, onde crianças e adolescentes se reuniam para aprender coreografias, escolher figurinos e fazer a cultura acontecer. Nana, moradora da Rua Um, é filha de Mariquinha e nasceu nesse universo da dança. Ela conta que o que vem à memória, ao relembrar esse período, são principalmente as brincadeiras e animação nos ônibus da quadrilha rumo aos campeonatos.

“Minha mãe tinha dois grupos, o mirim e o juvenil. Iniciei na dança aos 8 anos na quadrilha mirim, como componente comum. Da adolescência à fase adulta, passei por destaques como noiva, rainha e depois fui efetivada como sinhazinha”, contou Nana.

Inicialmente, havia dois grupos separados por faixa etária, ambos liderados por Mariquinha, que posteriormente foram unificados, ampliando ainda mais a participação da comunidade. A quadrilha se manteve ativa na Rocinha até o seu encerramento em 2005.

Reconhecida como uma das pioneiras em grupos de caipira na Rocinha, Dona Mariquinha foi também a única mulher da favela a presidir um grupo folclórico. Ao lado da família e de outros integrantes que formavam a diretoria da quadrilha, ela coordenava desde a escolha dos destaques até os figurinos, músicas e coreografias que levavam para os festivais.

Mais do que organizar apresentações, Dona Mariquinha enxergava a quadrilha como um espaço de convivência e formação para a juventude. Reunir jovens em torno da cultura popular, incentivando a dedicação, o trabalho coletivo e a alegria dos encontros era o que mais a motivava. Ver o grupo pronto para entrar em cena era, para ela, motivo de emoção e realização.

“Ela amava caipira, cultura, ver o grupo unido. O que mais a motivava era ver os jovens ocupados, fazendo o que gostavam, alegres, brincando. Isso a deixava muito feliz e realizada, ela ficava emocionada ao ver a quadrilha pronta para dançar”, lembrou Nana.

A filha  também destaca que o maior legado deixado pela Renascer vai além da dança. As amizades construídas durante os ensaios, a preparação dos figurinos, a montagem dos enfeites e os meses de dedicação criaram lembranças que permanecem até hoje. Para quem viveu aquela época, as quadrilhas representavam muito mais do que uma apresentação: eram um espaço de pertencimento e celebração da cultura popular dentro da favela.

“Para minha mãe, para mime meu primo, quadrilha era algo que fazíamos com muito amor e prazer. Nos dedicávamos por meses para viver esse momento no arraiá, era uma brincadeira organizada que trazia muita alegria para todos.”.

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