Da sobrancelha ao sonho: cria da Rocinha inaugura loja inédita de beleza

Após anos atendendo em salões e domicílios, Andressa Rodrigues criou a primeira loja de cosméticos voltada para profissionais da beleza dentro da Rocinha.

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Fazer o cabelo, garantir um belo alongamento de unhas e estar com as sobrancelhas alinhadas são elementos importantes para muitas mulheres. Na Rocinha, o que não faltam são inúmeros salões para atender à clientela. Os serviços são os mais diversos possíveis. Em poucas horas, você pode sair transformada da cabeça aos pés. Nos bastidores, mulheres chefes de família estão reconstruindo suas histórias por meio do ramo da beleza.

 Andressa Rodrigues tem 30 anos e é cria da Roupa Suja. O curso de cílios e designer de sobrancelhas veio em um momento decisivo: largar o emprego CLT para ficar mais perto do filho. Na época, ela fazia parte de uma estatística importante: dos 11.053 milhões de famílias de chefia feminina com filhos e sem cônjuge, 62% são chefiadas por mulheres negras. Assim, os próximos passos não eram somente sobre uma trajetória profissional, mas sim sobre garantir o bem-estar do seu filho. 

“O curso de cílios foi de apenas um dia. Eu não aprendi praticamente nada, mas entendi que quem não nasce com o dom, tem que vencer com o talento. Fui colocando Deus na frente, sabe? Buscando cada vez mais conhecimento, buscando sempre conhecer o mercado da beleza, o que as meninas gostavam. Fui aprimorando aquilo que eu não sabia e fui passando a aprender até eu conseguir dominar a técnica dos cílios e da sobrancelha. Tive mais motivos para desistir do que dias de vitórias, mas Deus estava comigo”, afirma Andressa. 

Após anos atendendo em salões e domicílios, Andressa Rodrigues criou a primeira loja de cosméticos voltada para profissionais da beleza dentro da Rocinha. Foto: Nathália Silva

Pedro Lucas, que hoje tem 9 anos, acompanhou a mãe durante muitos atendimentos na Rocinha. Era colocar o menino no ônibus e partir para os domicílios. Foram mais de seis salões até conseguir seu espaço, o Salão Ebenézer, que fica no Valão, localidade da parte baixa da favela. E de lá para cá, a vida mudou bastante. Ela se casou, teve mais uma filha, que inclusive foi gestada nos salões da Rocinha, visto que ela atendeu até o fim da gravidez. 

Além da fé, o segredo do sucesso foi manter uma boa relação com as clientes. Nunca é só um atendimento, é sempre um momento de autoestima e intimidade. Andressa tem suas clientes como amigas e busca se manter consciente e forte para ser inspiração e apoio para outras mulheres. 

“A beleza para mim é um propósito. Meu salão é um espaço para transbordar na vida das pessoas. Tem cliente que não quer cuidar da estética, do que está por fora, mas também quer cuidar de dentro. Às vezes, quer uma palavra amiga, quer conversar. Atendo mulheres que vivem inúmeras situações difíceis, mães, esposas vivendo questões sérias e delicadas. E eu preciso ter sabedoria naquilo que vou dizer. Elas me veem como mulher de Deus, profissional e amiga”, afirma 

Entre os desafios de ser uma profissional do ramo da beleza, está a necessidade de repor o material em meio a rotina do trabalho. Afinal, os cílios precisam dos fios; as unhas carecem de gel; e as sobrancelhas de henna. Como faz? Apesar de ter uma quantidade significativa de salões, a Rocinha não tinha nenhuma loja que vendesse os materiais que essas trabalhadoras precisam. Por isso, Andressa fundou em fevereiro deste ano a Virtuosa Beauty, a primeira loja de cosméticos para salões na Rocinha. Localizada na Rua 1, o espaço é mais um avanço para a comunidade e para todas que atuam no ramo da beleza. 

Andressa sempre buscou se profissonalizar e atualizar sobre tudo de novo no mercado.
Foto: Nathália Silva

Em tempos de fortalecimento da estética clean girl, que exalta paletas de cores neutras e um visual mais natural, se conscientizar da manutenção da estética de mulheres da favela é fundamental. Cílios alongados, unhas decoradas e laces e tranças constroem uma identidade importante para o território e também deve ser considerado belo dentro dessa sociedade preconceituosa. 

“Muita gente tem preconceito com o tufinho. Mas o tufinho é uma ferramenta que leva comida pra dentro da minha casa. Então eu nunca vou criticar um material que pode tirar pessoas da miséria. O tufinho foi meu início e meu carro-forte. Saía daqui e ia lá para o Centro da cidade para comprar esse bendito tufinho. E fazia promoções: tufinho + sobrancelha por R$50. E me ajudou muito, graças a Deus”

Em pouco tempo, a loja já tem clientes fiéis e já alcançou outras comunidades e bairros como Vidigal e São Conrado. Os preços são acessíveis justamente porque Andressa quer facilitar um trabalho que já teve. Agora, mulheres que já vivenciam uma tripla jornada de trabalho, têm mais praticidade para comprar os produtos e garantir um serviço de qualidade para suas clientes.

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