
Rocinha: GDC vira escola de barbeiros, gera empregos e impulsiona empreendedorismo na favela
Como a GDC construiu uma trajetória de empreendedorismo, empregabilidade e impacto social na Rocinha.

A Guerreiros do Corte Academy forma alunos em ciclos de 4 a 6 meses, com foco técnico e também no fortalecimento da autoestima e da confiança.
Nas paredes de uma barbearia na Travessa Aníbal Félix, entre Via Ápia e Boiadeiro, está registrada a trajetória dos “Guerreiros do Corte”. As fotos contam a história de anos de trabalho de Igor Barreto, Rômulo Saad e Roger Borges, que se destacam não apenas por um empreendimento estético, mas por uma iniciativa com diversas ações sociais com arrecadação e distribuição de alimentos na Rocinha, além de encaminhamento para o mercado de trabalho.
As redes sociais são usadas diariamente pelo trio para divulgar o negócio lucrativo, que hoje também funciona como uma academia de barbeiros, a GDC Academy. “Hoje, nossos alunos são adolescentes que, antes, eram crianças que a gente cortava o cabelo”, conta Igor Barreto, 35 anos e morador da Rua 2 .
Ao serem questionados, os barbeiros, se imaginavam dando aula hoje, a resposta é direta: não.

Com duração de 4 a 6 meses, o curso pago oferecido por eles parte de uma dinâmica prática: os alunos vão às ruas em busca de voluntários para cortes de graça. “Você chega e fala: ‘Boa tarde, tá a fim de tomar um café e fazer um corte de cabelo gratuito?’. Vai lá e só volta quando encontrar alguém. E outra, vai orando, pedindo que da certo”, orienta Igor durante as aulas.
Além disso, o trabalho feito pelos os barbeiros no curso vai muito além de ensinar técnicas de corte. “A gente trabalha a autoestima, a confiança, a gente identifica que às vezes eles [os alunos] precisam de uma palavra de incentivo pra tomar coragem”, explica Barreto.
Nas redes sociais, um dos alunos, Ryan Silva, de 21 anos, morador da Dioneia e formado pela barberia agradece com um texto sobre a temporada e os beneficios do curso na vida dele:
“Obrigado pela paciência para ensinar, pela confiança para deixar tentar (e às vezes errar), e pela sabedoria para corrigir com tanto cuidado. Vocês não só me passaram conhecimento técnico, mas mostraram, no dia a dia, o que é ética, resiliência e a verdadeira paixão pelo que se faz. Cada conversa, cada feedback, cada “olha só como faz” foi uma semente que hoje colho com gratidão imensa. São mentores no sentido mais completo da palavra.”.

A experiência na barbearia também é um dos diferenciais. Rômulo Saad, 31 anos e morador da Rua 1 explica que há todo um cuidado no atendimento, que vai muito além do corte de cabelo: “Aqui, o cliente não é tratado de qualquer jeito. Desde a hora que chega, já é recebido com um café, e vai até o final, com o nosso ‘beijo na careca’.” Ele completa: “Esse é o nosso diferencial: o cuidado e o carinho. A gente brinca, conversa, escuta… acaba sendo quase um psicólogo também. Tratamos cada pessoa como se fosse da família, criando um ambiente de respeito, sem preconceito, onde todo mundo se sente bem.”.

As ações sociais da GDC
A função social da barbearia na favela não começa com o curso recente. Ela iniciou ha mais de dez anos, quando o trio ainda atuava no Cesário, na Rua 1 localidade no alto da favela, uma área que tinha muitas crianças de baixa renda e em vulnerabilidade. Segundo eles, tudo começou próximo ao Dia das Crianças, quando Roger Borges disse: “Não consigo mais cobrar das crianças”. A partir daí surgiu a ideia que marcaria a identidade do grupo: “Vamos fazer uma ação social com cortes gratuitos no Dia das Crianças?”.
Na época, havia uma rivalidade saudável entre barbearias de quem tinha mais cliente ou era mais conhecido. Mesmo assim, eles decidiram chamar os barbeiros e trancistas da favela para fortalecer a iniciativa, com arrecadação de alimentos para a produção de cestas básicas. E de acordo com eles, as ações “Bombavam! Até o Tonzão dos Haivannos apareceu.”.
Desde então, as ações sociais se tornaram uma marca da Barbearia GDC. jovens, DJs, barbeiros, trancistas e produtores culturais passaram a somar forças nas atividades, contribuindo para ampliar o impacto na favela todos os anos.
Essa iniciativa dos três barbeiros e amigos resgata a infância que viveram e transforma essas memórias em propósito. Mais do que uma barbearia, eles querem deixar um legado baseado em ações comunitárias e no empreendedorismo conectado à cultura, pilares que precisam ser constantemente fortalecidos para manter vivo o espírito coletivo na favela.
Ao ouvir a trajetória do trio, fica claro que todos chegaram à barbearia por necessidade. Igor era barman acidentado; Rômulo trabalhava como entregador de quentinhas e Roger era carregador de material de construção. Eles contam que, naquele momento, “não tinham grandes expectativas de futuro.”. O cenário começou a mudar com o incentivo de Davi, da Barberia dos Bravos, figura importante nesse processo de aprendizagem dos três.
A barbearia passou por diferentes pontos da Rocinha: da Rua 1, no Cesário, à Via Ápia, na parte baixa, além de uma temporada no 7, região central da favela. Foi no 7 que começaram a registrar, nas paredes do estabelecimento, a história da barbearia e das ações sociais desenvolvidas.
“As mudanças nunca foram por acaso. Saímos da Rua 1 depois que policiais destruíram a barbearia e não queríamos passar por isso de novo”, relata Roger, o local foi destruido durante uma das operações policiais na favela em 2017. Já a ida para a Via Ápia teve outro motivo: a região concentra o principal polo comercial e turistico da favela, ampliando as possibilidades do negócio e visibilidade.

O futuro eles já imaginam. Com o turismo ganhando cada vez mais espaço na Rocinha, alguns clientes da barbearia já são estrangeiros, realidade que despertou nos barbeiros o sonho de viajar para outros países e levar “o corte de favela para fora do Brasil”, como enfatiza Roger. Além disso, o curso está com vagas abertas para inscrição de novos alunos, so entrar em contato pelo telefone: (21) 99531-6049 ou pela redes sociais da barbearia.




