cuidado e luta: a força do Serviço Social nas favelas

Serviço Social nas favelas é cuidado e luta: garantir direitos, enfrentar desigualdades e transformar realidades com escuta, presença e compromisso coletivo.

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O dia 15 de maio marca o Dia do Assistente Social. Antes mesmo de compreender a importância dessa data, havia uma certeza que já me acompanhava: eu queria ser assistente social.

Ainda no pré-vestibular comunitário no Conjunto de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio, sempre que algum professor perguntava o que eu queria ser, minha resposta vinha rápida e convicta: assistente social. Quando insistiam no “por quê?”, eu respondia com simplicidade e firmeza: porque quero mudar a realidade do lugar onde cresci. Eu não sabia exatamente como faria isso — nem onde —, mas esse desejo era o que me movia aos meus vinte e poucos anos.

Cria de favela, fruto de projeto social, eu não tinha dimensão dos caminhos que essa profissão poderia me abrir.

Hoje, com três anos de experiência, atuando na atenção psicossocial no território da Rocinha e também no Fala Roça, consigo enxergar com mais clareza a importância dessa escolha. Em contextos de favela, a atuação do assistente social não é só importante — é essencial.

Mas, antes de continuar, vale explicar de forma simples: a atenção psicossocial é um tipo de cuidado voltado para pessoas que vivem com sofrimento mental grave. Esse cuidado não se resume a remédios. Ele envolve escuta, acolhimento e apoio no dia a dia, ajudando a pessoa a reconstruir vínculos, acessar seus direitos e viver com mais autonomia.

Ainda assim, a profissão carrega muitos estigmas. Muita gente acha que nosso trabalho é só “dar ajuda” ou tutelar a vida. Pouco se fala dos diferentes jeitos de pensar e trabalhar dentro da profissão e das várias áreas onde a gente atua hoje.

Quando trago isso para o meu campo de trabalho — a saúde mental — e para a ligação com a comunicação comunitária, vejo o quanto isso é potente. Estar na Rocinha, a maior favela do Brasil, com tanta gente, significa lidar diariamente com várias dificuldades do dia a dia: acesso à moradia, saúde, cultura, direito à cidade, enfrentamento ao racismo e, algo muito importante, o acesso à informação segura.

No dia a dia, atendo pessoas que muitas vezes nem sabem que têm direitos, que não conhecem os serviços públicos ou não sabem como acessá-los. E aí entra o nosso papel: muitas vezes precisamos estar junto, mediando esse encontro com o sistema público, ajudando a tornar esse caminho menos burocrático.

Pensar no cuidado em saúde mental exige sensibilidade diária. São, em sua maioria, pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, que têm dificuldade de trabalhar, manter vínculos sociais ou contar com uma rede de apoio. Já ouvi diversas vezes que o trabalho na atenção psicossocial é “adiar a morte”. E preciso dizer: a faculdade não nos prepara para isso.

É na prática que a gente aprende. Nem sempre é fácil. Mas é no compromisso ético e político com as pessoas que atendemos que encontramos sentido. É isso que faz a gente tentar caminhos diferentes, inventar soluções e não desistir.

Falando de forma direta: o Serviço Social é a profissão que trabalha garantindo que as pessoas tenham acesso aos seus direitos, como saúde, assistência, educação e moradia. O assistente social atua junto de quem mais precisa, ajudando a enfrentar as desigualdades e buscando melhorar a vida das pessoas, .

Em contraponto a essa realidade, que muitas vezes difíicil, minha atuação no terceiro setor traz outros respiros. No Fala Roça — onde comecei como voluntária ainda na graduação e, desde 2023, faço parte da equipe — tive a oportunidade de atuar em projetos como o Jovens Líderes e a Rede de Comunicação e Cultura das Favelas.

Esses projetos me aproximaram da juventude da Rocinha, uma juventude viva, criativa, que respira cultura e quer fazer a diferença no seu território.

Nesse caminho, conheci outros assistentes sociais — todos de favela, muitos vindos de universidades públicas através do sistema de cotas. Isso mostra uma mudança importante na profissão, que antes era formada, em sua maioria, por mulheres brancas e de classe média alta.

Ser parte dessa mudança é especial. É um afago.

E reforça algo que é essencial no nosso trabalho: ninguém faz nada sozinho. Tudo é construído em rede.

No Fala Roça, encontrei também meu lado mais criativo enquanto profissional. É um espaço onde penso a cultura e a comunicação como ferramentas de transformação. Gosto de dizer que sou uma profissional do cuidado — porque cuidar das pessoas é o que me move. Pensar no bem-estar, na inclusão e na diversidade faz parte do meu trabalho e de quem eu sou.

Eu poderia passar dias falando o quanto sou realizada com a profissão que escolhi. Mas nem todo dia é assim — principalmente quando o assunto é trabalho.

Apesar de ser uma profissão regulamentada desde 1993, ainda não temos um piso salarial definido. Isso enfraquece a categoria e mostra que, como trabalhadores, também estamos na luta por melhores condições.

Uma parte fundamental do nosso trabalho é enfrentar as desigualdades sociais. E isso não é simples. Vivemos em um país que ainda não coloca a população que mais precisa como pioridade, e são esses pessoas que estão em situação de vulnerabilidade.

Acompanhamos diariamente decisões que impactam diretamente a vida de quem atendemos. E, por isso, estamos sempre em disputa quando o assunto são políticas sociais.

Aqui entra um ponto importante: o Código de Ética. Ele é um conjunto de princípios que guia o nosso trabalho. É ele que nos lembra que devemos atuar com respeito, defender os direitos das pessoas e lutar por mais  equidade e justiça social. No fim, é no encontro com o outro que tudo faz sentido. É ali que o nosso trabalho acontece de verdade.

Encerro esse artigo lembrando de Dona Ivone Lara — que também foi assistente social — e que transformou sua prática em arte, deixando um legado de cuidado e resistência.

E talvez seja isso que melhor define o Serviço Social:
“seguir, mesmo quando não é fácil, cuidar, mesmo quando tudo parece não ter jeito, e acreditar” — sempre — que é possível mudar a realidade.

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