De BH à Rocinha: Talita Santos fez do teatro um projeto de vida

Conhecida como “mãe do Semearte”, ela fundou uma ONG para trabalhar com artes cênicas com crianças, adolescentes e jovens da favela

A empresária, pedagoga e atriz Talita Santos nasceu em Minas Gerais, na cidade de Belo Horizonte. Exercia a função de educadora social em uma ONG para crianças e adolescentes em sua terra natal, quando, em 2012, se viu chocada por uma notícia que apresentava a triste realidade de uma operação na comunidade da Rocinha. Pouco tempo depois, mudou-se para o Rio para seguir sua carreira como atriz. 

Talita Santos começou no teatro ainda em Minas, quando tinha apenas 7 anos e fazia parte da igreja evangélica quadrangular. Segundo ela, “uma instituição muito artística”. Nessa época, a diretora era auxiliar da professora com crianças menores do que ela, uma função que despertou seu lado pedagógico desde cedo e impulsionou o artístico também. Dentro da pedagogia, Talita começou a trabalhar com teatros evangélicos, atuando e dançando. A performance de Talita em um grupo gospel ganhou grande notoriedade no meio cristão. Outro ponto importante dessa trajetória foi a criação da ONG Centro de Socialização Caminhar, em BH, focada no reforço escolar, mas que atendia a parte cultural também. Foi na ONG que a mineira passou a trabalhar a arte, efetivamente, com alunos com menos recursos financeiros. 

Talita Santos é diretora e fundadora do Semearte, grupo cultural que é referência na Rocinha.
Foto: Acervo Pessoal

Como uma cena de filme em sua última apresentação com a ONG, Talita viu uma oportunidade única: curso de TV e cinema no Rio de Janeiro. Ela conta que no início queria estudar no Rio e levar todo o conhecimento de volta para Minas, mas no meio do processo isso mudou. 

Durante a estadia, por meio de amigos, conheceu a Rocinha, tendo um primeiro contato com o grupo teatral Bando Cultural Favelados, onde apenas os adultos atuavam. Talita viu a possibilidade de abrir esse caminho da arte para as crianças que também sonhavam em estar no palco e criou a Cia Infantil Favelados. Tempos depois, a companhia virou a ONG Semearte, seu principal projeto que busca mudar a vida de jovens por intermédio da arte. 

Grande parte da equipe é formada por ex-alunos do projeto. O braço direito da diretora, Mari Pace, é uma das exceções. Talita diz que Mari foi um “presente de Deus” e que “ela apareceu em um momento de grande dificuldade”. Mari instaurou no Semearte um projeto sobre saúde e sustentabilidade. “O objetivo é falar sobre esses assuntos através da arte”, conta Mari. Outro projeto criado a partir da parceria das duas é a agência Vitrine. A iniciativa surgiu pela necessidade de lançar os talentos da Semearte para o trabalho profissional, como o ator Pedro Henrique, que atuou na novela “Dona de Mim”, da TV Globo

A “Mãe” da Rocinha

Sandro Pereira, 45, conhecido como Dentão, um dos pais de uma aluna recém chegada ao projeto, conta que quando soube da participação da filha ficou receoso, já que as atividades entrariam em conflito com as aulas de jiu-jitsu que a pequena já fazia. Mas, após ver uma das apresentações da menina, não conseguiu segurar a emoção. “Fiquei todo emocionado vendo-a lá na frente. Pensei que ela não se lembraria da coreografia”, diz ele, ressaltando que a cultura e o esporte salvam a vida de jovens. 

Quando questionados sobre Talita, os alunos não hesitam: “mãe”. O título, embora carregado de afeto, traz o peso da realidade. Talita enfrenta diariamente os desafios de quem empreende arte na periferia, incluindo a ausência de uma sede fixa. O burnout, que espreita quem confunde paixão com exaustão, é contornado pela clareza de seu propósito. “Se eu desistisse, não faria sentido”, confessa. 

Muito além do palco

Mais do que uma escola de artes, o Semearte hoje é um ecossistema de transformação. Com cerca de 180 alunos, na faixa etária de 10 a 22 anos, o projeto oferece uma imersão completa em teatro, dança, expressão corporal, música e audiovisual. A metodologia vai além da técnica; constrói cidadania. 

Esta matéria é fruto da parceria entre a disciplina de Extensão em Jornalismo e Cidadania, do curso de Comunicação da PUC-Rio, ministrada pela professora Lilian Saback, e o jornal Fala Roça. 

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