Eu não lembro a última vez que vi Dom. Mas sempre que a Rocinha aparecia na mídia, ele me procurava para saber como eu estava. Nos conhecemos onde sempre jornalistas estão: nas ruas. Apurando.

Eu lembro da primeira vez que vi Dom. Foi durante as jornadas de protestos de junho de 2013. Centenas de moradores da Rocinha e Vidigal se uniram e foram caminhando até a casa do governador Sérgio Cabral, na esquina da Avenida Delfim Moreira com a Rua Aristides Espínola. Dom classificou esse momento como “tempos interessantes”.

Ele ficou muito contente quando eu passei a escrever uma série de artigos para o The Guardian sobre os legados dos Jogos Olímpicos de 2016 para as favelas do Rio, em especial, a Rocinha. 

Uma vez combinamos de bebermos cerveja em uma birosca no meio da Rocinha. Ali não era mais o Dom jornalista, mas o Dominic Phillips. Com vontade de engajar na parte social, queria ensinar inglês na Rocinha. Anos mais tarde soube que, ao se mudar para Salvador, passou a dar aulas de inglês nas favelas de lá.

Em 2016, a ONG Comunidades Catalisadoras lançou o relatório Favelas na Mídia: Como a Vinda da Imprensa Global na Era dos Megaeventos Transformou a Imagem das Favelas, um estudo sobre a representação das favelas na mídia internacional entre 2008 e 2016.

Eu, Dom, Raull Santiago, Leonardo Custódio e Sandra Maria, da Vila Autódromo, participamos de uma mesa de debate sobre o tema. Na época, o Dom era correspondente do Washington Post e já contribuía para com o The Guardian.

Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante café da manhã com Jornalistas. Entre eles, Dom Phillips, em 2019.
Foto: Marcos Corrêa/PR

Sempre conversamos sobre as diferenças de tratamento de assuntos entre a imprensa brasileira e a estrangeira. Em 2018, o menino Marcus Vinicius foi assassinado durante uma operação policial no conjunto de favelas da Maré. Dom – como sempre – pediu ajuda para entender o contexto. A manchete do The Guardian é memorável. “Brazilian teenager dies after police helicopter strafes favela“.

Nesse mesmo ano, recebi o jornalista na Rocinha para acompanhar a caminhada de Fernando Haddad e sua vice Manuela D’Avila. Ele nunca conseguiu entender como grande parte da favela votou em Bolsonaro. Nem eu.

Eu e Dom tínhamos em comum a ideia de usar o jornalismo como ferramenta de transformação social. Abril de 2021 foi nossa última conversa após ter se mudado para Salvador.

Naquela altura a fome estava levando o Brasil de volta ao mapa da fome. Mesmo viajando pela Amazônia e escrevendo um livro sobre o mesmo tema, combinamos de produzir uma matéria para retratar os impactos da fome nas favelas brasileiras.

Quando soube do seu desaparecimento, veio à mente as despedidas no pé do morro. Vestido com calça militar, blusa, boné, mini mochila e no bolso da calça o bloco de notas com uma caneta. Do lado de cá, eu vestido de short, blusa, havaiana, com uma pequena câmera, mochila e o bloco de notas guardado em um bolso lateral.

A estampa da minha blusa tinha um punho cerrado com uma caneta e a frase em inglês “Freedom of the press”. Uso ela até hoje, desbotada.

E, agora, Dom, eu sempre vou lembrar de você e outros tantos jornalistas mortos ao redor do mundo por fazer jornalismo. 

Por liberdade de expressão.

Por liberdade de imprensa.

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