De 2 anos em 2 anos, na primeira semana de dezembro, é quase impossível encontrar o morador da Rocinha e jornalista Edu Carvalho, de 23 anos. A Bienal do Livro – para ele – é um ritual.

Do alto do Trampolim, localidade onde nasceu e é criado na Rocinha, Edu Carvalho tem uma visão literária da favela. O charme e o tom formal transforma ele em um personagem de livro, literalmente.

A paixão pela literatura surgiu nos corredores e salas de escolas municipais e estadual onde estudou. “Eu fui muito incentivado pelos meus professores de português”, diz em entrevista por videochamada.

Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog de 2019, atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, da TV Globo, e da série Segunda Chamada, do Globoplay. Na adolescência colaborou com o portal FaveladaRocinha.com até chegar na CNN Brasil.

Há poucos meses virou editor adjunto do Maré de Notícias, iniciativa da Redes da Maré. Atualmente é colunista da Revista Época e UOL Ecoa. Crescendo, sempre no gerúndio, podia ser um sobrenome de Edu Carvalho por tanto trabalho que passa por suas mãos.

No fim de 2020, o jornalista lançou o livro ‘Na Curva do S: Histórias da Rocinha‘ no qual mostra moradores’Na curva do S’ mostra moradores tentando driblar o coronavírus, a fome e a violência. Agora ele integra o grupo de curadores coletivos da edição deste ano.

Qual foi o primeiro livro que você leu?

Grande Sertão de Veredas, de Guimarães Rosa. É um livro que começa um personagem que vai passando por diversas histórias sem estar na história e estando na história. Eu linkei por muito tempo com a escolha da minha profissão. A característica do viajante em cima do cavalo anotando no caderno pendurado no pescoço, é a essência daquilo. Você contar e rememorar todas as histórias estando dentro ou não é o nosso trabalho. Guimarães Rosa faz muito isso. Conta estando nas histórias como situação e também como não situação.

Já deu para perceber que você é viciado em leitura. Como você canaliza seu conhecimento literário no jornalismo?

Existem diferentes formas de contar para você cooptar a pessoa que você quer que a mensagem chegue. Cunhou-se uma nomenclatura nos EUA, mas aqui traduzimos para jornalismo literário. Você insere no fato jornalístico diversas percepções que pra muita gente é encher linguiça no texto. Mas não. São coisas que enriquecem cada vez mais. Eu começo o texto escrevendo que você está me entrevistando e estou vendo sua imagem turva porque você está em um escritório e estou vendo tudo embaraçado, cria-se uma dinâmica ao invés de dizer que você está me entrevistando remotamente por uma tela. Descrever foi uma coisa que aprendi lendo muito. Eu não vou dizer que consigo com facilidade. A literatura me deu essa bagagem na hora de contar um fato simples de forma rica.

O seu livro ‘Na Curva do S’ tem muito disso, né? Você trabalha muito o jornalismo literário nele.

Tem muito disso. Ele pega alguns fatos que aconteceram, na verdade é o que eu sempre digo, não são fatos que aconteceram, quem vai me dizer ou não se a história é real é o leitor. A forma com que o leitor se identifica com aquilo é que vai dizer se é real ou não. Não sou eu na pretensão de autor que vou dizer que é mentira ou verdade. Se para ele foi verdade, tá tudo certo. Não vou determinar qual foi a história. Alguns fatos são verdadeiros e jornalísticos, como é o caso da chegada do tomógrafo na [igreja] Universal, aquilo ali é um fato jornalístico. Todo mundo já falou, todo mundo já sabe que o prefeito da cidade colocou um tomógrafo na igreja e vai abrir uma bifurcação para as pessoas entrarem diretamente no estacionamento. Isso é um fato jornalístico que está dado. Agora, que história poderia acontecer nesse contexto? Eu descrevo e crio outras possibilidades e foi o que aconteceu. O ‘Na Curva’ é recheado dessas nuances que só existem por conta do jornalismo literário.

Você era estudante, virou mediador e agora é um dos curadores da Bienal do Livro. 

Eu falei disso com uma conversa que tive com a coordenadora da Bienal, Rosane Svartman, com quem trabalhei em três momentos do evento. Ela disse que a minha trajetória é linda porque eu era um menino que ia, depois trabalhei na bienal despretensiosamente. Estava indo acompanhar uma madrinha e estava começando a graduação de jornalismo na PUC-Rio. Fui apresentado a Rosane e ela disse: ‘Olha, se você tiver qualquer trabalho para ele de mídias sociais, um freela, ele topa. Ela falou: ‘Então começa hoje comigo por 13 dias’. Mais de 500 pessoas diariamente, mais de 20 mesas durante 10 dias. Uma loucura. 2 anos depois, fui mediador na edição que o prefeito acionou a Guarda Municipal para retirar os livros porque via neles um teor de doutrinação sexual. Foram momentos muito loucos de envolvimento com a Bienal. Eu chego neste lugar do curador com uma bagagem de muitas experiências, afetuoso porque cresci indo nesse lugar. Me honra muito ser um jovem na organização. Tantas pessoas incríveis que me ajudaram a me moldar.

A Bienal do Livro ainda é um espaço elitizado. Como você enxerga isso?

Nas últimas duas edições já tinha uma parceria com a Festa Literária das Periferias (FLUPP). Nessa edição da Bienal do Livro, o Julio Ludemir é curador e a Daniele Salles é mediadora. Desde 2017, vem tentando criar laços com as favelas. É interessante o processo que a bienal faz. Diferente da FLIP e FLUPP, a bienal é de 2 em 2 anos. Uma mudança que começa a ser pensada esse ano é para daqui a 2 anos. Tem um certo tipo de barriga para colocar isso em prática. Tem melhorado. Estamos melhorando. É claro que precisamos caminhar ainda mais. 2017 foi o início do namoro com a FLUP. Em 2019, estreitamos esse laço. Esse ano tem um número de mesas voltadas à organização da FLUPP na Bienal do Livro. Pode não parecer, mas tem uma continuidade. A FLUPP é um dos maiores festivais literários do país que fala da favela e periferia dentro de um dos maiores festivais do país.

Cite 3 escritores de favelas que as pessoas precisam pesquisar e conhecer.

Jessé Andarilho. Ele é um estouro pra mim na literatura. Não só na literatura marginal, é algo surpreendente. Não tenho como não falar do Geovani Martins. Outro grande estrondo. Para fugir do eixo Rio, tem agora despontando em São Paulo, o José Faleiro. Homens. Também tem mulheres. Tem uma força de minas no slam publicando seus escritos, seus vídeos que me orgulham muito.

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