O Favela Compassiva é atualmente o único projeto que oferece Cuidados Paliativos aos moradores da Rocinha e do Vidigal. Fundado em 2022 pelo enfermeiro e professor Alexandre Silva, a Associação Favela Compassiva funciona hoje sob a liderança de Alexandre, das enfermeiras e professoras Liana Trotte e Maria Gefé e da médica Lívia Coelho. 

Com uma rede de apoio complementar e não substitutiva, o projeto busca minimizar a dor de pacientes com doenças e é considerado pioneiro no desenvolvimento do conceito de comunidades compassivas no Brasil. Desde o início, a ação já ofereceu acompanhamento até o final da vida para mais de 100 pessoas. 

Em 2023, a iniciativa foi finalista do Prêmio Humanizar a Saúde, que reconhece e apoia projetos inovadores e inspiradores de organizações sem fins lucrativos que humanizem o cuidado, melhorando a vida de pacientes e de seus familiares.

Estabelecido em 2018 como um projeto de extensão universitária da Universidade Federal de São João (UFSJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e  Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) – responsável por realizar o apadrinhamento de pessoas com doenças como câncer, Parkinson e Alzheimer – a associação sem fins lucrativos Favela Compassiva oferece tratamento paliativo por meio de uma equipe multidisciplinar que encaminha futuros pacientes para profissionais de saúde habilitados. Assim, são realizados mutirões, uma vez ao mês, aonde especialistas vão à casa de potenciais pacientes e posteriormente se reúnem com a gestão do projeto para definir se eles são elegíveis ou não para a participação na iniciativa.

Todo o trabalho realizado parte da parceria entre profissionais que compõem a equipe de saúde, agentes compassivos – moradores locais que já cuidavam de vizinhos e, assim, passam a receber capacitação e recursos para o melhor desempenho do papel que lhes foi concedido – e apoiadores que doam recursos financeiros, materiais e medicamentosos para o sustento do projeto. Além disso, ele também oferece a Extensão Universitária, uma forma de articulação com as universidades que permite a professores e estudantes o desenvolvimento de pesquisas científicas e atividades de educação para a saúde com os pacientes.

Atualmente, o Favela Compassiva possui sedes físicas na Rocinha e no Vidigal e voluntários de diversas áreas que contribuem para o encaminhamento do projeto. Porém, a associação luta, até hoje, contra a ideia de que o acesso ao Cuidado Paliativo é um luxo e não um direito. Para a médica especialista em Cuidados Paliativos Dra. Cristhiane Pinto, parte da dificuldade de acesso a esse tipo de tratamento vem de concepções sociais erradas sobre como esse cuidado funciona.

“As pessoas desconhecem o que é Cuidado Paliativo e ainda existem mitos muito complicados da gente desfazer. Questões relacionadas a isso é só para quem tá morrendo, é para quem não tem mais jeito. A gente sabe que isso não é mais uma realidade – já foi – mas agora as coisas são diferentes. Nós viemos melhorando a nossa especialidade, entendendo melhor o nosso papel no cuidado e no controle de sintomas dos pacientes com doenças ameaçadoras da vida cada vez mais. O paciente tem que entender que chamar o Cuidado Paliativo é agregar valor ao seu cuidado, é chamar pessoas especialistas em controle de sintomas e enfoque da qualidade de vida e da manutenção da funcionalidade”, afirma.

Mesmo assim, a inserção dos Cuidados Paliativos nas favelas do Rio de Janeiro ainda é considerada uma ação bem-sucedida e fonte de inspiração para o surgimento de outras comunidades compassivas por todo o país. Com um pouco mais de um ano de fundação, o projeto ainda não recebe apoio fixo de nenhum órgão ou empresa do Estado, mas já acumula diversas doações espontâneas e parcerias, como a do projeto Saúde Contato e do Movimento Maetricia, que faz doações anuais através da renda arrecadada durante o festival de música Patfest – realizado em setembro de 2022 e outubro de 2023, em São Paulo.

Para a enfermeira, professora da UFRJ e membro da equipe de gestão da Associação Favela Compassiva, Maria Gefé, uma das metas mais importantes do projeto é consolidar parcerias que unam tanto a linha educativa quanto a de cuidados, o que torna a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) uma das instituições mais promissoras para isso.

“Eu cheguei a ter uma reunião com a PUC-Rio para ver se conseguimos nos aproximar, já que está bem próximo ao território. Acho que poderíamos traçar uma parceria com a extensão da universidade. Essa é uma ideia que vou pleitear para o próximo ano, provavelmente algum encontro, ou troca. Hoje temos uma parceria grande com as clínicas da família dentro do território, então eu acho que o desafio maior é levar esse entendimento também para a rede terciária. Por isso, temos que investir e trabalhar um pouco mais nesse conceito. Acredito que esses sejam alguns dos desafios e dos planos para o próximo ano”, destaca.

Para participar do projeto, a Associação Favela Compassiva disponibiliza em seu site um QR Code para acesso ao grupo de Apoiadores do WhatsApp. Nele, os interessados podem apadrinhar um paciente ou colaborar com a compra de alimentos, medicamentos, fraldas e necessidades pontuais como cadeiras de rodas e colchões pneumáticos para todos os pacientes. Em relação ao voluntariado, a gestão da iniciativa solicita que o contato seja feito pelo direct no Instagram (@favela_compassiva), onde eles oferecem as orientações necessárias para a formação de novos agentes compassivos.

*Reportagem produzida através da disciplina Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback por meio de extensão universitária do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

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