O estudante de graduação e morador da Rocinha tem uma vivência bem parecida com outros moradores universitários da cidade do Rio de Janeiro. Porém, as desigualdades socioeconômicas entre estudantes que vivem na favela produzem experiências diferentes na jornada universitária. Uma vez que a estrutura familiar, a busca constante por emprego e renda, além das condições de estudos nos lares afetam a rotina de acesso e permanência dentro das universidades. 

Esse é o caso do Miguel Vital, de 21 anos, estudante de Ciências Atuariais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Morador da Cachopa, ele conta como a falta de um espaço adequado para estudar interferiu diretamente na qualidade do tempo de estudo. “Eu estudei errado por uns três, quatro meses… Eu acho que estudei errado o ano todo, pois tive dificuldade para estudar aqui em casa, mas meu objetivo era muito forte. Eu morava com a minha mãe, meu padrasto e minha irmã”.

A falta de um espaço adequado para os estudos também afetou a saúde mental do universitário. “Estudava na sala e tinha dias que eu chorava com medo, sabe? Eu estava dando tudo de mim ali. Não conseguia me concentrar por conta de uma TV alta, por conta disso e daquilo… e ficava pensando caraca: ‘não vou conseguir!”’ Dava medo”, confessa Miguel.

Levantamento de dados feito pelo Fala Roça através da Lei de Acesso à Informação, com quatro universidades públicas no Rio de Janeiro, contabilizou 38 estudantes oriundos da Rocinha, matriculados em 2022. Exceto UNIRIO, todas as instituições possuem um campo específico sobre bairro em seus registros oficiais. 

A reportagem localizou 22 estudantes da Rocinha em universidades públicas no estado do Rio e traçou um perfil desses universitários. A faixa etária dos estudantes, em média, é de 20 a 24 anos, com ensino médio concluído na rede pública, o que garantiu a possibilidade dos moradores acessarem universidades públicas ou privadas como cotista ou bolsista. Esses universitários estão matriculados nos cursos de Direito, Pedagogia, Administração e Geografia.

Parte dos estudantes universitários da Rocinha, após a conclusão do ensino médio, estudaram sozinhos em casa através de plataformas de estudos online. Com um custo mais acessível, esses portais de educação permitem que o estudante faça o seu próprio planejamento de estudo.

Já outros universitários da Rocinha, participaram de pré-vestibulares comunitários, onde tiveram aulas com professores voluntários durante todo ano. Nestes cursos, os estudantes tiveram acesso e conheceram um pouco do dia a dia das universidades, a partir de relatos dos professores. Inclusive, alguns educadores dos cursos pré-vestibulares também são moradores da Rocinha. 

“Quando estava terminando o ensino médio em 2019, fiquei em dúvida sobre [qual] faculdade ou curso técnico [fazer] e acabei deixando passar o ENEM. Sempre tive aptidão em matemática desde pequeno. Eu não sabia o que eu ia fazer, mas sabia que esse era meu segmento”, explica Miguel Vital.

Realidade alternativa e necessária

Acessar a universidade após concluir o ensino médio não é uma regra na favela. Mãe de dois filhos, Raphaela Bomfim, de 29 anos, entrou na faculdade após concluir o ensino médio no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA). “Acredito que como mulher, preta, favelada, eu deveria ocupar um local público e nosso por direito”, destaca  Raphaela Bomfim, moradora do Valão e graduanda em Pedagogia, na UFRJ.

Com realidades diferentes, mas com metas semelhantes, os dois moradores desejam alcançar uma vida mais confortável para seus familiares e expandir os seus objetivos. Quando comecei na faculdade, eu trabalhava em um emprego que eu recebia abaixo do mínimo. Antes, eu visava uma melhora [para mim] no mercado de trabalho, mas hoje viso além disso: quero defender o ensino público de qualidade!”, afirma Raphaela Bomfim.

Raphaela Bomfim leva uma vida intensa entre trabalho e estudo. Foto: Karen Fontoura

Heloísa Barros, trabalha como professora há 10 anos no morro em duas instituições de ensino privado. Ela acredita que influenciar os alunos a procurar formação é essencial para o progresso deles no mercado de trabalho. “A pessoa chega para ter aula de idiomas e, com o tempo, eu vou falando sobre faculdade para inspirá-los. A maioria quer empregos melhores, com mais qualidade de vida e um salário mais alto. Então, eu busco mostrar formas deles alcançarem esses objetivos através da educação”, ressalta.

Jornada dura

Estar dentro da universidade cursando uma graduação vai além de só estudar, lembram os estudantes. Eles ressaltam ser indispensável ter segurança financeira para poder se alimentar, se deslocar e ter possibilidades de aproveitar os conhecimentos que estão sendo adquiridos. 

“Eu me sinto sobrecarregada em alguns momentos, principalmente pela faculdade não ter um amparo para as mães universitárias. Minha rede de apoio, pai dos meus filhos, facilita bastante em relação a eles. Mas, me sinto às vezes ausente como mãe, pois fico bastante tempo fora de casa”, comenta Raphaela Bomfim. 

Na UFRJ  as  mães com filhos menores de 6 anos têm direito ao auxílio educação infantil no valor de R$321.  Já para as mães universitárias com crianças a partir de 7 anos, não existe possibilidade de nenhuma política pública pensada para elas. A falta de creches nas universidades prejudica a permanência das estudantes que necessitam de apoio parental para conseguir acompanhar as aulas. Principalmente, porque muitos cursos têm disciplinas o dia inteiro, de manhã até o início da noite. 

O ingresso contínuo e a permanência de moradores da Rocinha como Rafaela Bomfim e Miguel Vital se tornou possível devido a existência de políticas públicas como cotas e auxílios estudantis. No entanto, o acesso à informação sobre auxílio e adaptação dos recursos oferecidos pelas universidades, ainda é um obstáculo constante para universitários moradores de favelas. 

Miguel Vital, por exemplo, consegue se manter na universidade com a ajuda financeira da mãe. As aulas no curso de Ciências Atuariais, na UFRJ, duram o dia inteiro, impossibilitando o jovem de arrumar um trabalho. Ele explica que não teve orientação sobre os auxílios estudantis quando entrou na universidade. 

“Estava meio perdido com esses auxílios. Vou tentar de novo este ano [2023] e já avisei para os calouros [novatos] prestarem atenção nas palestras,que falam sobre isso”, destaca.

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