Quem nunca precisou comprar algum item, mesmo sem dinheiro, e conversou para que o pagamento fosse feito depois? O chamado “fiado” é o que salva diversas famílias na hora do aperto. Sobretudo, em locais onde a vizinhança é conhecida e o comércio é bem avaliado pelos clientes. 

Porém, para driblar o “fiado”? Só amanhã!”, é preciso uma relação de confiança e lealdade, tanto para quem compra, que precisa pagar depois, quanto para quem vende, que precisa receber. Na Rocinha, essa cultura permaneceu por muitos anos e cada comerciante tinha sua forma de organização. 

“A caderneta de fiados foi aberta com a loja”, afirma Marcos Souza, 60 anos, que tem um estabelecimento familiar, que funciona como bar, lanchonete e mercearia, perto da Dionéia, há um pouco mais de 50 anos.

“Existia uma caderneta para cada cliente, em que a gente anotava o dia e os valores das compras. Existia uma relação comercial, mas também tinha uma amizade com o cliente. Então, meu critério para essa prática era de proximidade ou indicação: pessoa batalhadora, respeitosa, com residência fixa há muitos anos ou informações de terceiros. Em alguns casos, eu sabia quem tinha uma situação financeira complicada, e o fiado ajudava naquele momento”, explica o comerciante.

As formas de organização das finanças são variadas. Enquanto uns preferem o velho e bom caderninho, outros se entendem melhor com as planilhas. É o caso de Antônio Rodrigues, conhecido como Toni, que há 26 anos tem uma loja de tortas, na Via Ápia. O comerciante, de 48 anos, detalha como mantinha a prática sem perder o controle financeiro.

“Minha tática era não deixar muita gente comprar fiado, só aquelas pessoas que eu conhecia, confiava e comprava com frequência. E como sou formado em técnico de administração, colocava tudo em uma planilha no Excel para não me perder, por ser mais fácil”, conta Toni.  

Sandra Quintela, economista, educadora popular e presidenta do Instituto Pacs e da Rede Jubileu Sul, faz um paralelo entre as grandes ações comerciais e o fiado. 

“Os comerciantes precisavam confiar naqueles que compravam de outro estado, por exemplo, em casos de compra de grande escala. Então, toda essa relação de confiança faz parte até da própria história, da construção das relações sociais nesse campo da troca. É a confiança como base, como matéria-prima principal dessas relações de troca que depois virou comércio”, explica a economista.

O fim do fiado, mas não do consumo 

Com o passar dos anos, as formas de compra e venda mudaram. No Brasil, já existem mais cartões de crédito do que trabalhadores em idade ativa. São 190,8 milhões e 107,4 milhões, respectivamente, segundo o Relatório de Economia Bancária do Banco Central. Ou seja, mesmo sem dinheiro na hora, o consumidor consegue comprar, o que fez a prática do fiado diminuir ou até mesmo acabar, como aconteceu em diversos comércios na Rocinha. No entanto, fatores como a grande circulação de pessoas, o medo do calote, contribuíram. 

“No comércio sempre existe a possibilidade do calote. Mesmo com a porcentagem baixa, se não houver um controle, é possível até a falência. Na Rocinha, por exemplo, muitos moradores antigos já não estão mais lá, existe uma alta rotatividade de pessoas e isso dificulta a confiança em vender fiado. Por isso, acabei com essa prática. Hoje, aceito cartão de crédito, débito e pagamento via Pix, o que já ajuda bastante”, reflete Marcos, que tem um contraponto levantado por Toni.

“O bom do fiado é que ele também fideliza os clientes. Apesar de hoje trabalhar com várias formas de pagamento, acredito que o fiado tem esse diferencial de fidelizar, porque pelo menos na favela, até onde vejo, o consumidor é apegado, então ele volta”, conclui.

Em um determinado momento de aperto, a corretora de imóveis Jessica Ferreira foi uma dessas clientes que recorreu ao fiado e conseguiu comprar alguns itens para fazer as refeições. “Eu estava desempregada, fazia bicos e nem sempre tinha dinheiro para coisinhas do dia a dia. Principalmente para acrescentar nas refeições, como um tomate, um açúcar, um ovo e me salvou naquela época. Mas mesmo assim, não recomendo [risos]’, brinca. 

A corretora está entre os 152 milhões de brasileiros que utilizam o PIX (dados da Web Automação). Lançado em 2020, a modalidade permite transferências instantâneas e sem taxas e, por isso, virou moda no comércio. Jessica defende a nova forma de pagamento e aponta os benefícios. 

“O fato de grande parte do comércio na favela utilizar diferentes formas de pagamento ajuda muito porque, primeiro, se você tem dinheiro, às vezes não dá para fazer um saque, porque nem sempre os caixas 24h estão funcionando, além de alguns não terem todos os bancos. E, claro, o cartão de crédito, que mesmo sem saber como vamos pagar, por alguns momentos, conseguimos ter acesso às coisas do dia a dia, assim como o fiado fazia”.  

Para Sandra Quintela, essas novas formas de consumo são importantes, porque fazem a economia girar na favela, mas é preciso ter atenção às finanças para não se endividar, já que o crédito, no caso, é um dinheiro que não se tem naquele momento. 

“O PIX substitui o dinheiro em espécie, o intuito dele é este. Mas, é preciso ficar atento, porque nesses momentos ele pode acabar mais rápido, ele não ganha essa materialidade que deveria ganhar. E o cartão de crédito é o dinheiro que não se tem naquela hora e que, por conta disso, traz um endividamento”, alerta Quintela.

Para ela, é preciso ter atenção, mesmo parecendo semelhante ao endividamento do fiado. Cartão de crédito e fiado não são iguais. “O fiado traz a proximidade e mantém a relação e essas novas modalidades de pagamento trazem uma individualidade maior. Têm os dois lados e é preciso se organizar”, conclui. 

Mas, será mesmo que as novas tecnologias deram fim ao fiado?

Segundo a Web Automação, empresa de soluções de vendas e tecnologia para negócios, a cultura pode não ter resistido na Rocinha, mas no Brasil está longe de ser aposentada. 

É o que garante o levantamento realizado pela instituição, que identificou mais de 400 locais ainda aceitando o fiado como forma de pagamento no ano de 2023. Especialmente, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e em Minas Gerais, movimentando R$4,3 milhões. 

A explicação para a manutenção da cultura, é que a venda no fiado pode ser vantajosa para ambos os lados no negócio: para o cliente, que poderá pagar no mês subsequente, e para a loja, que vai fidelizar o cliente. Inclusive, algumas empresas de tecnologia de pagamento digital, por meio das famosas “maquininhas”, já tem até uma ferramenta exclusiva para controle de vendas fiadas. A promessa é dar adeus ao papel e caneta para controle do caixa. 

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