As residências terapêuticas são um serviço oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) cujos locais de moradia são destinados a pessoas com transtornos mentais. Inclusive, para pacientes que tiveram alta de internações psiquiátricas, porém, não têm suporte financeiro, social ou laços familiares que permitam a reinserção na comunidade.

As casas terapêuticas são uma alternativa que humaniza os residentes que ficaram anos, até décadas, nos hospitais psiquiátricos, sem contato com a sociedade e o mundo exterior. 

“Estar em uma residência terapêutica é ele [morador] está na vida. Ele está no lar dele, no território dele, com os vizinhos dele e também na comunidade. Ele pode ir e volta. Ele não está preso [e sim], incluído nessa cidade”, destaca Vanessa da Silva, de 36 anos, coordenadora das residências terapêuticas da Rocinha e do Vidigal. 

De quatro casas existentes na Zona Sul do Rio de Janeiro, duas estão em favelas, sendo uma localizada na Rocinha e outra na favela do Vidigal. “O nosso objetivo é o cuidado em liberdade, e a casa terapêutica faz parte desse cuidado em liberdade, por não estar dentro de um hospital. Temos moradores que entraram nos manicômios em 1959”, exemplifica a coordenadora Vanessa da Silva. 

A residência terapêutica da Rocinha tem cinco moradores e existe há 8 anos. Já a casa do Vidigal foi inaugurada no ano passado e conta com seis moradores. Ambas as residências terapêuticas são vinculadas ao CAPS III – Maria do Socorro, da Rocinha, e o centro de atendimento é responsável pelo tratamento das pessoas que moram nas casas.

O trabalho conjunto da residência terapêutica e o centro de atenção psicossocial (CAPS), possibilita o cuidado integral de cada morador, priorizando tanto a saúde física, quanto a mental, com o acompanhamento contínuo. O objetivo é desenvolver o residente tanto socialmente quanto psicologicamente para viver nas casas. 

Alessandra Carvalho, de 48 anos, assessora técnica de serviços de residência terapêutica da zona Sul, centro e norte, explica que a proposta é dar independência às pessoas para que elas possam “cada vez mais fazer as coisas sozinhas”. “O CAPS está junto nesse trabalho de reinserção, de promover autonomia [ao residente]”, ressalta. 

Pacientes das residências são acompanhados 24h por dia. Foto: Karen Fontoura

Com a Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Antimanicomial, aprovada em 2001, ocorreu o fechamento gradual dos manicômios e dos hospícios, para tratar todas as pessoas com transtorno mental livremente. Por isso, a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do SUS, criou diferentes serviços gratuitos e integrais para o atendimento dos pacientes, sendo a residência terapêutica e o CAPS uma dessas ações de política pública de saúde mental.

Nesta proposta, os cuidadores têm um papel fundamental na convivência e funcionamento da casa. São eles que orientam os moradores nas práticas diárias, mostrando que eles têm a livre escolha de fazer o que querem. Ainda, os cuidadores auxiliam aqueles que não conseguem desenvolver algum tipo de atividade, tornando o dia a dia e a autonomia dos residentes possível.

As equipes, que atuam diariamente nas casas, são compostas por uma técnica de enfermagem, diarista, o acompanhante terapêutico e a coordenação. “A RT [residência terapêutica] é um trabalho de delicadeza. É você ouvir aquilo que o morador quer. A gente tá sempre incluindo os funcionários em cursos, para [eles] estarem cada vez mais aperfeiçoando no trabalho”, afirma Vanessa da Silva, 36 anos, coordenadora das residências terapêuticas. 

Convivência entre os moradores e com os vizinhos

Os vínculos dentro das residências também são desenvolvidos através do interesse dos próprios moradores. Os cuidadores identificam a afinidade das pessoas com uma tarefa e os funcionários trabalham o desenvolvimento dos residentes a partir das preferências de atividades deles.   

“Quando chega um profissional novo, o outro responde: ‘olha fulano não gosta disso.. fulano não come isso’. Às vezes, a pessoa nem fala, mas o outro sabe que ele não gosta”, exemplifica Vanessa. Apesar deste trabalho delicado, os profissionais que trabalham nas residências enfrentam dificuldades. Especialmente, relacionado ao preconceito social das pessoas com os residentes. 

Profissionais da saúde mental reunidos em uma residência terapêutica no Vidigal. Foto: Karen Fontoura

“A sociedade é excludente com os usuários de saúde mental, para [as pessoas] do território suportar essa volta e acolher o usuário nesse retorno para cidade é difícil”, explica Thiago Ferreira, de 35 anos, diretor técnico do CAPS Maria do Socorro. 

E completa: “Não é um trabalho só com eles. É um trabalho [de conscientização] também com a sociedade”. 

O preconceito social com os residentes de casas terapêuticas, faz com que os profissionais, antes de definir uma casa para se tornar uma residência terapêutica, conversem com os vizinhos. A ideia é tirar as dúvidas, explicando todo trabalho que será desenvolvido no território.

“Quando a RT fez um ano [no Vidigal], a gente fez uma festa e convidamos os vizinhos. A gente deu doces e bolos. E quando tem churrasco, eles também participam. [Isso] foi uma construção que não aconteceu de um dia para o outro não”, completa Vanessa da Silva.

E o financiamento das casas e dos moradores?

Todos os moradores das residências terapêuticas são custeados pelo SUS através de um benefício que possibilita os residentes realizarem compras de mercados, farmácias, roupas, além de acessarem ambientes de lazer. 

“Eu gosto de dormir, ir ao restaurante e ver tv”, conta Marcus Vinicius Viana, de 54 anos, morador da residência do Vidigal. 

Já as residências são casas alugadas e custeadas pela Secretaria de Saúde Municipal de cada região. Todas as casas são montadas para receber os moradores com utensílios, eletrodomésticos e móveis  para o conforto deles e para trabalhar a reinserção social.

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