Sorriso que virou poesia: Rocinha se despede da escritora Lindacy Menezes

Morte ocorreu em decorrência de complicações de um câncer, diagnosticado recentemente 

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Escritora, poetisa e liderança comunitária. Essa foi a trajetória construída por Lindacy Menezes, moradora da Cachopa na Rocinha, que morreu na última sexta-feira (23/01), ao longo de 68 anos de vida. Com sorriso largo que cativava a todos, Lindacy deixará saudades na comunidade. “Que falta vai fazer. Sempre empolgada, transmitia uma alegria boa”, lamentou Monique Sidarta, morada da Rocinha, no grupo de WhatsApp, sobre o falecimento.  

Diagnosticada com quatro tumores malignos, ela estava muito debilitada, mas enfrentava o tratamento de câncer cercada pelo carinho de amigos, familiares e moradores da comunidade, que acompanhavam seu estado de saúde nas últimas semanas. 

Lindacy Menezes será sepultada neste sábado (24), às 15h, no cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio. O velório será realizado na capela 03, a partir das 12h. 

História

Nascida em Pernambuco, Lindacy era filha biológica de pais desconhecidos. Foi criada pela mãe adotiva Severina Fidelis. Ainda jovem, aos 18 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de trabalho. Na época, já era mãe de três filhos e carregava o sonho de construir a própria casa.

Lindacy, declamando poesia no Viradão Cultural 2024. Foto: Igor Siqueira
Lindacy, declamando poesia no Viradão Cultural 2024. Foto: Igor Siqueira

Na Rocinha, ela viveu na localidade da Cachopa e construiu uma trajetória marcada pelo afeto e pela participação comunitária. Atuou em diferentes iniciativas da favela, como o Grupo de Mulheres da Rocinha e nos encontros do APER (Amigos do Parque Ecológico da Rocinha).

Reconhecida pela delicadeza no trato e pela força de mulher nordestina, Lindacy também era lembrada pelo sorriso marcante, pela fala acolhedora e pela presença constante em atividades culturais. Entre os moradores, ficou conhecida também pelo bolo de rolo que costumava levar para encontros e eventos locais. 

“Ela sempre levava bolo de rolo pro jornal quando fazia”, comenta Michel Silva, fundador do Fala Roça. 

Poetisa e escritora, Lindacy Menezes participou ativamente de saraus na comunidade, integrando o Sarau Ciranda, espaço onde pôde expressar sua escrita e vivência por meio da poesia, sempre com um jeito simples e sensível que conquistava todos os públicos.

“Conceição Evaristo traz a sua sobrevivência em forma de escrevivência. Para mim, Lindacy é isso! Ela é a escrevivência da sua sobrevivência. Com as suas dores, os seus medos e suas lutas, ela se transformou em arte. Para mim, ela sempre será a mulher nordestina guerreira,  a poetisa escrevivência que transformou em arte sua vivência. Ela também era pra mim a Conceição Evaristo da Rocinha!”, opina Marly de Souza, conselheira tutelar e assistente social. 

Legado

Lindacy Menezes publicou dois livros: “Destino Desviado” e “Encontro Poético das Sarauzeiras Oníricas”. As obras refletem sua trajetória de vida, identidade e resistência. Sua história também foi registrada no documentário “Uma História de Lindacy”, produzido por estudantes do CIEP Ayrton Senna da Silva — como parte do projeto Jovens Repórteres de Bairro da Rocinha. O filme, inspirado em seu livro, foi exibido no Festival do Rio em 2024.

Semianalfabeta, a moradora Lindacy Menezes, de 64 anos, mostrou as várias anotações guardadas em casa, quando teve sua história contada no Fala Roça. Foto: Michel Silva

“Era a nossa poetisa aqui no território da Rocinha! Uma mulher guerreira e valente que transbordava muita alegria. Eu lembro do nosso último encontro em setembro… Ela dançando carimbó, representando as origens do carimbó e ensinando a dança com uma graça que só ela tinha. Lindacy exalava graça e o sorriso dela era o cartão de visita”, afirma Mauro da Silva, 54 anos, Agente Comunitário de Saúde e Articulador Social. 

E completa: “Para nós no território, ela é uma poetisa que deixou sua marca no áudio, no vídeo, nos livros e, quem teve a oportunidade de conhecê-la, sabe o quanto ela era vibrante, virtuosa e deixou um legado. Ela sempre transmitiu alegria e amor. É isso que a gente sente agora… esse amor que ela deixou relatado em livros, em vídeos, em áudio. A lembrança é de uma mulher  feliz”.

Lindacy Menezes na sala de casa, aos 64 anos, com um dos cadernos que usava para escrever poesias e livros . Foto: Michel Silva

“Infelizmente, nossa Linda foi morar com os anjos agora, foi levar bolo de rolo lá pra cima”, lamenta Aloisio de Jesus, 54 anos, Gestor da C4 Biblioteca Parque da Rocinha. Para ele, o legado da poetisa é eterno. 

“Ela foi descansar, mas a obra dela continua! Ela está aqui eternizada na Biblioteca Parque da Rocinha, está aqui no cantinho dela. Quem quiser conhecer mais da história, vai ouvir as pessoas falarem dela. Foi uma honra ter conhecido Dona Lindacy”.

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