Autoestima, vivência e rap: Gorilinha prepara novo álbum com faixas autorais

Com lançamento previsto para março, o artista mistura sobrevivência, personalidade e referências a animes em novo trabalho

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No quarto de casa, com a luz baixa, óculos escuros no rosto e um copo d’água ao lado, quase sempre sozinho, Lucas Souza se transforma no artista que mais admira: O Gorilinha. É ali, entre o silêncio e o improviso, que grava, testa batidas e dá vida às próprias produções musicais.

Filho de Sandra Souza e de Paulo dos Santos, conhecido como MC Gorila, funkeiro famoso pelas paródias, Lucas herdou o apelido do pai e cresceu cercado por batidas, microfones e referências que hoje moldam sua identidade musical. Criado no Atalho, com quatro irmãos, carrega raízes profundas na comunidade, especialmente na região da Roupa Suja.

Lucas Souza, o Gorilinha, ainda criança, segurando uma mesa de som, a música já fazia parte da sua vida desde cedo. Foto: Arquivo pessoal

Aos 25 anos, o morador da Rocinha já soma mais de 18 faixas disponíveis nas plataformas digitais e constrói, aos poucos, seu espaço na cena independente. No celular, guarda centenas de músicas ainda inéditas, rascunhos que podem virar próximos lançamentos.

Nas letras, Gorilinha mistura vivência, autoestima, personalidade, amizades, o cotidiano da favela e até referências a animes, marcas que ajudam a compor sua identidade artística. O próximo passo é o álbum Notório Gorila, com lançamento previsto para 13 de março, data do seu aniversário.

“Eu transformo tudo em música: uma frase, uma piada, um momento engraçado com os amigos, os becos, as lajes, o visual do morro… tudo me inspira a escrever”, conta.

A faixa mais recente, Amistoso Internacional, revela outra paixão: os idiomas. Fluente em inglês, ele incorpora o aprendizado à sonoridade. “É com a música que eu mostro quem eu sou de verdade”, explica.

Desde 2019, Lucas passou a investir com mais seriedade na carreira, lançando clipes no YouTube, gravando novas faixas e contando com a rede de amigos que fortalece sua trajetória no rap. Para driblar a falta de estrutura e a dependência de estúdios, montou o próprio espaço de gravação em casa.

“Comprei meus equipamentos depois de muita luta. Fui pegando dicas com parceiros, aprendendo a produzir. Hoje, tudo é gravado lá no meu quarto”, lembra.

Com postura cautelosa, ele busca espaço no mercado sem se lançar de forma impulsiva. Fora da música, trabalha no Instituto Moreira Salles, no Núcleo de Preservação e Conservação, atuando com artes visuais, rotina que ajuda a manter os sonhos com os pés no chão.

Lucas já levou suas músicas para palcos da própria favela, passando pela Roda Cultural da Rocinha, saraus e bailes da comunidade. Também fez parte do coletivo Collab de Cria, grupo de rappers do morro que, mesmo não estando mais ativo, foi importante na construção da sua caminhada artística.

Apresentação na Roda Cultural da Rocinha com o coletivo Collab de Cria, grupo de rappers da favela do qual o artista fez parte. Foto: David Souza

As principais inspirações começam dentro de casa, com o pai, MC Gorila, e se estendem aos amigos da cena, como MC Fast, Mano R7 e Tsalo. Apesar da força coletiva do rap na Rocinha, ele ainda sente falta de mais espaço e oportunidades para artistas locais se apresentarem. “Falta mais porta aberta pra quem é daqui”, ressalta.

Ele também sente falta dos tempos em que a favela tinha mais espaços de lazer e eventos culturais. “Eu sinto saudade dos shows antigos daqui. Hoje tem evento, mas a qualidade e a ocupação dos espaços não se comparam com antes”, diz.

Com o passar dos anos, Lucas percebeu que a música se tornou um divisor de águas, não só como expressão, mas como projeto de futuro. É por meio dela que sonha crescer financeiramente, viajar e conhecer o mundo. Sem romper com as raízes, quer ir além. “A Rocinha é gigante, mas eu não quero viver só aqui”, reconhece.

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