Conhecida pelo acolhimento, pela fé e pelo cuidado com os vizinhos, a moradora marcou gerações de famílias da Rocinha
Ao acordar, tomou seu café, tomou banho, rezou o terço e, após sua oração diária, deitou-se para descansar pela última vez. Assim, a Rocinha se despede de Dona Therezinha, com H, como ela fazia questão de frisar, aos 99 anos. Moradora da Rua 4 e residente da Rocinha durante a maior parte da vida, ela morreu na última quarta-feira, 29 de julho.
Thereza de Oliveira Fontoura, ou Dona Therezinha, como era conhecida por muitos, nasceu em Minas Gerais, mas foi registrada em Comendador Venâncio, distrito de Itaperuna (RJ), dois anos após seu nascimento. Havia completado 99 anos no último dia 18 de julho.

Foto: Acervo pessoal
Na Rocinha, viveu por décadas na mesma casa térrea, que ainda hoje preserva paredes de barro, colunas de madeira e o telhado original. Em meio aos prédios que cresceram ao seu redor, a antiga construção permaneceu como uma lembrança de como eram as primeiras moradias da favela, antes da verticalização transformar a paisagem.
Com o avanço da idade, porém, as escadarias e os desníveis da comunidade tornaram a locomoção cada vez mais difícil e ela precisou se mudar para Sulacap, para a casa de uma antiga amiga, Cassina, onde morava havia três anos para facilitar a mobilidade, garantir mais segurança e conforto.
Para os mais próximos, era simplesmente Tia Therezinha ou Vó Therezinha. Era daquelas pessoas que pareciam sempre ter existido na paisagem da favela. Os cabelos brancos, sempre bem escovados, as roupas simples, o cheiro de vó e o jeito tranquilo fazem parte das lembranças de quem cruzava o caminho dela. Acompanhou gerações de famílias da Rua 4, incentivando pais e mães a levarem os filhos para a catequese e recebendo cada visita com afeto.
Como boa mineira, nunca deixava faltar um café para quem passasse. Foi uma presença marcante na Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, participando ativamente das missas, dos eventos da comunidade e, principalmente, das tradicionais festas juninas.
Também era muito procurada pelos moradores para fazer curativos, arrancar dentes de leite e, em alguns casos, cuidar de furúnculos. O conhecimento não veio de uma formação na área da saúde, mas da sabedoria construída ao longo da vida e da disposição em cuidar do próximo, algo que a tornou uma referência para muitos vizinhos.
Dona de casa e profundamente ligada à comunidade, também ficou conhecida por manter uma cisterna e um tanque na Rua 4. Nos períodos em que a água faltava, alguns moradores recorriam ao local para encher baldes e garantir o abastecimento das casas. No quintal, cultivava uma bananeira que, em época de colheita, rendia frutos divididos com os vizinhos. A árvore continua de pé e, assim como a antiga casa, segue sendo cuidada por seus familiares.
Foi casada com Tio Zequinha, também já falecido, e deixa os filhos Luiza Fontoura e Rafael Fontoura, além de netos, familiares, amigos e incontáveis pessoas que guardam lembranças de sua generosidade.
Mais do que uma moradora, Dona Therezinha representava um tempo em que as portas permaneciam abertas, o café estava sempre passado e cuidar do outro fazia parte da rotina. O legado permanece na história da Rua 4 e da Rocinha, onde sua generosidade, sua fé e seu acolhimento continuarão vivos na memória de muitas gerações. A moradora foi enterrada no Parque Jardim da Saudade, cemitério em Sulacap, no Rio de Janeiro.

Foto: Acervo Pessoal







