Com alto índice de endividamento das famílias no país, qual é o  impacto das apostas online nas favelas?

Moradores de periferias veem nas bets a chance de conseguir dinheiro para quitar dívidas e comprar alimentos para casa

Moradores de periferias veem nas bets a chance de conseguir dinheiro para quitar dívidas e comprar alimentos para casa

Fazer aquela “fézinha” faz parte do cotidiano de qualquer brasileiro. Na favela, as apostas sempre aconteceram: nas casas lotéricas, no jogo do bicho, nas mesas de baralho. Há quem aposta por hobbie, por prazer em disputa, mas também há a necessidade de se obter dinheiro de forma rápida. Com o avanço da tecnologia, a sorte está na palma da mão. Considerando as desvantagens econômicas do favelado, é preciso refletir sobre como os aplicativos de aposta podem intensificar o endividamento das famílias.

Para início de conversa, precisamos falar de dinheiro. De acordo com a Secretaria Municipal da Juventude, metade dos moradores de favela ganham menos que um salário-mínimo (R$1.621). Ao mesmo tempo, o Rio de Janeiro tem a quarta cesta básica mais cara do país, segundo o Dieese (custa quanto?). Na Rocinha, o custo de vida tem aumentado por conta do turismo. Assim, o aperto financeiro encurrala o morador, que precisa buscar outras alternativas para ter uma vida minimamente digna. O trabalho informal e as apostas assumem um lugar estratégico no bolso da população.

Como as favelas e periferias vivenciam o fenômeno do endividamento crônico? No livro ‘Parcelado’, Kauê Lopes dos Santos explica que ter dívidas é quase uma sina para pessoas pobres. O sistema financeiro produz taxas de juros abusivas, inclusive, sobre produtos que melhoram as condições de vida. Não é luxo ter uma geladeira, um fogão, uma cama. É necessidade. Mas, recebendo apenas um salário mínimo, como comprar esses eletrodomésticos sem parcelar? Assim, o indivíduo compromete parte do salário por 24 ou até 48 meses, como mostra a obra de Kauê. 

“O que a gente tem observado são as apostas em bets sendo praticadas como uma saída do endividamento já existente. Então, você já está em uma situação de inadimplência ou insolvência. Para explicar: a inadimplência é quando você atrasa as parcelas. E insolvência é quando você não tem condições de pagar as parcelas. Diante desse cenário, as bets servem como um tipo de expectativa para que essas questões se resolvam. Mas o que acontece? As pessoas não ganham, mas perdem na maioria das vezes. E as dívidas que já existiam passam a aumentar”, explica Kauê.

O geógrafo salienta que os territórios periféricos vivenciam a cultura do consumo, em que a vulnerabilidade se cruza com o desejo/necessidade de comprar. Para Kauê, as apostas online são sobre expectativas. Isso porque a dívida anula outras perspectivas. Tem gente que tem como sonho principal quitar as contas e ter o nome limpo.  Apostar se torna um prato cheio para amenizar o peso do bolso. No entanto, esta pode ser uma armadilha para o vício e mais endividamento.

“As bets catalisam o ciclo de endividamento. Se você está pouco endividado, você fica mais endividado. E é crônico porque é uma lógica de endividamento contínua que aliena o futuro e compromete o orçamento do trabalhador. Assim, você não tem espaço para sonhar com mais nada. Seu sonho é basicamente pagar dívidas”, afirma o geógrafo. 

As apostas online têm diferentes modalidades: jogo do tigrinho, cassinos, jogos esportivos. A repercussão das bets veio por volta de 2018.  Alexandre Almeida, morador da Rocinha, aposta há sete anos por divertimento. Ele acredita que apostar em dia de jogo deixa a partida mais emocionante. Ao mesmo tempo, não gosta da sensação de perder dinheiro. Então hoje, busca limitar a quantia depositada. No entanto, reconhece que a ansiedade toma conta nesses momentos 

“Eu sou uma pessoa muito ansiosa. Então, às vezes, eu fazia um bolão grande e faltava um jogo para bater o meu bolão. Se esse jogo fosse na hora do meu trabalho, eu ia parar o meu trabalho para ficar toda hora vendo como é que está o jogo. É uma coisa que atacava muito a minha ansiedade, sabe? Graças a Deus, eu consegui me livrar disso um pouco. Hoje eu aposto muito menos e, quando eu aposto, também não fico desesperado para saber o resultado.”

Aposta quem quer?

Não é só sobre “aposta quem quer”, mas sim quem acaba precisando de mais um meio de arrumar e, sobretudo, multiplicar dinheiro. No Terreirão, Jennifer Silva, de 25 anos, começou a apostar há 1 ano para ter recursos para comprar alimentos e outros itens para casa. Ela é mãe solo de três crianças e autônoma. Aplicativos como o Esporte da Sorte se tornaram um espaço para tentar ter mais dinheiro. 

“Eu não jogo muito dinheiro. É mais quando estou com uma merrequinha na conta, R$10, R$5, aí eu jogo. E ganho merreca também,  R$100, R$150. Tem vezes que ganho, vezes que não ganho. E quando ganho é pra fazer as compras para dentro de casa, porque, como eu sou sozinha, as coisas estão muito difíceis. Querendo ou não, as casas de apostas são uma propaganda enganosa, na minha visão. Porque você joga, mas você perde. Então eles ganham em cima de você. Às vezes, o ganho é mínimo.”

Nesse tempo apostando, Jennifer não adquiriu dívidas. Porém, em determinado momento, se sentiu viciada. A terapia e o autocontrole ajudaram a dar um tempo e voltar a apostar com menos frequência. 

Apostas online X Saúde

Mesmo não sendo uma substância palpável, como uma droga, por exemplo, jogos de azar também provocam dependência. A Ludopatia é um transtorno psicológico que se caracteriza pela falta de controle no impulso em jogar. Doutor João Andrade, médico  na Clínica da Família Maria do Socorro, explica que “ao jogar em BET, a pessoa produz serotonina, que é uma substância produzida no corpo humano e está associada ao humor, saciedade e compulsão”. 

João  afirma que “o Transtorno de Jogo é um problema que afeta geralmente homens, pretos e pardos, com 25-49 anos, com escolaridade até o ensino médio, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, de 2025”.  Um método utilizado na saúde é o de rastreio do vício em apostas é  LIE-BET (traduzido do inglês, Mentir-Apostar). 

“Se faz duas perguntas à pessoa: se ela já sentiu necessidade de MENTIR para pessoas importantes na sua vida sobre a extensão do seu envolvimento com jogos de azar. Se já sentiu necessidade de APOSTAR quantias de dinheiro cada vez maiores para obter a excitação desejada?”, observa  o médico. 

A combinação entre dívidas, mentiras e isolamento levam ao desespero. A combinação entre dívidas, mentiras e isolamento levam ao desespero, ideações suicidas. 

Influenciadores e o sucesso financeiro nas bets 

Com stories bem feitos, influenciadores apresentam uma vida de sucesso e convencem que, por meio de um simples clique no link, é possível ter acesso a dinheiro. Por acompanhar a rotina da pessoa, saber de detalhes que são publicados, cria-se uma relação de confiança, mesmo que de forma indireta.

“É uma população que está em uma cultura de consumo muito fértil para entrada das bets porque tem a vulnerabilidade de um lado e o desejo de consumir de outro. E as bets entram no meio e falam: ‘Opa, você está vulnerável e quer consumir? Quer dinheiro rápido? Aposta!’. Aí vem o jogador de futebol que você gosta, a influenciadora de maquiagem que você gosta, a atriz ou ator que você gosta falando para apostar também. Isso tem um papel importante porque você confia nessas pessoas. São pessoas que te passam credibilidade em algum sentido”, aponta o escritor Kauê Lopes dos Santos.

Em determinados contratos, o influenciador ganha quando o seguidor perde dinheiro. Esse modelo de negócio se chama revenue share. Assim, a remuneração das divulgações varia de acordo com os usuários que chegaram àquela indicação. As perdas geradas também entram no cálculo da comissão. 

A Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra que a inadimplência motivada pelas bets, entre 2023 e 2026, retirou R$143 bilhões do comércio varejista. Esse valor equivale ao volume de vendas nos Natais de 2024 e 2025. Neste ano, o Governo Federal bloqueou o acesso de 2,8 milhões de pessoas beneficiárias do Bolsa Família e do BPC (Benefício de Prestação Continuada) às plataformas de apostas online. 

Em caso de excesso, a orientação é procurar ajuda médica. “O tratamento é multiprofissional e consiste principalmente em apoio psicológico profissional, psicoterapia, uso de fármacos e participação em grupos de apoio. Por isso, é importante que o paciente passe em consulta na Clínica da Família para construir na Atenção Primária à Saúde um plano terapêutico”, finaliza o médico. 

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