Em 1990, os pesquisadores Michael Eduardo Reichenheim e Trudy Harpham publicaram um estudo sobre o perfil nutricional de 591 crianças menores de cinco anos na Rocinha, no Rio de Janeiro. A pesquisa revelou uma realidade que marcaria profundamente o debate social brasileiro nos anos seguintes: a fome e a desnutrição não eram apenas consequência da escassez de alimentos, mas sobretudo da pobreza, da desigualdade e da exclusão social.
A pesquisa foi realizada entre julho e novembro de 1986. Embora o levantamento não tenha identificado um quadro generalizado de desnutrição aguda, os autores encontraram um expressivo déficit de crescimento infantil associado às condições econômicas das famílias. Crianças nascidas com baixo peso, que não haviam sido amamentadas, que viviam em famílias numerosas ou em domicílios com piores condições materiais apresentavam risco significativamente maior de atraso no crescimento.
O estudo também destacou a forte estratificação social existente dentro da própria Rocinha, é a “favela dentro da favela”, demonstrando que até mesmo uma grande favela reproduzia internamente as desigualdades da sociedade brasileira. Crianças das áreas mais pobres da Rocinha apresentavam muito mais déficit de crescimento que aquelas dos setores relativamente mais favorecidos da própria favela.
Nos anos 90, os pesquisadores estimaram que a população da Rocinha girava em torno de 80 mil habitantes, uma informação confirmada pela associação de moradores à época. Já as estimativas oficiais aumentavam para cerca de 300 mil habitantes.
A pesquisa foi realizada em um dos períodos mais turbulentos da história recente do Brasil. Entre 1990 e 1994, o país atravessou a crise política que culminou no impeachment de Fernando Collor de Mello e na posse definitiva de Itamar Franco. A hiperinflação corroía salários, o desemprego aumentava e milhões de brasileiros conviviam com a insegurança alimentar. O estudo da Rocinha pode ser lido hoje como um retrato daquele Brasil que ainda estava distante de construir uma política nacional consistente de combate à fome.
Foi nesse contexto que surgiu uma das figuras mais importantes da luta contra a fome no país: Herbert José de Sousa, o Betinho. Sociólogo e ativista dos direitos humanos, Betinho transformou a fome em uma questão política e moral para toda a sociedade brasileira. Em 1993, lançou a campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, que mobilizou empresas, igrejas, universidades, sindicatos e milhões de cidadãos. Pela primeira vez, a fome deixou de ser tratada apenas como um problema individual e passou a ser compreendida como uma responsabilidade coletiva e do Estado.
O mérito de Betinho foi mostrar que a fome coexistia com a capacidade produtiva do país. O Brasil já possuía uma agricultura poderosa, mas ainda não havia construído mecanismos suficientes para garantir que a riqueza produzida chegasse aos mais pobres. Sua campanha ajudou a formar uma consciência nacional que influenciaria políticas públicas nas décadas seguintes.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência em 2003, encontrou terreno fértil para transformar essa mobilização social em política de Estado. O programa Fome Zero nasceu com o objetivo explícito de erradicar a fome. Antes dele, existiu o programa Comunidade Solidária, durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso. Em seguida, o Bolsa Família consolidou-se como o principal instrumento de transferência de renda do país, integrando benefícios existentes e ampliando a proteção social para milhões de famílias.
A importância histórica do Bolsa Família torna-se ainda mais evidente quando comparada ao diagnóstico apresentado por Reichenheim e Harpham. O estudo demonstrava que a deficiência nutricional estava profundamente ligada às condições econômicas das famílias. Ao assegurar uma renda mínima, o Bolsa Família atuou justamente sobre esse fator estrutural. Ainda que modesto em valores individuais, o benefício permitiu que milhões de famílias passassem a comprar alimentos regularmente, mantivessem crianças na escola e acompanhassem o calendário de vacinação e de saúde.
Os resultados foram amplamente reconhecidos ao longo dos anos. A redução da pobreza extrema, a melhora dos indicadores nutricionais infantis e a diminuição da insegurança alimentar mostraram que transferir renda aos mais vulneráveis não era gasto, mas investimento social. Em outras palavras, o Estado passou a fazer em escala nacional aquilo que os pesquisadores já apontavam como necessário desde o final dos anos 1980: enfrentar as causas socioeconômicas da desnutrição.
O estudo da Rocinha permanece atual porque revela uma verdade simples e poderosa: a fome não é apenas a ausência de comida no prato. Ela é o resultado de condições sociais que limitam oportunidades, renda, acesso à saúde e qualidade de vida. A criança que apresentava déficit de crescimento na pesquisa não sofria apenas pela falta de nutrientes; ela expressava, em seu próprio corpo, os efeitos da desigualdade.
O sistema que manteve pessoas escravizadas no Brasil durou mais de 300 anos. A escravidão “acabou”, em 1888, com a assinatura da Lei Áurea há 138 anos, sem qualquer política pública de inclusão social, moradia, trabalho ou assistência alimentar.
Por isso, a trajetória que liga a Rocinha estudada por Reichenheim e Harpham, a mobilização cidadã puxada por Betinho e os programas sociais dos governos Lula constitui uma das mais importantes histórias de transformação social do Brasil contemporâneo. Somado a isso, sem esquecer, os movimentos comunitários da Rocinha desde o seu surgimento na década de 1930 até os dias de hoje. Muitos coletivos, ONGs, iniciativas comunitárias e religiosas conseguiram alimentar os moradores ao mesmo tempo que fizeram trabalhos de conscientização política.
A fome pode ser vencida quando conhecimento científico, mobilização popular e ação governamental convergem para o mesmo objetivo. Combater a fome não é um ato de caridade, mas uma escolha política. E quando o Brasil decidiu fazer dessa escolha uma prioridade nacional, milhões de crianças passaram a ter a oportunidade de crescer, aprender e viver com dignidade.
*Foto de capa do artigo de opinião: Renato Oliveira de Araujo







