Moradores se unem para revitalizar o Parque Ecológico da Rocinha após abandono do Estado

Movimento Amigos do Parque da Rocinha busca driblar o descaso do Estado na maior área verde da favela

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Destaques

  • Moradores da Rocinha se mobilizam em mutirões mensais para revitalizar o Parque Ecológico da Rocinha, no alto da Rocinha, abandonado pelo Estado.
  • A ação incluiu limpeza, retirada de lixo e recuperação da estrutura do espaço.
  • O projeto priorizou a reintrodução de vegetação nativa e melhorias ambientais.
  • A iniciativa conta com participação voluntária da comunidade local.
  • Espaço público custou R$ 24 milhões e foi construído através de recursos do Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano. 

Num sábado ensolarado, antes de subir para o Portão Vermelho, na parte alta da Rocinha, decidi tomar um suco na Via Ápia, na parte baixa do morro. Fiz amizade com o atendente da lanchonete que, coincidentemente, fazia aniversário naquele dia, além de décadas morando na Rocinha. Fui perguntada sobre as minhas atividades do dia, disse que iria trabalhar no Parque Ecológico da Rocinha, no Portão Vermelho.

A resposta foi uma pergunta que talvez faça parte do vocabulário de muitos moradores”. Tem um Parque Ecológico aqui?”. E é com objetivo de popularizar este lugar tão precioso na comunidade que o coletivo Amigos do Parque Ecológico da Rocinha atua incansavelmente na recuperação do espaço.

O parque é situado em uma área na Floresta da Tijuca, área que integra uma reserva ambiental federal. Com acesso facilitado pela Estrada da Gávea — por onde circulam vans e ônibus —, a entrada principal fica na altura do trecho conhecido como Portão Vermelho (o portão não existe). Também é possível acessar o local de moto.

Inaugurado em 2012, o espaço conta com cerca de 9 mil m² e foi concebido como uma ampla área de lazer, equipada com quadra de tênis, paredão de escalada, quadra poliesportiva, banheiros, chuveiros, anfiteatro, playground, arvorismo, redário, churrasqueiras, espaço de meditação e hortas comunitárias. Apesar da estrutura e do investimento público que marcou sua criação, o cenário seria perfeito se não fosse o abandono do poder público.

Com custo de R$24 milhões, o Parque foi uma iniciativa do governo do Estado em sequência às obras do PAC1 em 2012, executado com recursos do Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano. 

Na mesma época surgiam as Unidades de Polícia Pacificadora, que, com o caso Amarildo, potencializou o afastamento dos moradores com o espaço público.

Nos últimos anos, a união de moradores, pesquisadores e educadores, que hoje formam os Amigos do Parque Ecológico da Rocinha, mobilizou a ativação comunitária no local. Mutirões de limpeza e de grafite, apresentações artísticas e rodas de conversa passaram a ser realizadas no Parque como forma de aproximar os moradores do local. 

Amigos do Parque Ecológico da Rocinha, na localidade do Portão Vermelho. Foto: Nathália Silva

“Há muito tempo percebo que a Rocinha não tem espaços de convivência social. Um lugar de 70 mil habitantes segundo o IBGE, e não tem praça, não tem parque. A urbanização é a solução para um monte de coisa. E o Parque é um lugar que precisava ser ocupado. Eu tinha medo de passar aqui. Depois do nosso trabalho, é nítido o quanto as pessoas se aproximaram daqui. O que estamos fazendo é uma resistência. Já dialogamos de todas as formas para o Estado estar presente aqui e ele não está. Então vamos continuar fazendo esse trabalho porque a luta segue e não para”, explicou Severino, uma das lideranças do APER.

Todo mês o grupo se reúne para limpeza e confraternização no espaço. Em março, mês da mulher, a grande homenageada do encontro foi Lindacy Menezes, escritora da Rocinha falecida em janeiro deste ano. Linda, como era chamada, sempre iluminava os encontros com sua arte e um cafezinho gostoso. No último dia 28, um grafite de Emerson Agulha, tatuador e artista plástico da Rocinha, ilustrou o nome e um poema de Lindacy durante o evento. 

Aline Chagas, que construiu o Sarau Ciranda junto com Linda, recitou poemas para exaltar a memória da homenageada. Atuantes desde 2022, inclusive nos encontros do Parque Ecológico, o coletivo de poesias passará por uma reformulação neste ano trazendo pautas e debates sociais para os escritores. E agora, em todas as apresentações terá poema de Lindacy. 

Inauguração de um grafite da poetisa e moradora Lindacy Menezes. Foto: Nathália Silva

Os mutirões contam com a colaboração de outros atores da sociedade civil, além dos moradores. A estrutura das churrasqueiras, por exemplo, contam com um telhado verde, sistema de cultivo de plantas que ajuda a refrescar os ambientes. Além disso, o projeto de extensão Praça, Rua, Bairro da UFRJ sempre  está presente para pensar o espaço e ajudar a manter o parque limpo.

“A gente espera manter o Parque limpo. Nós falamos com moradores e com a Prefeitura. Ano passado a gente conseguiu que a Comlurb desse uma limpeza geral aqui. Já está precisando. Mutirão é o braço da gente. Eles têm caminhão e equipamento para pegar entulho. Porque, infelizmente, tem gente que entendeu que isso aqui é uma lixeira. O risco climático está aí e todas essas coisas podem deslizar”, explica Patrícia Maya, coordenadora do projeto de extensão Praça, Rua, Bairro da UFRJ. 

Diversas atividades acontecem no Parque, mesmo com a estrutra precária. Foto: Nathália Silva

A educação ambiental na Rocinha é um grande desafio. O distanciamento da população com a natureza provoca uma falta de cuidado e pertencimento. Por isso, movimentos como o do Amigos do Parque são valiosos, justamente por incentivar a presença e a apropriação deste espaço como forma de mudar a visão sobre o meio ambiente. Apenas 30% das cidades brasileiras possuem uma política de educação ambiental, de acordo com o IBGE. 

“O poder público não entregou esse espaço como deveria. Aqui tem um potencial educativo. Se as escolas da Rocinha fizerem um trabalho aqui, tem muito potencial. Pensando a emergência climática na favela, que tem pessoas que não tem contato com a natureza, a gente tem que entender a natureza como parte da nossa história. E se a gente não ensina essa nova geração, o futuro do Parque Ecológico é sumir”, diz Rose Firmino, professora e integrante do Amigos do Parque. 

Os encontros do Amigos do Parque Ecológico da Rocinha acontecem em um sábado de cada mês. As datas são divulgadas na página da iniciativa no Instagram. 

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