Em julho de 2013, o mundo quis saber ‘Onde está Amarildo?’, pergunta lançada pelo Rio de Paz, após o assassinato do pedreiro, por policiais militares, na Rocinha, e que ecoou pelo mundo com as manifestações da ONG cobrando explicações do governo do estado.

E para marcar esses dez anos sem resposta, o Rio de Paz lança, no próximo dia 13, no Estação NET, em Botafogo, o longa-documentário ‘Cadê Você?’, com direção e roteiro do jornalista Humberto Nascimento, uma produção do Rio de Paz e da HN Produções.

O longa-metragem conta o drama ainda vivido pela família de Amarildo dez anos depois de seu assassinato, cujo corpo jamais foi encontrado, e de tantas outras pessoas que procuram por seus entes queridos, alguns mortos pelo tráfico e pela milícia ou polícia no estado do Rio, mas que vivem a esperança do reencontro, mesmo que seja apenas do corpo. São os chamados desaparecidos forçados.

Por ano, o estado registra cerca de 5 mil desaparecidos, uma parte deles assassinados sem que seus corpos fossem achados não dando o direito às famílias de enterrarem àqueles que amam, uma prática que torna ainda mais dolorida esta perda.

São relatos inéditos, emocionantes e fortes que expõem uma realidade cruel sobre os desaparecimentos no estado do Rio, casos não noticiados, e muitas vezes nem investigados, que ficam escondidos nos becos das favelas, onde a maioria desses crimes acontecem.

Amarildo Dias de Souza segura um exemplar do Fala Roça em um beco na Rua 2, dias antes de desaparecer.
Foto: Acervo Fala Roça

“A ideia do documentário surgiu a partir da percepção de que os casos de pessoas desaparecidas no Rio de Janeiro são muito extensos, e que entre esses cinco mil desaparecidos por ano em nosso estado uma fração significativa não vai reaparecer nunca porque foi morta e teve seu corpo lançado em cemitério clandestino, incinerado e até mesmo devorado por animais. Então, pensamos: temos que dar visibilidade para esta prática criminosa hedionda”, disse o fundador da ONG Rio de Paz, Antonio Carlos Costa, que participa do documentário.

Foi graças à luta de Antonio e Jovita Belfort, mãe de Priscila Belfort, desaparecida há 19 anos, que o Rio ganhou a Delegacia de Descoberta de Paradeiro (DDPA), em 2014. Foram várias manifestações cobrando o governo do estado atenção dediva sobre os casos de desaparecimentos no Rio. Titular da especializada, a delegada Elen Souto participa do documentário.

“Nosso movimento prova que a sociedade civil pode se organizar de maneira ordeira, sem vínculos partidários e sem receber verba pública para cobrar das autoridades que cumpram com a Constituição”, alerta Antonio.

‘Cadê Você?’ tem as músicas de Gonzaguinha “Achados e Perdidos” e “Pequena Memória para Um Tempo sem Memória”, gentilmente cedidas pela Edições Musicais Moleque Ltda., detentora dos direitos autorais do artista. Da trilha sonora ainda faz parte “Amarildo”, de Mauricio Tagliari, também gentilmente cedida pela Alternet Music Produção e Gravação Ltda.

Práticas da Ditadura

‘Cadê Você?’ faz ainda um paralelo com os desaparecidos na ditadura militar no Brasil cujas práticas de torturas, assassinatos e desaparecimento dos corpos das vítimas são as mesmas empregadas atualmente pelos criminosos e policiais, heranças dos Anos de Chumbo em plena democracia.

“O mesmo impacto que o Rio de Paz leva para as ruas vai levar agora para o cinema. A gente vai contar que esses desaparecimentos repetem os métodos da ditadura militar no Brasil, infelizmente”, conta o diretor e roteirista do documentário, jornalista Humberto Nascimento.

“Tem muito homicídio disfarçado de desaparecimento. A sociedade não aprende com os erros do passado. As coisas acontecem com a mesma intensidade ou até mais forte. É impressionante como os pobres não têm direito a nada, nem a enterrar seus parentes. É disso que se trata. Fiquei muito honrado com esse convite para dirigir essa produção do Rio de Paz, que é uma instituição que tem um histórico de luta pelos direitos humanos” finaliza o diretor.

Entre os casos de repercussão, além do de Amarildo, estão os de Priscila Belfort, o de Patrícia Amieiro, sumida há 15 anos; o de Fernando Santa Cruz, pai do ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Felipe Santa Cruz, assassinado há 49 anos durante a ditadura militar cujo corpo nunca foi encontrado; do menino Juan, morto por PMs em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense; dos três meninos de Belford Roxo, também na Baixada, mortos pelo tráfico e que permanecem desaparecidos.

Participam ainda do documentário parentes de Amarildo, mães de desaparecidos, o delegado Orlando Zaccone, a deputada e ex-chefe de Polícia Civil Martha Rocha, o ex-comandante das Unidades de Polícia Pacificadora coronel Robson Rodrigues; integrantes do Ministério Público; a ex-integrante da Comissão da Verdade Nadine Borges, o advogado João Tancredo, o coordenador do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da UFF (GENI/UFF) Daniel Hirata; Felipe Santa Cruz; a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, deputada Dani Monteiro; Jovita Belfort e Tania Amieiro, mãe de Priscila Amieiro.

Crowdfunding

O Rio de Paz não tem fins lucrativos, não aceita verba pública, não tem patrocinador e promove suas ações apenas com as doações de pessoas que confiam em seu trabalho. Por isso, para ajudar em mais esse projeto na tentativa de promover o debate e ajudar a criar políticas públicas em prol dos direitos humanos, a ONG lançou um crowdfunding para pagar essa produção.

O Rio de Paz insistiu nessa obra mesmo diante de dificuldades financeiras por entender a importância e a urgência em dar visibilidade a causa dos desaparecidos. Para colaborar basta acessar https://bit.ly/3XBwcMw. Qualquer quantia. Os doadores terão seus nomes nos créditos de agradecimento do filme.

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