Aos 76 anos, Francisca Neuza de Araújo, conhecida como Neuzinha, é oriunda do interior do Ceará e pratica desde menina artesanato para sobreviver. Criava chapéus de palha, bolsas, bordões, panos, surrões e outros objetos com a mãe para vender nos bairros. Hoje, moradora da localidade Boiadeiro, parte baixa da Rocinha, enfeita espaços da Rocinha com materiais recicláveis e tira renda do artesanato sustentável. 

Ao entrarmos na residência de Neuzinha, nossos olhos se deparam com os diversos artefatos feitos manualmente pela artesã. Para ela, o artesanato que produz, é uma maneira de reaproveitamento consciente de materiais que são fáceis de serem adquiridos, como caixas de leite, garrafas pet e encartes de supermercado. 

“Tudo isso começou lá no Ceará. Eu faço porque acho que é reaproveitável [os artesanatos] e dá pra fazer muitas doações. Uso vários materiais que são sempre jogados fora, de caixas de leite a garrafas ou encartes de mercadinhos, que são fáceis de conseguir”, explica a artesã. 

Mãe de cinco filhos, a cearense começou a se dedicar ao trabalho de artesanato quando teve o primogênito. Se por um lado, durante o período que viveu no interior do Ceará, Neuzinha fazia artesanatos para sobreviver e ganhar dinheiro para a família, no Rio de Janeiro, o processo se tornou orgânico pela procura dos próprios moradores da Rocinha pelos produtos sustentáveis. As encomendas e vendas da artesã começaram a subir e o trabalho cresceu.

“Eu admiro muito o trabalho da Neuzinha. Nunca consegui fazer nada, nem enrolar os canudos e espetos de churrasco que ela utiliza para montar os trabalhos. Sempre trabalhei como cozinheiro, mas ficava elogiando e apoiando [ela] de fora porque não é qualquer pessoa que tem esse talento”, afirma Vivaldo de Souza Lima, de 70 anos, marido da artesã.

Além de aceitar encomendas para vender, Neuzinha também  doa parte da produção por generosidade para quem precisa.  Ela ainda usa o artesanato para enfeitar os espaços da favela e até para moradores de fora da Rocinha. 

Ela já vendeu as peças em eventos de artesanatos e decorou a Casa Naná – localizada  no Centro Municipal de Cidadania Rinaldo de Lamare, em São Conrado. A arte moldada pelas mãos de Neuzinha enfeita muitas casas de famílias de favela, além de muitas festas. 

“Vendi muitos produtos artesanais na Feira da Providência, no Centro. Tem de tudo um pouco [nos pedidos]: as pessoas já encomendaram para decorar casas e festas com bolas personalizadas. A Casa Naná, por exemplo, é decorada também com meu trabalho. Se você for lá, vai ver o tanto de artesanato que já fiz. Tem cestinhas, garrafas personalizadas e todos os produtos artesanais sustentáveis. Significa muito para as pessoas de lá!”, opina Neuzinha.

Com décadas de experiência na área, Neuzinha, que se enxerga como uma mulher guerreira da favela, garante que mesmo no auge dos 70 e poucos anos, a idade não interfere em nada no trabalho de qualidade que faz com maestria, a partir das técnicas de artesanato que aprendeu no Nordeste.

“Independente da minha idade, consigo fazer um trabalho bem feito. Consigo porque tenho uma rede de apoio incrível, um marido que me ama e apoia há muito tempo, e uma trajetória de muito aprendizado”, completa a nordestina.  

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