Toda vez que chove forte é a mesma história. Moradores ilhados voltando do trabalho, veículos sendo arrastados por enxurradas, lixo sendo carregado pelas correntezas. No último sábado (4/2), a Rocinha recebeu o 1º Encontro de Mudanças Climáticas promovido pelo Museu Sankofa Memória e História da Rocinha com o apoio da Rede Favela Sustentável. 

Pela primeira vez, lideranças locais se unem a seis museus da cidade para dialogar sobre o clima, partindo de vivências, lembranças e ações de melhorias nos territórios. Os encontros que tiveram início em janeiro de 2023 e vão até maio, finalizando com uma exposição seguem circulando pela cidade.

Nesse final de semana, foi a vez do Museu  Sankofa: Memória e História da Rocinha intermediar o evento em seu território. O encontro na Rocinha aconteceu no sábado, dia 04, no CIEP 303 Ayrton Senna da Silva – das 9 às 17 horas.

Não é de hoje que percebemos o quanto as favelas do Rio sofrem com a chegada das chuvas de verão, o calor excessivo, o frio intenso, os deslizamentos, a falta de água, descarte de lixo e uma série de problemáticas que os moradores de favelas conhecem.

O debate envolvendo representantes de diversos coletivos da redondeza foi organizado com rodas de conversas que, facilitadas por perguntas temáticas, direcionaram para uma reflexão aprofundada sobre os impactos da mudança climática a partir dos seguintes recortes: memória climática, ocupação, direito à cidade e o saber popular como resposta aos desafios impostos pelo clima/natureza.

Cofundador do Museu Sankofa, Antonio Firmino ponderou que é preciso ter cuidado para não achar que essa iniciativa é um acontecimento totalmente inédito, mas que “há muitos anos os moradores trabalham essa memória climática com ações através de diversos movimentos”. Para ele, a  importância do encontro está em resgatar o que os moradores sempre fizeram diante dos acontecimentos catastróficos presentes na história da Rocinha.

Ainda segundo Firmino, o Museu Sankofa tem a responsabilidade de trazer essa memória de lutas dos moradores, passando pela questão do direito à moradia, do direito à urbanização e pelo processo do saneamento básico.São questões que estão interligadas: como fazer moradias seguras e saudáveis”, finalizou Firmino.

A moradora e ativista Magda Gomes conta que a chegada dos debates sobre emergências climáticas só acontecem a partir da perda, pela perda dos bens materiais e pelos danos causados pelas chuvas. “Ainda temos muita dificuldade, não por nós mas por falta de políticas públicas, que consigam compreender que discutir mudança e emergência climática é sobretudo discutir qualidade de vida e gerações futuras”, afirmou Magda Gomes. 

Ela relembrou um episódio de ajuda humanitária feito em 2019 após fortes chuvas na Rocinha pelas organizações comunitárias e criticou a falta de ação do Estado. “Em 2019, a Rocinha Resiste junto com o Fala Roça, nos reunimos durante semanas para cessar uma perda que os moradores da Rocinha estavam sofrendo após aquelas chuvas daquele ano. Naquele momento entendemos que não podemos fazer o papel do Estado, mas precisávamos organizar uma estratégia para suprir as demandas que apareceram devido às tragédias climáticas, precisamos colocar este tema no nosso dia a dia para construir mais melhorias, e não somente desenvolver uma ação quando o incidente já aconteceu.”.

Antonio Firmino comandou a atividade no CIEP, na entrada da Rocinha. Foto: Osvaldo Lopes

A preocupação com o clima vem sendo discutida há algum tempo. Contudo, por muitos anos o debate a respeito do clima ficou centrado apenas no meio acadêmico, e pouco difundido na grande mídia e nas áreas periféricas. Pensar sobre as mudanças climáticas é urgente, pelo fato de quem está sofrendo com os impactos são as populações de baixa renda, sobretudo, os moradores de favelas e periferias.

“Trazer assuntos no âmbito de emergências climáticas é fundamental, a favela precisa falar e entender mais sobre isso, por isso estamos aqui com o apoio da Rede Favela Sustentável para construir um documento de melhorias e propor coletivamente soluções melhores para o nosso futuro e consequentemente melhorias para a Rocinha.”, disse Antonio Firmino para cerca de 30 pessoas durante o evento no CIEP.

Em 1988, quando foi lançado o primeiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ( IPCC, na sigla em inglês), o documento trouxe comprovações científicas robustas dos impactos que as emissões de gases causadores do efeito estufa e aquecimento global estão provocando no clima do planeta. 

As emissões globais seguem aumentando de forma expressiva e as metas estabelecidas pelos países membros dos acordos firmados no âmbito da ONU, inicialmente com o Protocolo de Quioto, assinado em 1997, e depois com o Acordo de Paris, assinado em 2015, não foram cumpridos em larga escala.

A temperatura média do planeta já se elevou em 1,1ºC e o objetivo global é manter este aumento abaixo dos 2ºC, na comparação com o período pré-industrial. Só em 2021, o chamado “orçamento carbono”, que é o volume de gases de efeito estufa que a humanidade pode lançar para que o limite de 2ºC seja possível – já havia sido consumido em 91%. A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera subiu de um máximo 300 ppm (partes por milhão), que se manteve até o período do pós-guerra, para 407 ppm, em 2018, e 413,2 ppm em 2020. 

“Tenho diversas lembranças de ações sobre o clima, infelizmente a maioria delas são ruins, desde o incêndio na Praia do Pinto, que já foi o começo de uma mudança climática para a construção do condomínio Morada do Sol, até chuvas que todo ano deixam algum rastro na Rocinha. Tivemos isso em 2010, 2012, 2019 e fico temerosa da próxima porque a cada ano vem mais forte.”, lembrou a moradora Marly de Souza e complementou: “Eu tenho o privilégio de morar em uma casa com quintal na Rocinha, muita gente aqui não tem quintal, mas eu perco meu sono toda vez que vejo alguém cortar uma árvore para construir seja lá o que for. Meu quintal tem muitas árvores e plantas, todo verão o povo adora porque fica fresquinho, mas eu passo o ano todo falando com essas mesmas pessoas que não podem cortar as árvores, que são as raízes que seguram o solo, que elas e as plantas melhoram a qualidade do ar.”

As consequências das mudanças climáticas geradas pela concentração destes gases de efeito estufa na atmosfera já podem ser sentidas em muitos lugares. O Brasil viu, em 2011, enchentes sem precedentes na cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, que deixaram centenas de mortos. 

O começo de 2023 no Rio já bateu recordes de ondas de calor, chegando a uma temperatura de 41ºC com sensação térmica de 50ºC, provocando diversos incômodos, mal estar, doenças e até mesmo mortes em alguns casos.

O Encontro de Mudanças Climáticas segue agora para novos encontros e debates na tentativa de construir coletivamente uma carta com soluções e mitigações de catástrofes climáticas nas favelas cariocas. Além do Museu Sankofa, o encontro é articulado pela Rede de Favela Sustentável com apoio do Museu da Maré, Museu do Horto, Museu de Favela, Núcleo de Memórias do Vidigal, Museu das remoções, NOPH e Instituto Raízes em Movimento.

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