De acordo com Marcelo Alves, professor da PUC-Rio, notícias falsas podem influenciar percepções, reforçar crenças já existentes e contribuir para ambientes marcados por maior hostilidade, medo e radicalização
O impacto das fake news, ou notícias falsas – informações criadas ou manipuladas com o objetivo de enganar e prejudicar pessoas, grupos ou instituições – na democracia brasileira é uma preocupação crescente, especialmente em comunidades periféricas como a Rocinha, onde a vulnerabilidade social tende a potencializar os impactos da desinformação.
Lucimar Honório Muniz, de 55 anos, moradora da Rocinha, relata a dificuldade em distinguir a veracidade de informações que recebe no WhatsApp. Ela afirma que muitas vezes depende da ajuda de seu filho para identificar conteúdos falsos. “Sendo sincera, vou muito ao meu filho na hora de verificar as informações. Algumas acabo repassando porque acredito, aí ele vai e fala: ‘Mãe, isso não é certo, isso não é verdade’, então, apago e aviso que eu caí em uma fake news.”
Além de comprometer o acesso a informações confiáveis, a desinformação pode influenciar percepções, reforçar crenças já existentes e contribuir para ambientes marcados por maior hostilidade, medo e radicalização. É nesse cenário que Marcelo Alves, cientista de dados e professor do Núcleo de Tecnologia do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, observa a desinformação como um elemento que pode criar condições favoráveis para determinadas decisões e comportamentos, sobretudo em contextos eleitorais.
“O desafio de dimensionar a influência da desinformação sobre o comportamento eleitoral é muito grande. O que podemos afirmar é que a existência de um ambiente informacional marcado por um grande volume de conteúdos falsos, enganosos ou manipulados podem criar condições para que determinados comportamentos políticos sejam influenciados”, explica o professor.
A pesquisa “Como os brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial”, realizada pela Aláfia Lab em 2026, revela que a desinformação continua sendo um dos principais desafios para o debate político e democrático no Brasil. Os dados mostram que 43% dos brasileiros associam notícias falsas a temas políticos. Além disso, a pesquisa também indica que o grupo composto por homens, jovens, com maior escolaridade tem mais facilidade de reconhecer fake news, apontando que grupos historicamente mais vulneráveis e periféricos estão mais expostos à desinformação.

O impacto das fake news dentro da mais populosa favela do país
Nas comunidades periféricas, como a Rocinha, esse fenômeno ganha ainda mais força, devido ao baixo acesso à educação digital e à dificuldade de verificação de fontes confiáveis. Marcelo ainda destaca que as periferias são frequentemente mais afetadas, já que enfrentam limitações históricas no acesso à informação, à saúde, à segurança e aos serviços públicos. “A desinformação pode reforçar estereótipos sobre esses territórios, associando comunidades exclusivamente à violência ou à criminalidade. Também pode gerar medo, prejudicar a circulação de moradores, impactar o comércio local e dificultar a organização coletiva.”
Presentes no cotidiano dos moradores, as redes sociais são os principais canais de circulação de informações falsas, influenciando opiniões, comportamentos e decisões políticas. A pesquisa “Tecnologia e Desinformação no Território do Bem”, realizada pelo Calango Notícias e desenvolvida pelo projeto CalangoLab, em 2024, indica que a TV ainda é a principal fonte de informação. No entanto, redes sociais como Instagram e WhatsApp ocupam posições de destaque, podendo superar portais de notícias e jornais impressos.

Desigualdade digital
O letramento digital se caracteriza como a capacidade de usar e avaliar tecnologias digitais de forma crítica, segura e eficaz. Quando essa competência é limitada, é possível notar um aumento da vulnerabilidade à desinformação.
Com a popularização da inteligência artificial, conteúdos falsos como vídeos, áudios e textos manipulados tornaram-se mais sofisticados, difíceis de identificar e cada vez mais presentes nas redes sociais.
Jorge Oliveira, de 24 anos, morador da Rocinha, afirma que a falta de orientação sobre a desinformação pode influenciar o voto dos eleitores, afetando o resultado das eleições. “Não temos orientação suficiente aqui na comunidade. O pessoal tem uma probabilidade maior de propagar as notícias. Porque tem gente que não é tão bem instruída assim.”
Entre os que fazem algum tipo de verificação, o Google é a plataforma escolhida para analisar o conteúdo ou a própria pessoa avalia se a informação faz sentido, o que nem sempre é suficiente para barrar a propagação de notícias falsas. É importante também desmistificar o estereótipo de que pessoas pobres seriam as principais responsáveis por disseminar a desinformação por falta de acesso à educação. A maioria reconhece as redes sociais como canais de propagação de desinformação, revelando uma percepção crítica sobre o papel dessas plataformas.
Ana Clara Torquato, de 20 anos, estudante do CIEP 303 Ayrton Senna, avalia que pessoas mais velhas tendem a ser os alvos mais frequentes das fake news. “Vejo que pessoas mais velhas têm mais dificuldade, os jovens já ‘sacam’ mais rapidamente.” Em relação ao processo de verificação, a jovem afirma que os jornais ainda se apresentam como um local seguro para consumir e verificar informações, mas que também utiliza os comentários das mídias sociais como fontes para a verificação dos fatos.
Nesse cenário, a educação midiática é fundamental para que os cidadãos consigam identificar sinais de alerta, como títulos apelativos, erros gramaticais de Língua Portuguesa e pedidos de compartilhamento imediato. Em comunidades periféricas, seu fortalecimento é essencial para combater a desinformação e promover uma participação cidadã mais consciente e informada.
Esta matéria é fruto da parceria entre a disciplina de Extensão em Jornalismo e Cidadania, do curso de Comunicação da PUC-Rio, ministrada pela professora Lilian Saback, e o jornal Fala Roça.







