Mulheres periféricas aproveitam as eleições para complementar a renda como ‘bandeirinhas’

‘Emprego de carteira assinada lá fora está muito difícil. Como a gente tem pouco estudo, pouco conhecimento, quando vem essa época de eleição, ajuda bastante’, diz moradora; desemprego, no entanto, está em 5,4%, segundo o IBGE

‘Emprego de carteira assinada lá fora está muito difícil. Como a gente tem pouco estudo, pouco conhecimento, quando vem essa época de eleição, ajuda bastante’, diz moradora; desemprego, no entanto, está em 5,4%, segundo o IBGE

Em todo processo eleitoral, elas estão lá: nas esquinas, nos morros e nas passarelas, sempre há figuras que exercem um papel fundamental na divulgação das candidaturas. As “bandeirinhas”, nome informal para a função de cabo eleitoral, tem o período de eleições como um extra na renda ou como alívio no desemprego. 

Na prática, o serviço se espalha em espaços estratégicos, com o objetivo de fixar o número de candidatos por meio das entregas de panfletos e bandeirinhas. O pagamento pelo trabalho pode ser feito em diárias ou quinzenas e faz toda diferença para quem estava desempregada, como uma moradora da Rocinha, que preferiu não se identificar. 

Desde o início de setembro, ela circula pela favela com bandeiras e panfletos para receber seu pagamento quinzenal. Mãe solo de uma adolescente, ela sustenta a casa e ainda divide o dinheiro com a filha. 

“Às vezes, a gente tem mais dificuldade de arrumar um trabalho lá fora. Quando vem a eleição, a gente aproveita a oportunidade para comprar as coisas que ficaram pendentes naquele mês. E aí ajuda. Levanta um pouco nosso astral, que o emprego de carteira assinada lá fora está muito difícil. Como a gente tem pouco estudo, pouco conhecimento, quando vem essa época, ajuda bastante”, conta a moradora.

Em um mês, ela recebeu um valor próximo a um salário mínimo. Das 10h às 18h, a moradora está nos pontos mais movimentados da Rocinha e só pausa para o almoço. Grosseria e falta de educação da população fazem parte da rotina que precisa enfrentar para levar sustento para casa. 

Apesar da busca por trabalho informal durante as eleições, a taxa de desemprego no país está em 5,4%, o que corresponde a 5,9 milhões de pessoas sem ocupar um posto de trabalho com carteira assinada, É o menor percentual na série histórica, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Já os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostram que a informalidade tem cor, do ponto de vista nacional: 62% da população brasileira em situação de trabalho informal é composta por pessoas negras. 

Ao caminhar pelas ruas e favelas do Rio, os dados são personificados. O cargo de cabo eleitoral tem forte presença feminina e negra e, para elas, é uma oportunidade para garantir comida na mesa, como do outro lado do Rio, no Complexo do Alemão. A diarista Lucilene da Conceição, de 37 anos, também recorre ao trabalho de cabo eleitoral para garantir um dinheiro além do que recebe como diarista e cuidadora. É a segunda vez que a moradora trabalha como “bandeirinha”.

Na capital fluminense, mais de 50% da população não consegue pagar suas dívidas, de acordo com a Casa Fluminense. As condições de trabalho não são fáceis, diz Conceição. A diarista começa às 14h e termina às 19h, totalizando 5 horas por dia, de segunda a domingo. A remuneração por quinzena trabalhada ajuda na criação dos três filhos que ela cuida sozinha e a pagar dívidas. 

“É R$800 a quinzena.  É pouco, mas dá para comprar a mistura, pagar o aluguel, botar comida dentro de casa, comprar um arroz, um feijão. Acaba agora semana que vem. Aí, depois disso, é correr atrás. Eu vivo de aluguel,  tenho três filhos, então, tenho que correr atrás. E Deus sempre faz aparecer coisa melhor na nossa vida”.

acredita Lucilene.

O serviço de cabo eleitoral, para cada candidato, possui um número limite de contratação previamente estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por meio do Anexo da Portaria TSE nº 444/2026, nas eleições de 2026 no Rio de Janeiro, para os respectivos cargos políticos os números determinados foram: presidente e senador são 5.220 pessoas; governador,10.440; deputado federal, 3.654, e deputado estadual,1827.

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