O ponto alto de um jornal é dar um furo. O furo é dado quando uma equipe de repórteres consegue apurar uma notícia e publicar a informação antes de todos os veículos. 

No sábado (8), uma de nossas colaboradoras, que pediu anonimato, embarcou com duas afilhadas, de 3 e 11 anos,  na estação Jardim Ocêanico do Metrô Rio, na Barra da Tijuca. Geralmente, os feriadões costumam esvaziar os transportes públicos. A criança mais nova estava no colo da madrinha e a mais velha sentada ao lado delas com bolsas. Haviam outros lugares vazios no vagão.

Ao chegar na estação Jardim de Alah, no Leblon, uma idosa branca entrou no vagão, viu as crianças sentadas e dirigiu insultos racistas à menina negra. Ignorando a presença da responsável pelas crianças. A madrinha (nossa colaboradora) não soube reagir ao que aconteceu.

No domingo (9) de Páscoa, um dia tranquilo para quem trabalha com jornalismo, foi marcado por um outro episódio. Max Ângelo e Viviane Maria Teixeira, ambos moradores da Rocinha, sofreram agressões e insultos racistas da ex-atleta Sandra Mathias Correia de Sá, em São Conrado.

Dessa vez, tudo foi filmado. Com celulares e câmeras de segurança de comércios. O ator norte-americano Will Smith disse uma vez: o racismo não está piorando, está sendo filmado”, disse em entrevista ao talk-show Late Show, em 2016.

O racismo cotidiano é uma realidade que afeta a vida de muitas pessoas em diferentes partes do mundo. No Brasil, essa problemática é ainda mais grave para aqueles que moram em áreas de favelas, onde o preconceito racial é ainda mais frequente e acentuado.

Os traumas raciais fizeram com que o Fala Roça não falasse da discriminação racial sofrida por nossa colaboradora, o Max, a Viviane e outros moradores que já vivenciaram situações racistas em São Conrado, o “quintal da Rocinha”.

Nós, jornalistas que vivemos em favelas enfrentamos o racismo diariamente e muitas vezes nos sentimos oprimidos, o que pode influenciar a forma como cobrimos o tema. A mídia em geral dá mais destaque a casos de racismos filmados, ignorando os casos de racismo cotidiano enfrentados pela população negra.

Mais da metade da população brasileira é formada por negros e pardos (54,9%). A população negra amarga os piores índices de desigualdade em vários setores. Os traumas raciais afetam a saúde mental das pessoas, gerando ansiedade, estresse e até mesmo depressão. Nas favelas, esses traumas são ainda mais intensos, pois muitas vezes as pessoas vivem em condições precárias e sem acesso aos recursos básicos de saúde.

A falta de oportunidades e a marginalização social geram um sentimento de inferioridade e impotência nas pessoas, o que contribui ainda mais para o agravamento dos problemas de saúde mental.

No Fala Roça, o furo jornalístico perdeu sentido, pois a dor de ver as cenas de agressões sofridas por Max e Viviane anulou as nossas capacidades humanas de denunciar o caso.

Agora, cabe à Justiça dar um rumo à história. Que as reivindicações dos movimentos sociais e a sociedade sejam ouvidas por quem está no poder (momentaneamente) e os crimes semelhantes de racismo sejam enquadrados na lei de injúria racial.

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